O Sudão importa para a geopolítica global?

Rafael Cunha de Almeida*

A conquista da cidade de El Fasher, no Oeste do Sudão e capital do estado de North Darfur, após 18 meses de cerco no final de outubro de 2025 pelas tropas da RSF (Rapid Support Force) comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo (“Hemetti”) , trouxeram a atenção de reportagens internacionais pelo extremo de violência utilizada contra a população civil e os deslocamentos populacionais de centenas de milhares de pessoas.

As atrocidades generalizadas (algumas divulgadas em mídias), os relatos de execuções sumárias, homicídios motivados por questões étnicas, violência sexual, raptos e ataques deliberados a civis trouxeram à visibilidade questões e debates sobre os horrores da guerra que se estende, nesta fase, desde 2023.

Sudão

Reforço a referência a “nesta fase”, pois as razões do conflito, sua duração e processos históricos do país e da região são pouco compreendidas e mesmo estudadas, e difíceis de serem captados pela pouca atenção, oriunda de vários matizes e razões para o mundo não ter voltado os olhos para a região da África subsaariana nilótica e  as crises- que só neste século- se estendem desde a década de 1950 no Sudão, e no seu vizinho, o Sudão do Sul, onde morei e trabalhei pela ONU durante a eclosão da Guerra Civil em 2013-14, atuando justamente em análise de risco, facilitação e condução de ajuda humanitária e Proteção de Civis em áreas de conflito.

Desde 2005, ano do Acordo de Paz entre o Sudão e Sudão do Sul e estabelecimento da primeira missão da ONU (UNMIS- United Nations Mission in Sudan) até o presente na subsequente UNMISS (United Nations Mission in South Sudan), o Brasil contribuiu com mais de 350 militares, homens e mulheres, das três Forças Armadas e Polícias Militares nas chamadas “missões individuais”, ou seja, em funções de planejamento ou  atuando no terreno como Oficiais de Ligação Militares e/ou Observadores em variadas tarefas (todas desarmados, com segurança proporcionada pelas tropas dos contingentes militares da ONU presentes lá).

Este pessoal é preparado para estas tarefas pelo CCOPAB (Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil), no Rio de Janeiro, organização militar subordinada ao Ministério da Defesa e que possui a chancela e padronização de cursos pela ONU, realizando também alguns cursos para civis. Também existem, em número não contabilizado, vários civis brasileiros que trabalharam nos dois países, seja pela ONU, outras Organizações Internacionais e ONGs. Alguns historiadores e analistas de Relações Internacionais brasileiros também são africanistas conceituados sobre a região

Uma primeira lente para observar o conflito atual no Sudão e seus reflexos é sob a perspectiva de Clausewitz, não só no clássico axioma da Guerra como continuação da política com entremistura de outros meios (ou seja, analisar a motivação que torna decisória as razões do emprego da violência), mas também no que tange a identificar as diferentes categorias de conflitos e seus impactos. Neste aspecto, o conceito de Rupert Smith de “guerra no meio do povo” complementa algumas particularidades da categorização do tipo de conflito que ocorre na região, e das dinâmicas 

 A História dos dois países, antes o maior Estado africano até 2011, independência do Sudão do Sul, é indissociável. Como dizem especialistas consagrados na produção acadêmica atual sobre a região (de Waal, Douglas Jonhson, Ryle, LeRiche etc), o Sudão não tem uma História, mas múltiplas Histórias. A isso se somam as visões de escritores locais e mesmo o tradicional estudo de Evans-Pritchard, de onde surgiram bases da antropologia, não surpreendentemente, no fluxo regional, pelo estudo de um conflito envolvendo o povo Nuer e as autoridades coloniais inglesas na década de 1930-40.

