Alessandro Sberni*
O Oriente Médio tem sido o epicentro das tensões geopolíticas mundiais nas últimas décadas. Nenhum evento que ocorre na região possui apenas impactos regionais. Ao contrário, as “ondas de choque” dos conflitos que lá ocorrem atravessam oceanos e impactam economias e estratégias de segurança a milhares de quilômetros de distância.
Nesse contexto, o Brasil não fica imune ao conflito atual no Oriente Médio. Os reflexos não são apenas diplomáticos, mas permeiam várias áreas, que vão desde o preço do combustível no varejo até o posicionamento do país nos fóruns internacionais.

O CONTEXTO ATUAL E A GEOPOLÍTICA DA ENERGIA
Muito além dos Estados Unidos, Irã e Israel, o atual conflito no Oriente Médio envolve uma teia complexa de atores estatais e não estatais, onde a disputa por profundidade estratégica1 coloca face a face interesses geopolíticos diversos e conflitantes. O controle de pontos de estrangulamento (choke points2) marítimos, como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, por onde circulam diariamente elevado percentual da produção mundial de petróleo, são variáveis fundamentais dessa equação.
Para o Brasil, a primeira e mais imediata consequência do conflito é a volatilidade dos preços do petróleo. Embora o país tenha alcançado uma posição de exportador líquido de óleo bruto, a nossa matriz de refino ainda nos torna dependentes da importação de derivados. A política de preços da Petrobras, atrelada ao mercado internacional, faz com que qualquer instabilidade no Golfo Pérsico se traduza em inflação interna.
O aumento dos custos de frete marítimo, devido aos riscos de ataques em rotas estratégicas, encarece toda a cadeia produtiva brasileira, que é fortemente dependente do transporte rodoviário, grande consumidora de óleo diesel.
EQUILÍBRIO NA POLARIZAÇÃO: O DESAFIO DA DIPLOMACIA BRASILEIRA
Um dos pilares históricos da diplomacia brasileira é pautar-se pelos princípios da não intervenção, pela autodeterminação dos povos e pela busca de soluções pacíficas para os conflitos. Diante do atual cenário no Oriente Médio, o Itamaraty encontra-se em um ponto de equilíbrio bastante delicado.
De um lado, há a necessidade de preservar relações comerciais robustas com os países árabes e o Irã , que são grandes compradores de commodities agrícolas brasileiras. De outro, a relação com Israel envolve cooperação tecnológica e militar, além de uma pressão interna de setores da sociedade. A busca do Brasil por um papel de maior relevância nos fóruns globais e os interesses brasileiros em muitas áreas exigem que o país se posicione de forma cuidadosa e equilibrada, sem alienar parceiros estratégicos de nenhum dos blocos em conflito.
FERTILIZANTES E SEGURANÇA ALIMENTAR: O CALCANHAR DE AQUILES
O atual conflito entre o Irã, Estados Unidos e Israel traz em seu bojo um outro reflexo menos evidente, mas de vital importância para a economia brasileira: os insumos agrícolas. O agronegócio, como motor da economia nacional depende significativamente da importação de fertilizantes para manter o seu nível de produtividade.
A instabilidade regional e o risco de fechamento de rotas comerciais podem comprometer o fluxo desses insumos para o Brasil, uma vez que a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo , são fornecedores essenciais de fosfatos e derivados de nitrogênio, componentes essenciais para a fabricação de fertilizantes. Assim, a segurança alimentar brasileira está intrinsecamente ligada à estabilidade logística da região do Golfo.
Uma interrupção prolongada do fluxo marítimo do Estreito de Ormuz não apenas elevaria os custos de produção, mas poderia reduzir a produtividade da safra brasileira , impactando a balança comercial e também a segurança alimentar global, em virtude do fato do Brasil ser grande exportador de allimentos.
