Vinícius Ramos Monteiro*
Um termo em inglês, “affordability”, tem se consolidado como um fator decisivo em eleições nos Estados Unidos e na Europa, e analistas apontam que ele pode influenciar fortemente a disputa eleitoral de 2026 no Brasil. O conceito, traduzido como “custo de vida” ou “poder de compra”, refere-se à capacidade real das pessoas de custear bens e serviços do dia a dia.

Sua proeminência global cresceu em um cenário de alta da inflação, impulsionada pelo período pós-pandemia e pela Guerra da Ucrânia, transformando a perda do poder de compra em um fator decisivo nas urnas.
O Precedente Internacional: como o custo de vida influenciou votos
O impacto da inflação foi sentido de forma mais intensa em países como os Estados Unidos e as nações europeias, historicamente acostumados a índices inflacionários muito baixos. Essa nova realidade econômica abriu espaço para que o tema do “affordability” se tornasse central em diversas campanhas políticas, com resultados práticos, como os citados abaixo:
- Vitórias democratas nos EUA: campanhas vitoriosas do Partido Democrata em eleições locais focaram diretamente na vida cotidiana dos eleitores. Em Nova York, Zohran Mamdani conquistou eleitores ao centralizar suas pautas em torno dos preços de aluguel e do apoio a pequenas empresas. Já em Nova Jersey, a deputada democrata Mikie Sherrill garantiu sua eleição com uma campanha voltada à redução do custo da energia elétrica e dos serviços públicos, à facilitação do acesso à moradia e ao apoio aos pequenos negócios.
- Pressão sobre o governo Trump: a crise do poder de compra nos Estados Unidos tem sido um ponto de pressão para o governo Trump. Uma pesquisa da CNN revelou que 61% dos americanos acreditam que as políticas do governo pioraram as condições econômicas do país. Como resposta, a gestão passou a sinalizar a intenção de negociar e reduzir tarifas sobre produtos importados, como o café, com o objetivo explícito de diminuir os preços ao consumidor final.
- Europa: Em países como França, Alemanha e Espanha, iniciativas focadas em subsídios, controles de preços e reformas fiscais foram centrais nas plataformas eleitorais, influenciando tanto a mobilização de eleitores jovens quanto a realocação de votos de partidos tradicionais para alternativas mais radicais ou populistas. Além disso, a interação entre inflação e políticas de bem-estar social contribuiu para debates sobre a legitimidade dos mecanismos europeus de coordenação econômica. Em síntese, a questão da affordability não apenas refletiu uma preocupação material imediata, mas também reconfigurou alinhamentos políticos, evidenciando a crescente demanda por políticas públicas capazes de mitigar desigualdades e proteger o padrão de vida dos cidadãos.
A Realidade Brasileira: por que “Affordability” importa para o Brasil?
Essa ressonância do “affordability” no cenário internacional não é um fenômeno distante. Ela ecoa diretamente na percepção dos brasileiros, como mostram dados recentes. Uma pesquisa da Quaest indica que 61% dos brasileiros acreditam conseguir comprar menos hoje com sua renda do que há um ano.
Essa percepção generalizada de perda do poder de compra coloca o custo de vida como um tema inevitável no debate político. O analista Leonardo Paz, da Fundação Getulio Vargas (FGV), é categórico: “Eu posso garantir com 100% de certeza, e são poucas as coisas que posso afirmar com esse nível de convicção em entrevistas, que esse tema será central nas eleições de 2026 , porque o custo de vida é um dos principais temas em qualquer país em desenvolvimento.”
O Impacto no Voto: qual camada da população sente mais?
Embora o aumento dos preços afete toda a população, a análise de Leonardo Paz aponta que a classe média tende a ser mais sensível ao impacto da inflação. Esse grupo social “fica mais espremido”, pois não é tão beneficiado por programas de transferência de renda e sente de forma mais direta o aumento dos preços de bens e serviços.
O professor de Ciência Política Carlos Oliveira, da Universidade de Brasília (UnB), explica a lógica do eleitor diante dessa pressão econômica: “Quando o dinheiro não é suficiente nem para comer, é muito intuitivo esperar que a mudança de governante seja uma solução.”
A percepção econômica individual, portanto, torna-se um dos principais vetores da decisão de voto.
Uma arma de duplo gume no jogo político
O custo de vida é uma ferramenta política versátil, que pode ser explorada tanto pelo governo quanto pela oposição. A análise de Carlos Oliveira é clara: se o custo de vida estiver baixo e a percepção for positiva, o “affordability” se torna um tema poderoso para quem busca a reeleição. Caso contrário, transforma-se em munição para a oposição.
É interessante notar que pautas historicamente associadas à esquerda, como os programas de transferência de renda, também foram incorporadas pela direita. O Bolsa Família, por exemplo, bandeira tradicional dos governos do PT, passou a ser defendido e até ampliado durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro, como ressalta o professor Leonardo Paz.
Essa estratégia evidencia o reconhecimento, por parte da direita, de que a percepção de amparo econômico direto é uma ferramenta eleitoral suficientemente poderosa para transcender barreiras ideológicas tradicionais.
O Duelo de Narrativas: Custo de vida versus Segurança pública
Apesar de sua força inegável, o “affordability” não é um trunfo garantido, pois disputa a atenção do eleitor com outra pauta de altíssimo apelo emocional: a segurança pública.
Ainda de acordo com o professor da UNB a segurança tende a mobilizar mais intensamente as emoções do eleitorado, pois a sensação de insegurança é individual, imediata e visceral.
A eleição de 2026, portanto, não será definida apenas pelas condições objetivas do país, mas também pela capacidade das campanhas de enquadrar seu tema principal, seja a angústia econômica ou o medo da violência, como a questão mais urgente na mente do eleitor.
Conclusão e Reflexão
O conceito de “affordability” transcende a análise econômica e se consolida como uma poderosa narrativa política, capaz de moldar campanhas e decidir eleições. À medida que o Brasil se aproxima das eleições de 2026, o embate central parece se desenhar entre a percepção concreta da perda do poder de compra e o sentimento de insegurança que afeta a população.
O grupo político que conseguir impor sua pauta como a mais urgente e relevante para o eleitorado terá uma vantagem decisiva, e possivelmente sairá vencedor no pleito. A conferir.

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(*) Empreendedor e especialista em câmbio e comércio exterior. Fundador da Hood 1, fintech focada em soluções de remessas internacionais e assessoria para empresas importadoras e exportadoras, atua há anos apoiando negócios na redução de custos, estruturação de operações internacionais e gestão de riscos cambiais. Possui experiência prática em mercado financeiro, operações internacionais e estratégia para empresas que operam globalmente.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/viniciusramosmonteiro/
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Leia outro texto de Vinicius Ramos Monteiro: https://www.geopoliticando.com.br/2025/12/26/transferencias-internacionais/

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