A crise no Irã: causas, consequências e reflexos globais

Alessandro Sberni *

No final de 2025 e início de 2026 o Irã1 passou a atravessar um dos momentos mais dramáticos e decisivos de sua história moderna. O país encontra-se mergulhado em uma crise multidimensional que combina colapso econômico, efervescência social sem precedentes e um isolamento geopolítico agravado por conflitos militares recentes. A crise no Irã, que começou como uma reação à carestia de vida, transformou-se em um desafio existencial à República Islâmica, com reflexos que redesenham o equilíbrio de poder no Oriente Médio e impactam a geopolítica global.

Crise no Irã

A atual situação do país persa é a síntese de décadas de contradições internas do regime do aiatolá Khamenei2, potencializada por uma insatisfação crescente de considerável parcela de sua população, farta de viver sob um regime brutal e ditatorial, além de diversos outros acontecimentos recentes, que se constituem nas causas da atual crise, conforme veremos a seguir.

CAUSAS DA CRISE IRANIANA

1) Crise econômica

A economia do Irã encontra-se em um crise profunda. Em dezembro de 2025 a inflação oficial ultrapassou os 42%. No entanto, para itens essenciais como alimentos e remédios esse índice supera os 70%. A moeda iraniana, o rial, tem sofrido com uma desvalorização sem precedentes. A título de exemplo, um dólar norte-americano compra mais de 1.000.000 de riais.

As principais causas da crise econômica podem ser atribuídas às sanções impostas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais em retaliação à recusa do governo de Teerã em suspender o seu programa nuclear, ao déficit crônico (em grande parte gerado por gastos militares crescentes) e a má gestão de recursos essenciais, como a escassez na rede de distribuição de água, as quedas constantes na rede elétrica que afetam sobremaneira o setor produtivo do país.

2) A Guerra dos 12 dias e o retrocesso nuclear

Em meados de 2025, o Irã foi alvo de uma ofensiva aérea coordenada por Israel e pelos Estados Unidos, conhecida como a “Guerra dos 12 Dias”. O ataque atingiu instalações nucleares críticas e infraestruturas de energia. Além de atrasar o programa nuclear iraniano em anos, a operação destruiu a aura de invulnerabilidade do regime e expôs sua fragilidade tecnológica frente às potências ocidentais.

3) Descontentamento sócio-político acumulado

Ao longo dos últimos anos, setores diversos — comerciantes, estudantes, mulhers, trabalhadores e minorias étnicas — acumularam descontentamento por falta de oportunidades, corrupção e limitação de liberdades civis. Esse mal-estar socioeconômico há muito vinha se traduzindo em greves e pequenos protestos, normalmente reprimidos com violência pelo regime iraniano, causando uma espiral cada vez maior de revolta e descontentamento.

O DESPERTAR DAS RUAS

A onda de protestos que vem ocorrendo desde dezembro de 2025 é considerada a maior desde 2022, tendo se espalhado por todas as 31 províncias do Irã e envolvendo dezenas de milhares de pessoas. As demandas evoluíram de queixas econômicas para chamados por mudanças políticas mais profundas, incluindo insatisfação com a liderança clerical e, em alguns casos, menções à figura do príncipe exilado Reza Pahlavi, solicitando reformas estruturais. Em contrapartida, o governo tem também encorajado manifestações pró-regime para tentar demonstrar apoio popular ao sistema e desacreditar os protestos como mero “conluio externo”.

De maneira distinta das manifestações anteriores (ocorridas em 2009 e 2022), observa-se que as manifestações iniciadas em dezembro de 2025 possuem uma coalização social mais ampla, abarcando diversos setores da sociedade que até então haviam se mantido à margem de manifestações contra o regime de Khamenei.

A mobilização popular e a divisão crescente entre setores da sociedade e elites religiosas/militares fragilizam a legitimidade do regime, criando um clima de incerteza política cada vez mais difuso. A resposta do regime iraniano tem sido dura e violenta. Organizações de direitos humanos e observadores internacionais denunciam que a repressão das forças de segurança resultaram em centenas de mortos, além de milhares de prisões. Também existem relatos de tortura e execuções sumárias.

Além disso, visando conter o avanço dos protestos, o governo de Teerã tem adotado medidas como o bloqueio nacional da internet, dificuldando as comunicações e a organização dos opositores do regime, bem como desencadeado Operações de Informação, com o objetivo de moldar a narrativa, atribuindo a tentativa de desestabilização a atores estrangeiros, como Israel e os Estados Unidos.

A instabilidade política e a repressão contra comerciantes e trabalhadores aprofundam a crise econômica, prejudicam a produção, diminuem o investimento e exacerbam a inflação. A escassez de bens essenciais aumenta ainda mais a pressão social, retroalimentando as causas da crise e tornando-a cada vez maior.

