A Geopolítica do Báltico

Alessandro Sberni(*)

A região do Báltico ocupa uma posição central nas disputas geopolíticas contemporâneas. Localizada no nordeste europeu, entre a parte ocidental do Europa e a Rússia, a região báltica tem se tornado um dos principais pontos de fricção geoestratégica no século XXI. Estrategicamente falando, a região do Báltico funciona como um corredor vital entre o Atlântico Norte e o interior da Europa. Sua proximidade com a Rússia, particularmente com o enclave russo de Kalingrado, confere à região uma importância capital tanto nos planejamentos militares da OTAN como de Moscou. Acrescenta-se, ainda, o fato de que  o Báltico abriga importantes rotas comerciais, cabos de comunicação e infraestruturas energéticas o que potencializa o seu valor geoestratégico.

CONTEXTO HISTÓRICO

A histórica do países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) é caracterizada por ciclos de ocupação estrangeira e independência. Durante séculos a região foi dominada por alemães, suecos, poloneses e russos. Após a Primeira Guerra Mundial, os países bálticos conquistaram a sua independência. No entanto, a autodeterminação durou pouco: em 1940 os três países foram anexados à União Soviética pelo Tratado de Molotov-Ribbentrop.

Balticos

A ocupação soviética durou até 1991 e causou um “trauma histórico” que até os dias de hoje influencia a política externa dessas nações, particularmente suas percepções de segurança e identidades nacionais.

Em 2004, os três países bálticos aderiram à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um movimento geopolítico que redefiniu o equilíbrio de forças na região. Para a Letônia, Estônia e Lituânia, a adesão apresentou-se como uma garantia de sua soberania e de sua segurança coletiva, ao passo que para a Rússia esse movimento da OTAN foi percebido como uma ameaça direta à sua área de influência histórica.

PAÍSES BÁLTICOS: QUEM SÃO ?

Embora os países bálticos sejam frequentemente agrupados para fins de análises e estudos sobre a região, os três países possuem matizes sócio-culturais, focos e objetivos estratégicos distintos entre si, o que torna a análise regional mais densa e complexa. Vamos conhecer um pouco mais sobre esses países ?

1) Estônia

A Estônia é conhecida como sendo o “Tigre Digital” da região báltica. Com uma população de aproximadamente 1,5 milhão de habitantes, com profundos laços culturais com a Finlândia o país focou a sua estratégia na modernização tecnológica e na cibersegurança. Sua capital, Tallinn, é a sede do Centro de Excelência em Defesa Cibernética Cooperativa da OTAN.

O país possui uma minoria russa estimada em cerca de 25% de sua população, especialmente na região de Narva, na fronteira com a Rússia. Nesse contexto, é inevitável o estabelecimento de paralelos à situação vivida pela Ucrânia em sua porção leste, fazendo com que a Estônia enfrente desafios relacionados à coesão social e a influência informacional externa, particularmente da Rússia e da Bielorússia.

2) Letônia

A Letônia ocupa uma posição geográfica central entre os países bálticos, possuindo um contingente populacional de aproximadamente 2 milhões de pessoas. Assim como a Estônia, também apresenta uma expressiva população de origem russa, principalmente em sua capital, Riga, onde estima-se que metade da população seja de origem russa. Nesse contexto, o país tem buscado a execução de políticas de integração nacional associadas a medidas de segurança nacional e de reforço da soberania e da identidade nacional, para prevenir-se de eventuais pretensões territoriais russas.

A Letônia desempenha um importante papel como centro econômico e logístico da região báltica. O país tem procurado desenvolver alternativas energéticas para diminuir a dependência dos hidrocarbonetos russos, tornando-se nos últimos anos uma das vozes mais ativas na comunidade internacional sobre o tema da transição energética.

3) Lituânia

A Lituânia possui uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. De forma distinta de seus vizinhos bálticos, o país possui um percentual reduzido de russos em sua população (estima-se em 5%) o que de certa forma minimiza os problemas de coesão social enfrentados pela Letônia e pela Estônia.

