Alessandro Sberni*
O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE), recentemente assinado em Assunção, representa um dos marcos mais significativos da diplomacia global no século XXI. Após mais de vinte anos de negociações intermitentes, a finalização deste tratado não é apenas um feito comercial, mas uma manobra geopolítica de alta magnitude que redefine o papel da América do Sul no tabuleiro internacional e consolida a posição da Europa como um regulador global de padrões.

Trata-se de um acordo que conecta dois importantes polos econômicos e políticos do sistema internacional, reunindo, de um lado, o Mercosul e, de outro, a União Europeia, um dos maiores blocos econômicos do mundo. Sua importância transcende a dimensão comercial, projetando impactos estratégicos, políticos, econômicos e normativos de longo alcance global.
No decorrer do texto, texto analisaremos as implicações geopolíticas dessa aliança, estruturadas em torno do equilíbrio de poder, da segurança alimentar, do fornecimento de matérias primas e da governança ambiental.
O EQUILÍBRIO DE PODER EM UM MUNDO MULTIPOLAR
A assinatura do tratado ocorre em um momento de profunda fragmentação da ordem global. Com a crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a União Europeia tem buscado obter uma “autonomia estratégica”. Assim sob o ponto de vista da União Europeia, o Mercosul é o parceiro ideal para reduzir a dependência excessiva de cadeias de suprimentos asiáticas, principalmente no tocante à China.
Já para o Mercosul, notadamente para o Brasil e a Argentina, o acordo com a UE funciona como um contrapeso necessário. Nos últimos anos, a China tornou-se o principal parceiro comercial da região, o que gerou uma “primarização” das exportações sul-americanas. Ao selar o pacto com a UE, o bloco sul-americano diversifica suas alianças, evitando ficar “refém”, quer da órbita de Pequim quer da órbita de Washington.
Em um cenário mundial onde o protecionismo está se tornando cada vez mais forte, a celebtação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia sinaliza que o multilateralismo ainda é uma ferramenta viável. O tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, abrangendo quase 800 milhões de pessoas e cerca de um quarto do PIB mundial.
SEGURANÇA ALIMENTAR E ENERGÉTICA: O TRUNFO DO MERCOSUL
Sob a lente da Geopolítica, o Mercosul detém o que o mundo mais necessita no século XXI: recursos naturais. Nesse contexto, acordo facilita o fluxo de produtos agrícolas e matérias-primas essenciais da América do Sul para a Europa, que enfrenta desafios de segurança alimentar e de matéria-prima para seu parque industrial, exacerbados pela postura beligerante da Rússia nos últimos anos.
Desse modo, o acordo Mercosul-UE garante um acesso facilitado do mercado europeu aos maiores produtores mundiais de grãos e de de proteina animal, proporcionando condições favoráveis para a garantia da segurança alimentar do Velho Continente. Acrescenta-se, ainda, que o tratado também inclui disposições sobre o acesso a minerais essenciais para a transição energética (como o lítio, abundante no chamado Triângulo do Lítio1, entre a Argentina, o Chile e a Bolívia). Para a União Europeia, possuir um fluxo de suprimento desses minerais sem depender exclusivamente da China é uma questão prioritária de segurança continental.
A DIPLOMACIA VERDE E O EFEITO BRUXELAS
Um dos pontos mais sensíveis e politicamente relevantes do acordo assinado em Assunção é a inclusão de cláusulas rigorosas sobre o desenvolvimento sustentável e o cumprimento do Acordo de Paris. Durante as longas negociações a União Europeia utilizou seu poder de barganha para incluir seus padrões ambientais nos dispositivos do Acordo.
Para o Brasil e seus vizinhos, o tratado impõe o desafio e a oportunidade de combater o desmatamento ilegal e promover uma agropecuária de baixo carbono. Tal situação tem o potencial de elevar o status do Mercosul: o bloco deixa de ser visto apenas como um exportador de commodities e passa a ser um parceiro estratégico na mitigação da crise climática global, facilitando o acesso a fontes de financiamentos externos que utilizam padrões ambientais como um de seus criérios de investimento.
