Alessandro Sberni*
A Groenlândia é a maior ilha do mundo, possuindo uma área de cerca 2 milhões de quilômetros quadrados (aproximadamente o tamanho do México), dos quais 80% são cobertos por uma camada permanente de gelo. Desde a posse do presidente Donald Trump, a ilha deixou de ser um remoto deserto de gelo para se colocar no centro de uma importante disputa geopolítica contemporânea.

Localizada entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico, a Groenlândia foi colonizada no século XVIII pela Dinamarca e até hoje permanece com o status de território autônomo daquele país. Desde o final da década de 70 do século XX, a população groenlandesa (estimada em 60.000 pessosas) possui autonomia sobre os assuntos internos, os recursos naturais e a identidade cultural, ficando, no entanto, as relações exteriores, a moeda e a defesa sob responsabilidade do governo dinamarquês.
CONTEXTO HISTÓRICO
A importância estratégica da Groenlândia ganhou destaque durante a Segunda Guerra Mundial e posteriormente durante a Guerra Fria. A localização geográfica da ilha mostrou-se fundamental para a instalação de sistemas de alerta antecipado contra mísseis soviéticos e para o controle de rotas aéreas entre a Europa e a América do Norte. Nesse contexto, foi realizada a instalação de bases militares pelos Estados Unidos no território da Groenlândia, como a Base Aérea de Thule, atualmente denominada Base Espacial de Pittufik, em operação até os dias atuais.
Atualmente, o degelo das calotas polares está alterando a dinâmica geopolítica da região. O que antes era uma barreira intransponível está se tornando uma via de passagem. O recuo do gelo marinho abre a possibilidade para novas rotas comerciais, como a Passagem do Noroeste1, reduzindo o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa, contornando gargalos como o Canal de Suez ou o Canal do Panamá.
VALOR GEOESTRATÉGICO
A Groenlândia se situa geograficamente no centro do chamado GIUK Gap (ou Lacuna GIUK, sigla para Groenlândia, Islândia e Reino Unido), um ponto de estrangulamento2 crucial para o controle das rotas marítimas entre o Atlântico e o Ártico, vital para a defesa e estratégia naval da OTAN, especialmente contra submarinos.
Com o aquecimento global e o progressivo derretimento do gelo do Ártico, a Groenlândia torna-se ainda mais relevante como ponto de apoio logístico, militar e científico para operações no extremo norte. O aumento da navegabilidade no Ártico amplia o interesse estratégico de Estados Unidos, Rússia, China e países europeus pela região. Tem-se aqui, um dos motivos do interesse dos Estados Unidos exercer sua soberania sobre a Groenlândia.
RECURSOS NATURAIS
A Groenlândia possui vastas reservas de recursos minerais estratégicos, incluindo terras raras3, urânio, zinco, ferro, ouro e possíveis reservas de petróleo e gás offshore. A crescente dependência global desses minerais, notadamente das terras raras, torna a Groenlândia um alvo de interesse para grandes potências, especialmente em um contexto de competição tecnológica e de cadeias globais de suprimento, no qual a China exerce forte influência. Eis aqui um outro fator que atrai o interesse do Presidente Donald Trump sobre o território groenlandês.
Entretanto, a exploração desses recursos enfrenta obstáculos significativos: custos elevados, infraestrutura limitada, preocupações ambientais, legislação bastante restritiva e resistência de setores da população local, que veem na preservação ambiental e cultural um valor central e inegociável.
O INTERESSE DAS POTÊNCIAS
Do ponto de vista militar, a Groenlândia continua sendo um ativo estratégico fundamental para os Estados Unidos e a OTAN. A Base de Pituffik integra sistemas de defesa antimísseis, vigilância espacial e alerta antecipado, elementos cruciais diante da modernização dos arsenais russo e chinês.
