Jordânia: um pilar de estabilidade no Oriente Médio

Alessandro Sberni*

A Jordânia, cujo nome oficial é Reino Hashimita da Jordânia, ocupa um lugar singular no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Em uma região frequentemente marcada por convulsões sociais, conflitos armados e transições de regime abruptas, o país tem sido historicamente descrito como um “oásis de estabilidade”.

Sua geopolítica combina fragilidade estrutural interna, posição geográfica estratégica e habilidade diplomática para sobreviver em um ambiente regional reconhecidamente instável. Apesar de suas limitações territoriais, econômicas e demográficas, o país consolidou-se como um ator moderador, fundamental para o equilíbrio regional e para os interesses das grandes potências.

Jordânia

A Jordânia possui uma extensão territorial de cerca de 89 mil quilômetros quadrados (semelhante à area do Estado de Santa Catarina) e localiza-se no coração do Oriente Médio, a oeste do Rio Jordão. O país limita-se com Israel, Cisjordânia, Síria, Iraque e Arábia Saudita. Essa posição geográfica peculiar confere ao país um papel de zona-tampão geopolítica, especialmente entre áreas de conflito crônico e polos de poder regional. Diferentemente de seus vizinhos, a Jordânia não possui grandes reservas de petróleo ou gás , o que levou o país a desenvolver uma política externa mais orientada pela diplomacia, segurança e alianças estratégicas do que pela projeção econômica.

O REGIME POLÍTICO JORDANIANO : CONTINUIDADE E LEGITIMIDADE


O regime político jordaniano é uma monarquia constitucional liderada pela dinastia hachemita, atualmente sob o reinado do Abdullah II, que encontra-se no poder desde fevereiro de 1999, após a morte de seu pai, o rei Hussein. A legitimidade da monarquia deriva tanto de sua linhagem histórica quanto de sua capacidade de garantir estabilidade em um contexto regional volátil. Internamente, o governo equilibra reformas graduais, controle político e políticas de bem-estar limitadas, evitando rupturas abruptas que possam comprometer a coesão social.

A legitimidade do Rei também possui uma dimensão religiosa profunda. Como descendente direto do Profeta Maomé e Guardião dos Lugares Santos de Jerusalém (o Complexo de Al-Aqsa), o monarca exerce uma influência moral que transcende fronteiras. Essa custódia é um elemento vital do tratado de paz de 1994 com Israel e garante à Jordânia um assento permanente em qualquer discussão sobre o status final da questão palestina.

Em seus mais de 25 anos de reinado, o Rei Abdullah II tem conciliado uma imagem de um líder modernizador e que, ao mesmo tempo respeita as tradições tribais que formam o amálgama da monarquia jordanian. Diferente de outras autocracias regionais que colapsaram durante a Primavera Árabe, a monarquia jordaniana respondeu aos protestos não apenas com segurança, mas com promessas de reformas graduais.

SEGURANÇA REGIONAL: A ESTRATÉGIA JORDANIANA

A segurança regional constitui-se em um dos alicerces da política externa da Jordânia. A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, transformou o país em um importante local de acolhimento de refugiados. Estima-se que centenas de milhares de sírios cruzaram a fronteira fugindo do conflito. Tal situação pressionou fortemente os serviços públicos, o mercado de trabalho e infraestrutura do país .

Mesmo assim , a Jordânia manteve uma política migratória relativamente liberal, reforçando sua imagem internacional como parceiro humanitário confiável. Paralelamente, o país intensificou sua cooperação militar e de inteligência com os Estados Unidos e aliados europeus para conter ameaças transnacionais, como o terrorismo e o tráfico de armas.

Ainda considerando o seu entorno, a Jordânia atua como mediadora discreta. Embora raramente lidere iniciativas diplomáticas de grande visibilidade, o país frequentemente serve como canal de comunicação entre atores que não mantêm diálogo direto. Essa postura reflete uma tradição de política externa cautelosa, baseada na neutralidade relativa e na busca por equilíbrio entre potências concorrentes. Diferentemente de países que adotam estratégias revisionistas, a Jordânia é um ator conservador do status quo, interessado na manutenção das fronteiras e das estruturas estatais existentes.