A Lituânia possui uma localização estratégica singular devido a sua proximidade com o chamado Corredor de Suwalki, uma faixa de aproximadamente 100 km ao longo da fronteira entre a Polônia e a Lituânia, considerado como o ponto mais vulnerável da OTAN, uma vez que, dominado pelos russos, os países bálticos ficariam isolados no restante da Europa. Acrescenta-se, ainda, que o Corredor de Suwalki é a ligação natural entre a Bieorrússia (aliado tradicional da Rússia) e o enclave de Kalingrado, localizado entre a Polônia e a Lituânia.

GEOPOLÍTICA REGIONAL

1) A OTAN os Países Bálticos

Desde a invasão da Criméia pela Rússia em 2014 o status da presença da OTAN nos países bálticos evoluiu de “simbólica” para “dissuação ativa”. Dessa forma, a OTAN desdobrou vários Batalhões Multinacionais em cada um dos três países, visando garantir uma resposta imediata à qualquer eventual incursão russa.

Além disso, a OTAN incrementou a realização de diversas missões de patrulhamento aéreo dos países bálticos, empregando aeronaves de caça de vários páises em sistema de rodiízio, visando garantir a inviolabilidade do espaço aéreo dos três países da região.

2) As relações com a União Europeia

Os três países bálticos são membros da União Europeia e fazem parte da Zona do Euro desde 2004. Dessa forma, os três países tem se demonstrado como defensores ferrenhos de uma política externa “linha-dura” contra regimes autoritários. Os países bálticos tem sido os maiores doadores “per capita” de ajuda militar à Ucrânia, em sua guerra contra a Rússia.

Por outro lado, as sanções impostas à Rússia tem afetado a economia dos países bálticos, uma vez que os três países historicamente tem servido como “portos de trânsito” para as mercadorias russas. No entanto a prioridade dada à segurança nacional tem superado as eventuais perdas econômicas decorrentes da mitigação das relações comerciais com os russos. Como exemplo, pode-se citar o desacoplamento dos três países das redes elétricas oriundas da Rússia e a paralisaçao da importaçao do gás natural russo.

3) As relações com a Rússia

Sob o ponto de vista de Moscou, a presença de forças da OTAN nos países bálticos é visto como uma séria ameaça que faz parte de um cerco deliberado aos russos. Cabe lembrar que a distância entre a fronteira dos países bálticos até a capital da Rússia é de aproximadamente 600 km e que esse espaço geográfico faz parte da Grande Planície Oriental Europeia, o que facilitaria o emprego de tropas blindadas e mecanizadas da OTAN em uma eventual campanha militar contra a Rússia.

Para se contrapor a essa ameaça, a Rússia tem se utilizado do chamado Soft Power, utilizando-se da mídia estatal russa para tentar angariar o apoio da comunidade russófona existente nos países bálticos. Além disso, os russos também tem empregado ferramentas da “Guerra Híbrida”, como desinformação, ataques cibernéticos e pressões migratórias para procurar criar divisões internas nas sociedades bálticas.

Cabe destacar que nesse delicado tabuleiro, a peça mais sensível é o enclave de Kalingrado, entre a Polônia e a Lituânia. Essa porção do território russo é altamente militarizada, abrigando mísseis com capacidade nuclear e sistemas de negação de área (A2/AD) capazes de dificultar a atuação dos meios navais da OTAN em caso de conflito na região.

CONCLUSÃO

A tensão geopolítica na região do Mar Báltico é o reflexo do mundo multipolar em conflito no qual vivemos nos dias atuais. A região, caracterizada por ser uma área de fricção entre o mundo ocidental e a Rússia deixou de ser uma “area periférica” para se transformar em uma área de disputas geopolíticas latentes.

Apesar de atualmente o “pêndulo geopolítico” ter conduzido a Estônia, a Letônia e a Lituânia para o lado ocidental, não se pode descartar que uma Rússia cada vez mais isolada e imprevisível possa a vir realizar ações cinéticas sobre os países bálticos, usando o mesmo pretexto utilizado na Ucrânia (a defesa de povos russófonos) para a conquista de seus objetivos territoriais.

Nesse contexto, não é exagero se afirmar que, nas próximas décadas, a estabilidade da Europa e do mundo ocidental está diretamente ligada à solidez das fronteiras bálticas. A OTAN sabe disso. E a Rússia também. A conferir !

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(*) *) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

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