REFLEXOS INTERNACIONAIS

1) Reações globais

Diversos países da União Europeia condenaram a repressão e impuseram sanções diplomáticas ao Irã. Por outro lado, potências como China, Rússia e Turquia tem declarado se opor a qualquer forma de intervenção estrangeira na crise iraniana, afirmando tratar-se de uma questão interna do país.

Tais posicionamentos refletem uma clara divisão de pensamentos: enquanto para as potências ocidentais o tema do respeito a direitos humanos é central, para as potências não ocidentais, que defendem a não interferência, o tema central é o fortalecimento de seus laços estratégicos com Teerã.

2) A reação dos Estados Unidos

O governo dos EUA, sob Donald Trump, tem intensificado a pressão econômica, inclusive ameaçando aplicar tarifas de 25% sobre países que mantiverem relações comerciais com o Irã como forma de ampliar o isolamento econômico do regime de Khamenei. 

Ao mesmo tempo, Washington tem expressado apoio aos manifestantes e verbalizado que os Estados Unidos podem intervir militarmente no país, caso a violência atinja proporções incontroláveis. Entretanto, diversos analistas alertem que intervenções externas podem ser contraproducentes em termos de estabilidade interna do país e da estabilidade do próprio Oriente Médio.

3) Impacto no Oriente Médio

A instabilidade no Irã tem reflexos diretos na região: o país é um importante ator em regionais, além de ser um produtor significativo de petróleo e controlador de rotas marítimas no Golfo Pérsico3. A incerteza política e medo de escalada militar com a participação de potências extra-regionais podem afetar mercados de energia e também as alianças regionais.

Esse situação de expectativa e incerteza impacta diretamente no preço do petróleo em virutude de uma uma possível redução nos volumes de produção ou no estrangulamento das rotas de exportação.

PERSPECTIVAS

O regime de Khamenei entra em 2026 em uma encruzilhada. O governo tenta retomar o controle através da censura (bloqueios de internet) e da força, mas as causas econômicas da insatisfação são estruturais e não serão resolvidas com repressão.

Nesse contexto, além da manutenção do status quo, apresentam-se três cenários mais prováveis para o futuro do Irã :

1) Militarização do Poder: A Guarda Revolucionária pode assumir um papel ainda mais direto na governança, transformando a teocracia em uma ditadura militar explícita para conter a fragmentação do Estado.

2) Implosão e Transição: Um colapso do regime sob pressão das ruas, sanções e apoio militar explícito de países ocidentais, o que abriria um período de instabilidade imprevisível, com possibilidade de eclosão de uma guerra civil prolongada.

3)Negociação sob Coerção: O regime pode ser forçado a aceitar um novo acordo internacional humilhante em troca de alívio imediato de sanções para evitar sua queda.

Em síntese, a situação atual do Irã em 2026 é o resultado de um longo acúmulo de problemas econômicos, sociais e políticos que culminaram em um dos maiores levantes populares das últimas décadas. O regime de Khamenei enfrenta um dilema: continuar na rigidez autoritária e internalizar a crise, ou buscar reformas profundas que possam reconfigurar seu papel regional e global.

As consequências e reflexos dessa escolha afetarão não apenas os iranianos, mas também a estabilidade no Oriente Médio e as dinâmicas internacionais de poder nas próximas décadas. A conferir.

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O tema dessa semana foi sugerido pelo AYLTON, um dos nossos leitores mais assíduos, a quem agradecemos pela sugestão e consideração !

(*)  Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre o Irã: https://www.geopoliticando.com.br/2025/06/20/artigo-ira/

2 Saiba mais sobre o líder iraniano Aiatolá Ali Khamenei: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/16/quem-e-ali-khamenei-implacavel-lider-supremo-que-enfrenta-seu-maior-desafio-no-ira.ghtml

3 Conheça um pouco mais sobre os Pontos de Estrangulamento (Choke Points) globais: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/


3 comentários em “A crise no Irã: causas, consequências e reflexos globais”

  1. Krístian Carlos Silva Amzonas

    Excelente e esclarecedora análise sobre a crise no Irã meu amigo Sberni. Essa foi uma leitura que muito contribuiu para ampliar meu conhecimento (QR) sobre a complexidade política, social e geopolítica desse país.
    Conteúdo profundo, atual e essencial para compreender os reflexos globais desse momento histórico.

  2. Fábio Alves da Costa

    Excelente análise Sberni. A situação é muito volátil e vai redundar em mudanças tanto para o Irã quanto para boa parte do mundo, considerando a complexidade da geopolítica que você tão bem explana para nós. Obrigado! Abraço!

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