Erick C. Betat de Souza*
A guerra do petróleo no Oriente Médio não é só um problema “lá fora”. Ela afeta diretamente o custo do diesel, dos fretes e, por consequência, a competitividade da indústria e do agronegócio no Brasil. O artigo “What Happens After the Oil War Ends? 1”, de autoria de Giacomo Prandelli mostra que o maior risco não é apenas quando o cessar-fogo chega, mas o que sobra da infraestrutura de produção e exportação depois da guerra.

Para quem lidera Supply Chain no Brasil, faz sentido pensar em três cenários simples:
1) Cenário 1 – Normalização rápida. O bloqueio do Estreito de Ormuz começa a diminuir em alguns meses, parte das refinarias e terminais volta a operar e o prêmio de risco nos preços de petróleo/diesel recua ao longo de 2026. Para o Brasil, isso tende a significar um pico de custo de diesel e frete em 1 safra, com impacto relevante mas passageiro em margens do agro e da indústria. É “um degrau para cima”, mas não uma mudança estrutural.
2) Cenário 2 – Guerra prolongada. O bloqueio e os ataques a infraestrutura se estendem por mais de 6–12 meses, mantendo fora do mercado uma parte importante do petróleo do Golfo. Nesse cenário, o Brasil continua importando diesel caro por mais tempo, pressionando fretes rodoviários (que respondem por cerca de 65% da carga no país) e aumentando o custo logístico da indústria e do agro por mais de um ciclo.theicct+1 Aqui o risco é ver aumentos de frete em dois dígitos em corredores críticos e uma compressão mais persistente de margens, especialmente em cadeias de baixo valor agregado.
Cenário 3 – Choque estrutural. Mesmo após um acordo, a reconstrução de refinarias, terminais e oleodutos leva anos; a capacidade global só volta perto dos níveis pré-crise por volta de 2027.O resultado é um novo patamar estrutural de preço para diesel, afetando de forma permanente o “Custo Brasil” em logística. Nesse ambiente, quem não investir em eficiência (energia, roteirização, armazenagem, mudança modal) tende a perder competitividade.

Do ponto de vista de Supply Chain, o que um gestor brasileiro pode fazer diante desses cenários?
1) Fretes e transportes: testar internamente cenários de +10%, +25% e +35% em custos de frete rodoviário, para entender quais produtos, clientes e rotas deixam de ser viáveis em cada hipótese.
2) Indústria: mapear o peso de logística e energia no custo total, e simular o impacto de choques prolongados de diesel nas margens, priorizando projetos de eficiência e de localização de plantas.
3) Agronegócio e originadores: simular 2 ou 3 safras com diesel e frete mais caros, combinando com câmbio e preços internacionais, para identificar regiões e culturas mais vulneráveis e antecipar ajustes de contrato, armazenagem e prazo de escoamento

Os percentuais aqui não são previsões, mas stress tests para planejamento. A mensagem central do artigo ( e que vale para o Brasil) é clara: mesmo que a guerra acabe “rápido”, o efeito da destruição de capacidade produtiva e de exportação de petróleo pode ficar com a gente por anos.
Para Supply Chain, isso significa tratar o choque atual não só como uma crise de curto prazo, mas como um gatilho para revisar matriz logística, contratos e investimentos em resiliência.
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(*) Coronel do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro, Mestre em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos da ECEME, na linha de Gestão de Defesa, com sólida atuação na interface entre logística, educação corporativa e finanças aplicadas ao setor de Defesa. Possui dois MBAs – em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria e em Logística e Supply Chain Management.
Foi Comandante do 12º Batalhão de Suprimento em Manaus. Operou em contingente brasileiro em Força de Paz no Haiti. No nível estratégico, exerceu funções de comando e estado‑maior como assessor técnico-normativo na Secretaria de Economia e Finanças do Exército, Formulador de Doutrina e analista do Centro de Doutrina do Exército, Chefe da Seção de Planejamento e Integração da Força-Tarefa Logística Humanitária – Operação Acolhida, Chefe do Estado‑Maior da 9a Região Militar, além de ter atuado como Assessor Militar na Assessoria de Comunicação da Vice‑Presidência da República em posição vinculada ao Gabinete de Segurança Institucional. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/erick-c-6ab52a43/
1 Leia o artigo completo : https://themerchantsnews.substack.com/p/what-happens-after-the-oil-war-ends

Sberni, o artigo do amigo Betat, que tive a honra de conhecer em Manaus durante o comando dele, vai além do óbvio ao mostrar que o desafio para o nosso supply chain não termina com um cessar-fogo; o verdadeiro impacto reside na reconstrução da infraestrutura e no “Custo Brasil” logístico que isso gera a longo prazo. Os três cenários propostos são ferramentas essenciais de stress test para qualquer gestor de logística, indústria ou agronegócio que pretenda manter a competitividade em 2026 e 2027.