Este fenômeno é conhecido como o “Efeito Bruxelas”, onde as normas regulatórias da UE acabam se tornando o padrão global devido ao tamanho e à importância do seu mercado consumidor e ao volume de suas fontes de financiamento e investimento.
A INTEGRAÇÃO REGIONAL E ESTABILIDADE POLÍTICA
A assinatura em Assunção também possui um valor simbólico para a coesão interna do Mercosul. O bloco enfrentou crises de identidade e tensões ideológicas profundas nos últimos anos. A implantação efetiva do tratado exigrá uma harmonização de normas técnicas, sanitárias e jurídicas entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai que antes eram negligenciadas e relegadas a um segundo plano.
Pode-se afirmar que o sucesso do acordo reforça a liderança brasileira no continente sul-americano e também valida a estratégia da integração regional como a via adequada para a inserção internacional dos países da região. Além disso, ao realizar um Acordo dessa magnitude com um parceiro estável como a União Europeia, os países do MERCOSUL demonstram também possuir um ambiente interno de maior estabilidade institucional, condição essencial para atrair cada vez mais investimentos estrangeiros diretos e incrementar as suas economias.
DESAFIOS E ASSIMETRIAS
Apesar do entusiasmo, a importância geopolítica do tratado também traz em seu bojo riscos de assimetria. Críticos argumentam que o acordo pode perpetuar uma relação “centro-periferia”, onde a Europa exportará produtos industrializados de alto valor agregado e o Mercosul focará em produtos básicos, em um retorno às estruturas colonialialistas da época do mercantilismo.
Para que o impacto geopolítico seja plenamente positivo para o Mercosul, os países do bloco precisarão utilizar o acesso ao mercado europeu para impulsionar a inovação tecnológica interna e buscar constantemente a agregação de valor aos seus produtos. O tratado inclui cláusulas de cooperação técnica que, se bem aproveitadas, podem ajudar no desenvolvimento industrial sustentável da América do Sul.
CONCLUSÃO: UM NOVO EIXO GLOBAL ?
O Tratado Mercosul-União Europeia não é apenas sobre tarifas alfandegárias; é sobre a construção de um eixo transatlântico que equilibra as tensões entre o Ocidente e o Oriente. Ao assinar este documento em Assunção, os líderes sul-americanos enviaram um recado claro: o Mercosul está aberto ao mundo, mas sob termos que buscam alinhar crescimento econômico com responsabilidade ambiental e autonomia política.
Em última análise, o acordo reposiciona o Mercosul no centro das discussões sobre o futuro da governança global, garantindo que a América do Sul não seja apenas um espectador das decisões tomadas por outros atores, mas um protagonista ativo na definição das regras do comércio e da sustentabilidade no século XXI. A conferir.
E você ? Qual o que pensa sobre o Acordo MERCOSUL-UE ? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando ! Opine ! Critique ! Participe !
(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre o Triângulo do Lítio: https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/04/triangulo-do-litio/

Excelente artigo do Cel Sberni, e aproveitando o espaço acrescentaria a questão das cláusulas deste acordo, de forma que realmente venha a integrar os países que compõe o Mercosul no vô contexto das decisões globais, e que não seja, como sempre foi, colônia desses mesmos países que neste momento se aproximam. Vale lembrar que enquanto o efeito beligerante de Moscou não se traduzia em ameaça havia uma resistência enorme por parte da união europeia na assinatura desse tratado. Diante disso sou cético e só com o tempo essas questões irão se dissipar.
Obrigado pelo comentário, Sandro! De fato, a assimetria entre as economias dos países da UE e do Mercosul podem ser uma questão delicada ! A conferir nos próximos anos ! GRande abraço !!
Excelente! Espero que o Parlamento europeu faça sua concordância! Creio que será muito bom para o Brasil.