Abordar a realidade da geopolítica regional passa por uma complexa e entrelaçada rede de entendimento sobre fé, guerra e escravidão (conforme traz a historiadora Patrícia Teixeira Santos) no contexto cultural local, numa perspectiva de História global e de longa duração que contemple as variações dos eixos de poder mundial e internacional que influenciaram os seus processos históricos, sem deixar de resgatar os sujeitos históricos envolvidos, os quais o estruturalismo das ciências sociais tem reduzido a importância (segundo Yves Mudimbe, filósofo e historiador congolês).

Ao entendermos “de que África estamos falando”, suas especificidades, trazer o espectro de que existe uma História africana antes dos colonizadores (que não conseguiram integralmente controlar todos os seus processos, muito embora seja vigente certa visão eurocêntrica disso, mas que sim desestruturaram e/ou interferiram significativamente) é que começaremos a compreender o que se chamou da formação anômala do estado sudanês. Anômala, pois ela não é igual à maioria dos processos de colonização e/ou descolonização dos países africanos.

Para começar, cabe observar que naquele espaço geográfico, desde a antiguidade conviveram duas grandes civilizações, competindo pela hegemonia regional, a egípcia e a que ficou conhecida como Núbia. Ambas disputavam recursos e a geopolítica hídrica do Nilo, a qual traz reflexos ainda atualmente, seja nos conflitos das guerras civis sudanesas (o primeiro ataque do SPLA, Sudan People Liberation Army, na 2ª guerra civil na década de 1980, foi contra um projeto de canalização das águas do Nilo conduzido pelo governo sudanês). 

Na atualidade, as questões da grande barragem hidrelétrica da Renascença, na fronteira da Etiópia com o Sudão, inaugurada em 2025, trouxe tensões entre Egito e os demais países, crescendo de importância à medida que as RSF se aproximam na conquista de territórios também naquela direção. 

O que se costuma chamar de Império Núbio, os reinos de Kerm, Kush, Napata e  Meroé , eram reinos cosmopolitas conectadas pelo Vale do Nilo de Norte a Sul e pelas rotas transaarianas, penetrando no continente em todas as direções, ligando outros impérios, povos e regiões. O comércio pelo Mar Vermelho a Leste, pelo também cosmopolita Império de Axum, onde desde o século I a III DC floresceram redes comerciais marítimas que se ligavam à China, Índia e ao mediterrâneo, ligava-se por via terrestre à Antiga rota da seda, conectando

O antigo Império Persa e o império chines (hegemônico na Asia do século XI ao XIV).  Durante seu apogeu, o Império Otomano era a influência externa marcante, e só depois do fechamento das rotas do mar mediterrâneo, é que a Europa começou a se projetar maritimamente, como todos sabem, buscando retomar as linhas comerciais interrompidas.

Como diz Peter Frankopan, o chamado Oriente Médio e estas rotas que ali se afunilavam, naquilo que hoje se acostumou chamar de “choke points1”, era o “coração do mundo”. O centro motor e impulsionador do comercio mundial, o que se torna visível com a expansão da nova rota da seda chinesa no século XXI e que ajuda a compreender as tensões e apreensões sobre a influência externa naquela região, que vai muito além do crucial interesse econômico no petróleo, sendo este fator econômico muito mais recente do que o, tangível agora, interesse e importância geopolítico mundial desta área.

Seguindo esta analogia, se ali é o coração do mundo, o vale do Nilo, suas ligações com as rotas transaarianas e as conexões marítimas são verdadeiras artérias continentais por onde fluíam imensos e variados recursos- em particular ouro, marfim e escravos – os quais se encontravam também no centro das disputas da formação do que veio a ser o estado sudanês. Sendo que estas rotas se conectavam, pode-se então dizer que se o Oriente Médio é o coração do mundo em termos geopolíticos na longa duração da história, a região africana do Sudão é uma verdadeira” encruzilhada” do mundo.