A China tem demonstrado interesse crescente pela Groenlândia, enquadrando o Ártico como parte de sua estratégia da “Rota da Seda Polar”. Empresas chinesas já manifestaram interesse em projetos de mineração, infraestrutura portuária e aeroportuária na ilha, o que certamente deve ter despertado preocupações no governo dos Estados Unidos, que tem procurado pressionar o governo da Dinamarca no sentido barrar ou mitigar esses projetos chineses na ilha.
A Rússia tem aumentado sua presença militar no Ártico, reativando bases da época da antiga União Soviética , investindo em quebra-gelos nucleares e fortalecendo sua capacidade de projeção regional. Embora a Groenlândia não esteja diretamente envolvida nessas ações, sua posição geográfica a torna parte do equilíbrio estratégico ártico, especialmente no contexto de dissuasão nuclear e controle do espaço aéreo e marítimo.
A BUSCA PELA SOBERANIA: O DILEMA DOS GROENLANDESES
Um aspecto fundamental, mas muitas vezes ignorado nas análises sobre o tema, é a aspiração de parcela da população da Groenlândia pela independência total da Dinamarca. Apesar do elevado grau de autonomia de que dispõem, muitos groelandeses (principalmente os mais jovens) aspiram que a ilha de torne um país totalmente independente.
No entanto, a total autonomia em relação à Dinamarca traz alguns dilemas, principalmente de ordem econômica :
1) Para se tornar independente, a Groenlândia necessita possuir uma economia autossustentável, o que nos dias de hoje está bastante longe de ser uma realidade. Atualmente a Dinamarca fornece um subsídio anual que representa aproximadamente metade do orçamento da ilha.
2) Mineração x Meio Ambiente : o caminho natural para a Groenlândia adquirir sua independência financeira passa necessariamente pela exploração mineral de seus vastos recursos. No entanto, os habitantes locais sabem que isso representaria um duro golpe no seu modo de vida tradicional, além dos riscos ambientais decorrentes da atividade mineradora. Além disso, a exploração teria que ser realizada por potências estrangeiras, o que não deixaria de ser uma forma de dependência.
CONCLUSÃO
A Groenlândia não é mais um deserto de gelo esquecido nos confins do mundo. Ela é o ponto de convergência onde a segurança nacional, a transição energética e a sobrevivência climática se encontram. Para a Dinamarca, a ilha é o que garante sua relevância nas mesas de negociação das grandes potências. Para os EUA e a OTAN, é o escudo do Norte. Para a China, é uma fronteira de recursos. Para a Rússia, um importante ponto no equilíbrio geopolítico do Ártico. E para os seus 60 mil habitantes, a Groenlândia é mais que tudo isso : a ilha é o seu lar.
O futuro da Grande Ilha está diretamente condicionado à forma como os groelandeses equilibrarão as pressões externas das grandes potências com seus próprios interesses bem como a forma como os Organismos Internacionais conduzirão quaiquer tentativas de mudar o status atual da Groenlândia mediante o emprego da força. A conferir.
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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin: https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre as novas rotas de navegação do Ártico: https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/31/geopolitica-do-artico/
2 Saiba mais sobre Pontos de Estrangulamento (Choke Points): https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/
3 Saiba mais sobre as Terras Raras : https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/06/terras-raras/

Interessante o texto. A Groenlândia que por muito tempo era uma região esquecida hoje se torna uma região de grande interesse das grandes potências mundiais.
Texto atual é alinhado com o contexto geopolítico contemporâneo!
Meu amigo Sberni, como vc foi feliz em tratar deste tema, tão atual e tão importante o novo equilíbrio geopolítico que se traça. É impressionante como a Groenlândia deixou de ser um “deserto de gelo” para virar o centro das atenções de gigantes como EUA e China. Teu artigo mostra que o que tem acontecido no Ártico hoje, de novas rotas comerciais a minerais estratégicos, vem ditando o ritmo da geopolítica global. Vale muito à pena a leitura.