A FUGA PARA A QUALIDADE: REFLEXOS NO MERCADO FINANCEIRO
Existe uma máxima nos mercados financeiros globais que diz que “o dinheiro odeia a incerteza”. Em momentos de conflito armado envolvendo potências regionais, investidores tendem a realizar a chamada “fuga para a qualidade” (flight to quality), buscando refúgio em ativos considerados seguros, como o ouro e o dólar.
No mercado interno, isso se traduz em desvalorização do Real frente ao Dólar e volatilidade dos diversos índices do mercado financeiro, como o Ibovespa e o IFIX (Índice de Fundos Imobiliários), impactados pelo receio do aumento da inflação e o consequente aumento de juros. Além disso, a simples expectativa de aumento das taxas de juros e da inflação impactam negativamente a chamada “economia real”, com empresários adiando decisões de investimentos, o que influencia negativamente o crescimento do PIB.
A GUERRA DAS NARRATIVAS E A SEGURANÇA CIBERNÉTICA
A guerra moderna não se limita ao terreno físico expandindo-se para o domínio cibernético e para a o domínio informacional. O Brasil não está imune a a esse contexto. O aumento de ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas em escala global, muitas vezes oriundos de grupos ligados a Estados ou atores não-estatais alinhados a alguma das partes em conflito, acende o alerta para a adoção de medidas adequadas de segurança cibernética nas infraestruturas críticas brasileiras.
Além disso, a polarização ideológica alimentada pelas redes sociais em torno do conflito no Oriente Médio gera reflexos na política interna brasileira. A disseminação de desinformação e o uso de narrativas extremistas por ambos os lados podem fragilizar a coesão social, exigindo um maior esforço governamenta da contrainteligência estratégica para identificar e neutralizar essas ações.
A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Enquanto o Oriente Médio queima petróleo para financiar sua influência, o mundo acelera seu processo de transição energética. Caso o atual conflito no Oriente Médio se prolongar e obrigar o mundo a acelerar na direção da utilização massiva de novas formas de energia como alternativa ao petróleo, o Brasil se posiciona como um ator releveante para capitanear os investimentos em formas alternativas de energia, como o etanol e o biodiesel.
Além disso, o prolongamento do cenário conflituoso no Oriente Médio pode acelear a produção de veículos movidos a eletricidade. Nesse contexto, a América do Sul pode assumir uma maior relevância geopolítica, em decorrência do Triângulo do Lítio3 , que terá importância capital no fornecimento de insumos para a fabricação de baterias desses novos veículos.
CONCLUSÃO
Do exposto, verifica-se que os reflexos do conflito atual no Oriente Médio deixam claro que a geografia não é mais uma barreira para as consequências das hostilidades Devido ao alto impacto que o prolongamento da guerra pode trazer ao país, observa-se que o país precisa desenvolver políticas de Estado, focadas na busca pela autossuficiência no refino de fertilizantes, com o objetivo de diminuir sua exposição a choques externos.
Além disso, é fundamental que o Brasil adote uma postura diplomática pragmática e sem viés ideológico, visando a manutenção de canais de diálogo que atendam aos objetivos nacionais permanentes e realize investimentos no sentido de fortalecer a defesa nacional, tanto em materiais de emprego militar convencionais quanto em equipamentos de inteligência e equipamentos de defesa cibernética que permitam a identificação e a neutralização de ameças às infraestruturas críticas nacionais.
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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Conheça mais sobre o conceito de Profundidade Estratégica : https://www.geopoliticando.com.br/2025/09/06/profundidade-estrategica/
2 Saiba mais sobre os Choke Points: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/
3 Leia mais sobre o Triângulo do Lítio : https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/04/triangulo-do-litio/

Parabéns, Sberni, gostei muito da análise geopolítica. Bem sóbria. Mais um excelente artigo sobre os reflexos do conflito no Oriente Médio para o Brasil. Uma análise clara e oportuna, em que você conecta a dinâmica geopolítica regional aos impactos econômicos e estratégicos para o nosso país. Acho uma leitura essencial para quem busca compreender os desdobramentos globais do atual cenário internacional.