O futuro das transferências internacionais

Vinícius Ramos Monteiro*

Nos últimos anos, a indústria de pagamentos internacionais entrou em um ciclo acelerado de transformação. Avanços tecnológicos, novos modelos de liquidação em tempo real, a ascensão das moedas digitais e um ambiente geopolítico cada vez mais fragmentado estão redesenhando a forma como pessoas e empresas enviam recursos além-fronteira. As transferências internacionais, que antes dependiam exclusivamente de bancos correspondentes, longas cadeias de compliance e prazos muitas vezes imprevisíveis, agora migra para sistemas mais eficientes, integrados e descentralizados.

Mas se o futuro dessas transferências aponta para maior velocidade e menor custo, ele também traz consigo dilemas estratégicos, disputas regulatórias e tensões entre blocos econômicos que precisam ser consideradas para entender o cenário que está se formando.

Transferencias internacionais

Transformações tecnológicas que estão redefinindo o setor

1. Infraestruturas de pagamentos instantâneos interconectadas

Diversos países estão integrando seus sistemas de pagamentos instantâneos, seguindo movimentos como PIX internacional, Nexus (BIS), FedNow, TARGET Instant Payment e UPI indiano.
O objetivo é claro: permitir que transferências internacionais aconteçam em segundos, com custos reduzidos e regras de compliance padronizadas.

2. Stablecoins e tokenização

Stablecoins lastreadas em moedas fortes (USDC, USDT, EURC) estão sendo incorporadas por fintechs, grandes bancos e até bancos centrais como uma solução eficiente para liquidação global.
A tokenização de ativos, por sua vez, promete simplificar processos de identificação, rastreabilidade e governança.

3. CBDC1s e interoperabilidade

Mais de 130 países estudam ou já testam suas próprias moedas digitais de banco central.
Se interconectadas, as CBDCs podem criar um novo padrão global de compensação – instantâneo, rastreável e com menos intermediários.

O fator geopolítico: o maior desafio da próxima década

A inovação tecnológica avança rapidamente, mas a geopolítica avança lentamente, e nem sempre na mesma direção. O futuro das transferências internacionais dependerá da capacidade dos países e blocos econômicos de conciliar suas agendas estratégicas.

1. Competição entre Estados Unidos e China

A disputa por influência global atinge diretamente o sistema financeiro.
Enquanto os EUA tentam consolidar o dólar digital e reforçar seu poder sobre o sistema SWIFT2 e as sanções financeiras, a China evolui com o e-CNY e com redes alternativas de liquidação para reduzir dependência do padrão norte-americano.

Essa competição cria incertezas para fintechs, bancos e órgãos reguladores que buscam padrões universais.

2. Fragmentação regulatória

Cada jurisdição impõe regras próprias para KYC (“Conheça seu cliente”, na sigla em inglês), AML(Combate à lavagem de dinheiro), PLD (Prevenção à lavagem de dinheiro), privacidade de dados, emissões de stablecoins e operação de criptoativos.
A ausência de um marco global uniforme aumenta o custo de compliance e reduz a escalabilidade das soluções.

3. Soberania monetária e receio de desintermediação

Bancos centrais temem perder controle sobre política monetária caso stablecoins internacionais ou CBDCs estrangeiras ganhem tração.
Isso leva muitos países a adotarem posturas defensivas, criando barreiras que atrasam novas implementações.

4. Risco sistêmico e segurança digital

Cibersegurança, ataques a infraestruturas críticas e manipulação de dados tornam-se preocupações centrais à medida que sistemas globais ficam mais conectados.

O que esperar dos próximos anos

1. Convergência entre sistemas tradicionais e blockchain

A tendência não é substituição, mas integração. SWIFT já opera testes com redes tokenizadas, bancos começam a liquidar operações em stablecoins e reguladores exploram modelos híbridos.

2. Pagamentos internacionais mais rápidos, baratos e transparentes

Mesmo com tensões geopolíticas, a pressão do mercado – especialmente de empresas importadoras, exportadoras e de remessas – forçará os reguladores a buscar padrões interoperáveis.

3. Novos players globais

Fintechs, plataformas cripto e emissores de stablecoins passam a atuar em pé de igualdade com bancos tradicionais na liquidação transfronteiriça.

4. Maior supervisão regulatória

A inovação virá acompanhada de mais exigências de compliance, auditoria, trilhas de rastreamento e identificação digital avançada.

um futuro promissor, mas ainda em construção

A próxima década definirá como o dinheiro cruzará fronteiras. O potencial para transferências instantâneas, com custos simbólicos e rastreabilidade total, já está tecnicamente disponível. Contudo, a verdadeira implementação depende de harmonização regulatória, acordos multilaterais e de um ambiente geopolítico menos fragmentado.

O futuro pertence aos ecossistemas que conseguirem unir inovação, segurança e conformidade – permitindo que pessoas e empresas se conectem financeiramente sem fronteiras, mas com responsabilidade. Em um mundo cada vez mais digital e interdependente, construir essa infraestrutura é não apenas uma vantagem competitiva, mas uma necessidade global.

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(*) Empreendedor e especialista em câmbio e comércio exterior. Fundador da Hood, fintech focada em soluções de remessas internacionais e assessoria para empresas importadoras e exportadoras, atua há anos apoiando negócios na redução de custos, estruturação de operações internacionais e gestão de riscos cambiais. Possui experiência prática em mercado financeiro, operações internacionais e estratégia para empresas que operam globalmente.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/viniciusramosmonteiro/

Conheça mais sobre os CBDC (Central Bank Digital Currency): https://www.bcb.gov.br/meubc/faqs/p/moeda-digital-ou-eletronica

Saiba mais sobre o Sistema SWIFT: https://www.swift.com/

4 comentários em “O futuro das transferências internacionais”

  1. Krístian Carlos Silva Amazonas

    Particularmente, o assunto me agrada muito Sberni. As transferências internacionais avançam para um modelo mais rápido, barato e descentralizado, mas seguem condicionadas por disputas regulatórias e geopolíticas.
    Mas deixo aqui, uma dúvida para o Vinícius me responder, se ele puder,m. Nesse novo cenário, até que ponto as criptomoedas e as stablecoins poderão se consolidar como instrumentos legítimos de liquidação global?

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