A interligação Norte -Sul e Leste-Oeste do espaço geopolítico africano por dominação colonial e investimento em infraestrutura foi tentada no século XIX pelos portugueses com a estratégia do “mapa rosa” e pelos ingleses com a ferrovia Cairo-Cabo. Ligar as rotas oceânicas africanas com o Sahel e o mediterrâneo é contornar os impeditivos de “choke-points” costeiros, garantindo acesso a miríade de recursos e evitando que interrupções no Oriente Médio afetem o fluxo econômico e de recursos gerando crises mundiais, como ocorreram seja na queda de Constantinopla, do Império Persa ou na crise do petróleo dos anos 70 do século XX.

No meio destes caminhos, fica a área central sudanesa. Após as tentativas de controle oriundas das disputas de hegemonia entre Egito Antigo e Kush, desde a antiguidade, no século XIX este fez um avanço sobre a área, conquistando-a em nome do Império Otomano. O colonialismo inglês acabou exercendo o controle sobre ambos, mas com muitas ressalvas, criando um Estado que englobava civilizações, povos, reinos, etnias, religiões e conflitos que não haviam sido resolvidos.

Não é o clássico exemplo de análise de “dois grupos distintos colocados sobre domínio colonial e instigados a se confrontarem”, mas algo muito mais antigo, complexo e difuso.  A região, de fato, nunca conseguiu ser controlada pelos poderes coloniais, levando a uma independência do Sudão e processos infindáveis de violência dos mais variados matizes.

O que parece é um abandono proposital em meio ao caos, numa espera estratégica de não consumir esforços, deixando uma área imensa de valiosos recursos e valor geopolítico “mascarada” e isolada, e esse pode ser um dos fatores dos muitos que contribuem para um apagamento da região no mapa das preocupações mundiais. Com a independência do Sudão do Sul, a China investiu na presença e apoio ao novo país, encontrando uma verdadeira “válvula de escape logística” para suprimento de petróleo no caso de interrupção do funcionamento do “coração o mundo” e da impossibilidade de acesso aos recursos sudaneses, trancados ainda no conflito que se estende hoje.

Entretanto, o avanço da guerra no Sudão apresenta novos desafios geopolíticos, que talvez façam as atenções serem retomadas. A Oeste, no Sahel2, redes de contrabando terrestre exploram recursos em direção à Costa Atlântica e mediterrânea. A presença russa seja no Sudão e no Sahel desequilibra os arranjos internacionais de poder. Redes extremistas islâmicas também atuam nestas áreas , trazendo questões sobre terrorismo.

O controle das áreas de Oeste do país pela RSF dá acesso a estas atividades, e o avanço para o Mar Vermelho permitiria acesso a regiões portuárias, ligações com a pirataria do Chifre da África e, também, com redes de extremistas islâmicos desta vez desta parte e com a Eritréia. O controle das barragens na fronteira com a Etiópia desequilibraria a geopolítica hídrica do Nilo, trazendo transtornos gravíssimos ao Egito e todos os países ao Sul servidos pelo Rio e seus afluentes.

Nesta dinâmica, os países da península arábica retomaram também seus interesses particulares e apoio seja ao governo ou aos rebeldes, o que pode estender atritos ao oriente Médio pelo controle da costa africana do Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, o Governo Norte-americano retoma contato com países do Sahel.

Porém, enquanto os interesses mundiais, de forma bem específica procuram de forma discreta e silente ampliar a influência sobre uma área estratégica – e estrategicamente- negligenciada, o avanço e amplitude da violência no conflito sudanês continua a consumir vidas e gerar sofrimento que só pontualmente alcançam a mídia mundial e, de fato, sem um esforço efetivo de minorar a catástrofe humanitária a qual o mundo observa como espectador pontual.

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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior. Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Licenciado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. . Mestre em Estratégias de Defesa pela National Defense University, Beijing (China). Doutor em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi Oficial de Ligação das Nações Unidas no Sudão do Sul durante a Guerra Civil (2013-2014). Foi Chefe da Seção de Política e Estratégia da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e Comandante do 3º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Bagé/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/rafael-almeida-ph-d-052a1743/

1 Conheça mais sobre os Choke Points: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/

2 Conheça mais sobre a região do Sahel : https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/17/sahel/

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