As Potências Regionais e sua relevância geopolítica

Alessandro Sberni*

O cenário internacional do século XXI não é mais definido pela simplicidade bipolar da Guerra Fria ou pela breve hegemonia unipolar dos Estados Unidos no período pós queda da União Soviética. Nesse contexto, as potências regionais tem cada vez mais assumido um papel central na dinâmica geopolítica global, atuando como atores intermediários entre as grandes potências globais e os Estados de menor capacidade material e política.

Essas potências regionais emergem como atores relevantes da estabilidade e da instabilidade global, uma vez que conectam as dinâmicas “locais” às grandes decisões globais e, em muitos casos, desafiando ou limitando as ações das superpotências. Assim, compreender a importância geopolítica de países como o Brasil, a Turquia, o Irã, a Arábia Saudita, a África do Sul, a Índia e a Nigéria torna-se essencial para analisar as relações de poder e estabilidade no mundo atual.

relevância geopolítica

O QUE É UMA POTÊNCIA REGIONAL ?

De maneira simplificada, pode-se definir Potência Regional como aqueles Estados que, embora não detenham capacidade de projeção global comparável às grandes potências, possuem recursos materiais, demográficos, econômicos, militares e diplomáticos suficientes para exercer liderança e influência predominante em uma região geográfica específica. Em outras palavras, uma potência regional é capaz de articular interesses regionais, influenciar normas e instituições regionais e, em muitos casos, atuar como mediadora em eventuais conflitos na sua área geográfica de influência.

Para ser considerado uma Potência Regional, um Estado deve possuir alguns atributos, entre os quais destacam-se:

1) Superioridade Geográfica e Demográfica: Possuem território vasto e populações significativas que servem como mercado consumidor e força de trabalho.

2) Liderança Econômica: Atuam como o motor financeiro de seus vizinhos, muitas vezes liderando blocos de integração comercial (como o Brasil no Mercosul ou a África do Sul na SADC).

3) Capacidade de Projeção Militar: Embora não busquem necessariamente domínio global, possuem forças armadas capazes de assegurar a paz (ou exercer pressão) em seu entorno imediato.

4) Atuação ativa em instituições regionais e multilaterais : Funcionam como a “voz” de sua região em fóruns internacionais como o G20 ou a ONU, constituindo-se em uma liderança naturall, ainda que essa liderança não seja necessariamente consensual.

AS POTÊNCIAS REGIONAIS E SUA IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA

O papel de relevo no Sistema Internacional desempenhado pelas Potências Regionais manifesta-se em diferentes dimensões, a saber :

1) Segurança Regional: as potências regionais  muitas vezes atuam como provedores de segurança, mas também como revisionistas regionais, buscando alterar o status quo em favor de seus interesses estratégicos.

2) Integração Regional e Economia: a liderança econômica regional permite a essas potências influenciar padrões comerciais, investimentos em infraestrutura e fluxos financeiros, ampliando sua capacidade de projeção de poder por meios não militares. Tome-se o exemplo do Brasil, que desempenha papel fundamental no MERCOSUL, quer pelo tamanho de sua economia, quer pela sua capacidade de articulação diplomática.

3) Diplomacia e Governança Internacional: As Potências Regionais também exercem influência crescente na governança global. Sua participação ativa em fóruns como o G20, BRICS, Organização Mundial do Comércio (OMC) e Nações Unidas evidencia a busca por maior representação e por reformas na ordem internacional.

AS PRINCIPAIS POTÊNCIAS REGIONAIS

Sem a pretensão de esgotar o assunto, e sujeito a divergência de ideias e opiniões, pode-se dizer que na atualidade as principais Potências Regionais são as seguintes:

1) Índia: O Gigante do Sul Asiático1

A Índia é talvez o exemplo mais vibrante de potência regional em transição para potência global. Localizada em um ponto nevrálgico do Oceano Índico, ela equilibra sua relação com o Ocidente enquanto mantém autonomia estratégica frente à China. Sua importância geopolítica é tamanha que nenhum cálculo sobre o clima, tecnologia ou segurança marítima pode ignorar a vontade de Nova Deli.

2) Turquia: A Ponte entre Mundos2

A Turquia utiliza sua posição geográfica privilegiada entre a Europa, a Ásia e o Oriente Médio para exercer uma diplomacia pendular. Como potência regional, ela controla o acesso ao Mar Negro e atua como mediadora essencial em conflitos como o da Ucrânia, demonstrando que uma potência regional pode ter influência muito além de suas fronteiras imediatas se souber manejar seus ativos estratégicos.

3) Brasil: A Liderança pela Diplomacia

Diferente de outras potências que utilizam o “Hard Power” (poder militar), o Brasil construiu sua relevância regional através do “Soft Power” e da diplomacia ambiental. Em um mundo focado na transição energética, o Brasil se posiciona como uma potência regional indispensável, pois detém as chaves para a preservação da biodiversidade e a segurança alimentar global.

