Rodrigo Modesto Frech Diniz*
A Conferência de Munique 2026, ocorrida entre os dias 13 a 15 de fevereiro, fo realizada em um momento em que o mundo parece viver uma mistura de cansaço e apreensão. Guerras prolongadas, tensões entre grandes potências, disputas tecnológicas e crises humanitárias sucessivas alimentam a sensação de que a estabilidade internacional já não pode ser dada como certa. Nesse contexto, a Munich Security Conference1 emerge não apenas como um fórum diplomático de alto nível, mas como um espaço simbólico onde líderes e formuladores de políticas tentam responder a uma pergunta central: como restaurar previsibilidade em um sistema internacional cada vez mais volátil?

Embora tradicionalmente marcada por discursos estratégicos e negociações reservadas, a edição de 2026 trouxe um tom mais existencial. Há uma percepção crescente de que a ordem internacional baseada em regras, construída ao longo de décadas após a Segunda Guerra Mundial, atravessa um momento de desgaste. Instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) enfrentam críticas quanto à sua capacidade de responder de forma rápida e eficaz a crises complexas e simultâneas. Ainda assim, poucos defendem sua substituição; o debate gira mais em torno de reforma e adaptação do que de ruptura.
Esse cenário alocou a Conferência de Munique como um ponto de encontro entre frustração e esperança. De um lado, líderes reconhecem a fragmentação crescente do sistema internacional; de outro, sabem que a ausência de diálogo pode aprofundar ainda mais as divisões. Em tempos de desconfiança, o simples fato de manter canais abertos já representa um avanço.
Relações transatlânticas: tensão e interdependência
Um dos temas que mais mobilizam expectativas é o futuro das relações transatlânticas. A cooperação entre Europa e Estados Unidos continua sendo pilar central da arquitetura de segurança ocidental, especialmente no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Contudo, mudanças políticas internas, debates sobre gastos militares e diferentes percepções de ameaça têm provocado ajustes delicados nessa parceria.
A Conferência de Munique 2026 mostrou ser um espaço para reafirmar compromissos, mas também para reconhecer limites. A Europa debate sua autonomia estratégica, ou seja, sua capacidade de agir com maior independência, sem romper com a aliança histórica com Washington. Esse equilíbrio é sensível: autonomia não significa afastamento, mas sim maturidade estratégica.
Há, nesse ponto, um componente humano frequentemente esquecido nas análises puramente estruturais. A confiança entre aliados não depende apenas de tratados ou orçamentos de defesa; ela se constrói na previsibilidade, no diálogo constante e na percepção de que compromissos serão honrados. Nesse contexto, a Conferência de Munique demonstroum portanto, ser um palco onde palavras importam quase tanto quanto decisões.
Segurança além do campo militar
Outra aspecto de muito interesse envolve a ampliação do conceito de segurança. O mundo de 2026 já não pode ser compreendido apenas em termos de blindados, fronteiras e alianças militares. A interdependência digital, a inteligência artificial, a vulnerabilidade de infraestruturas críticas e os impactos das mudanças climáticas ampliaram o espectro de ameaças.
Migrações forçadas, crises energéticas e instabilidade alimentar mostram que segurança internacional e estabilidade social caminham juntas. Quando populações enfrentam insegurança econômica ou climática, a tensão geopolítica tende a se intensificar. A conferência, portanto, reflete essa nova realidade: discutir segurança hoje significa também discutir tecnologia, economia e sustentabilidade.
Essa ampliação traz um elemento mais humano ao debate. Por trás das estatísticas estão pessoas deslocadas, famílias afetadas por conflitos e sociedades pressionadas por mudanças rápidas. A Conferência de Munique, apesar de reunir elites políticas, foi amplamente influenciada por essas realidades concretas do nosso cotidiano.
Limites e críticas
É importante reconhecer que a Conferência de Munique não produz resoluções vinculantes nem impõe políticas globais. Seu impacto reside mais na capacidade de moldar narrativas, alinhar expectativas e sinalizar compromissos do que em decisões formais. Críticos apontam que o evento pode se transformar em um espaço de discursos simbólicos, distante das urgências vividas por populações afetadas por conflitos.
Além disso, há questionamentos sobre a representatividade do fórum. Embora reúna participantes de diversas regiões, ainda predomina uma perspectiva euro-atlântica. Tornar o debate mais inclusivo, incorporando vozes do Sul Global e da sociedade civil é um desafio constante.
Um momento de inflexão
Ainda assim, a Conferência de Munique 2026 é um símbolo de algo maior do que seus painéis e reuniões bilaterais. Em um mundo marcado por polarizações, manter espaços de escuta e negociação já é um sinal de compromisso com a diplomacia.
As expectativas em torno do encontro refletem uma consciência crescente de que a segurança internacional está em transição. Não se trata apenas de administrar crises pontuais, mas de repensar como Estados cooperam, competem e coexistem em um ambiente interdependente.
Por fim, a edição de 2026 trouxe uma dimensão humana fundamental: a busca por estabilidade não é um objetivo abstrato, mas uma condição para que sociedades possam prosperar. Se a conferência conseguirá transformar diagnósticos em ações concretas ainda é incerto. No entanto, o simples esforço de reunir adversários e aliados em torno de uma mesma mesa reafirma uma premissa essencial, a de que, mesmo em tempos de tensão, o diálogo continua sendo a ferramenta mais poderosa da política internacional.
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(*) Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) . Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estácio de Sá. Pós-Graduado em Operações Militares de Defesa Antiaérea e de Defesa do Litoral pela Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe) . Mestre em Ciências Militares com Ênfase em Gestão Operacional Atualmente é aluno da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/rodrigo-frech-281a7a200/
1 Visite o site oficial da Conferência de Munique/2026 : https://securityconference.org/en/msc-2026/