A DIMENSÃO GEOPOLÍTICA

Em âmbito global, a Jordânia ocupa posição estratégica para o Ocidente. O país é um aliado-chave dos Estados Unidos fora da OTAN e recebe volumes significativos de ajuda financeira e militar. Essa relação é baseada em interesses convergentes: estabilidade regional, combate ao terrorismo e contenção da influência de atores considerados hostis, como o Irã e grupos armados não estatais. Ao mesmo tempo, a Jordânia mantém relações pragmáticas com países do Golfo, dos quais depende para investimentos, remessas financeiras e apoio orçamentário.

Entretanto, a Expressão Econômica do Poder Nacional1 da Jordânia apresenta vulnerabilidades relevantes. A escassez de recursos naturais, a dependência energética e o déficit hídrico crônico limitam as opções de desenvolvimento. A água, em particular, é um elemento estratégico crucial, sendo um elemento bastante escasso no país.

Projetos de cooperação regional, como acordos de dessalinização e compartilhamento de recursos hídricos com Israel, demonstram como a geopolítica jordaniana está profundamente entrelaçada com a gestão de bens escassos. Nesse sentido, a sobrevivência do Estado Jordaniano depende tanto da diplomacia quanto da capacidade de integrar-se a iniciativas regionais de infraestrutura.


No campo político, o conflito prolongado entre Israel e o Hamas em Gaza colocado a diplomacia jordaniana em uma “corda bamba” perigosa. De um lado, o governo mantém um tratado de paz impopular mas estrategicamente vital com Israel; de outro, enfrenta uma opinião pública fervorosamente pró-palestina que exige o rompimento desses laços com o governo de Tel-Aviv.

A vitória do braço político da Irmandade Muçulmana (Frente de Ação Islâmica) nas eleições parlamentares de setembro de 2024 refletiu esse descontentamento entre parcela da população jordaniana, levando o país a realizar um “esforço diplomático”, condenando a violência no território palestino e realizando operações de suprimento aéreo em Gaza, coordenados pessoalmente pela família real.

Em relação à Expressão Militar, o fato recente mais relevante foi a previsão da reativação do Serviço Militar Obrigatório a partir de 2026, o que sinaliza que a Jordânia visualiza cenários de instabilidade prolongada em suas fronteiras, e que a paz é algo incerto e instável na região.

O QUE ESPERAR DO FUTURO ?

Os desafios para o futuro da Jordânia não são triviais.  O crescimento populacional, as altas taxas de desemprego entre a juventude, a pressão fiscal e os impactos das crises regionais são fatores que testarão a resiliência do modelo político-social jordaniano. Além disso, a instabilidade recorrente no conflito israelo-palestino e as incertezas quanto a situação da Síria e do Iraque mantêm elevado o risco geopolítico em seu entorno.  A capacidade da Jordânia de continuar exercendo seu papel estabilizador dependerá da manutenção do apoio externo e da implementação de reformas econômicas que ampliem a inclusão social e o bem estar de sua população.

Sintetizando, a geopolítica da Jordânia é marcada por um paradoxo fundamental: um Estado pequeno, com recursos limitados, mas dotado de elevada relevância estratégica. Sua importância não reside na projeção de “hard power”, mas na habilidade de atuar como elemento de estabilidade em uma das regiões mais conflituosas do sistema internacional.

Ao combinar diplomacia pragmática, alianças estratégicas e gestão cuidadosa de suas vulnerabilidades internas, a Jordânia permanece como um dos pilares silenciosos da ordem regional do Oriente Médio. Manter a sua relevância geopolítica no tabuleiro regional e manter suas questões internas sob relativo controle constituem-se nos principais desafios a serem enfrentados pelo governo do Rei Abdullah II. A conferir.

E você ? Qual o seu pensamento sobre o papel da Jordânia no Oriente Médio ? Entre com contato com a Equipe Geopoliticando ou deixe sua opinião nos comentários. Opine ! Critique ! Participe !

Geopolítica da Jordânia

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Conheça mais sobre as 5 Expressões do Poder Nacional : https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/10/poder-nacional/

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