4)Irã: O Eixo da Resistência no Oriente Médio3
O Irã consolida-se como uma das mais complexas potências regionais do Oriente Médio ao combinar profundidade histórica, capacidade militar assimétrica e influência ideológica. Sua importância geopolítica decorre menos de sua economia e mais de sua habilidade em projetar poder por meio de aliados e parceiros estratégicos, do Líbano ao Iêmen, moldando o equilíbrio regional sem recorrer a confrontos diretos com grandes potências. Além disso, sua posição no Golfo Pérsico e o controle indireto sobre rotas energéticas críticas tornam Teerã um ator impossível de ser ignorado em qualquer arquitetura de segurança regional.

5) Arábia Saudita: O Poder Energético como Instrumento de Influência
A Arábia Saudita exerce sua condição de potência regional principalmente por meio do controle dos fluxos energéticos globais e de sua centralidade no mundo islâmico. Como maior exportadora de petróleo e líder de fato da OPEP, Riad utiliza o petróleo não apenas como recurso econômico, mas como instrumento geopolítico, influenciando mercados, alianças e decisões estratégicas de potências globais. Sua relevância regional é ampliada pela custódia dos lugares sagrados do Islã, o que lhe confere legitimidade política e simbólica singular no Oriente Médio.

6) África do Sul: A Âncora Política do Continente Africano
A África do Sul destaca-se como potência regional por sua capacidade institucional, econômica e diplomática em um continente marcado por assimetrias profundas. Com a economia mais diversificada da África Subsaariana e uma diplomacia ativa, Pretória atua como interlocutora entre a África e o sistema internacional, especialmente em fóruns multilaterais como o BRICS e o G20. Sua importância geopolítica reside na habilidade de articular estabilidade regional, promover integração econômica e representar os interesses africanos em debates globais sobre desenvolvimento, governança e reforma da ordem internacional.

7) Nigéria: O Colosso Demográfico da África Ocidental
A Nigéria emerge como potência regional fundamental na África Ocidental graças à combinação de peso demográfico, capacidade econômica e centralidade estratégica. Detentora da maior população do continente e de vastos recursos energéticos, o país exerce influência decisiva sobre a estabilidade política e de segurança da região, especialmente no combate ao extremismo e ao crime transnacional. Sua liderança na Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) reforça o papel nigeriano como ator-chave na definição do futuro político e econômico do continente africano.

Potencias Regionais

OS DESAFIOS E O DILEMA DA LIDERANÇA REGIONAL

Ocupar a posição de Potência Regional não traz somente bônus ao Estado que a pleiteia. Essas Nações frequentemente também enfrentam pesados ônus por ocuparem essa posição de liderança, entre as quais pode-se citar:

1) Custos de Manutenção: A potência regional muitas vezes precisa arcar com os custos de infraestrutura e segurança dos vizinhos mais pobres, o que pode gerar resistência interna da população.

2) Rivalidades Regionais: A ascensão de uma potência costuma gerar desconfiança em vizinhos menores ou rivais diretos. A rivalidade Irã vs. Arábia Saudita no Oriente Médio é o exemplo clássico de como a busca pela hegemonia regional pode levar a guerras por procuração (proxy wars).

3) Pressão das Superpotências: Potências regionais são constantemente assediadas por EUA e China para “escolherem um lado”. Manter a neutralidade enquanto se extrai benefícios de ambos os lados é o maior desafio diplomático atual.

CONCLUSÃO

As potências regionais constituem atores de grande relevo na atualidade. Sua importância geopolítica decorre não apenas de suas capacidades materiais, mas de sua habilidade de moldar dinâmicas regionais de segurança, economia e diplomacia. Em um mundo cada vez mais multipolar, esses Estados tendem a desempenhar papel cada vez mais ativo, seja como estabilizadores regionais, mediadores de conflitos ou competidores estratégicos.

Em outros termos, potências regionais deixaram de ser meros “satélites” para se tornarem os eixos centrais da política mundial. Compreender as potências regionais é, portanto, fundamental para a análise das transformações da ordem internacional, bem como para a formulação de políticas externas realistas e eficazes. A evolução de seu papel dependerá tanto de fatores internos quanto da interação com grandes potências e instituições internacionais, tornando-as protagonistas incontornáveis da geopolítica do século XXI. A conferir.

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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1) Saiba mais sobre a Índia: https://www.geopoliticando.com.br/2025/08/23/india-desafios-geopoliticos/

2) Saiba mais sobre a Turquia: https://www.geopoliticando.com.br/2025/11/14/turquia/

3)Saiba mais sobre o Irã: https://www.geopoliticando.com.br/2025/06/20/artigo-ira/

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