Alessandro Sberni(*)
O conceito de Centro de Gravidade ocupa posição central no pensamento estratégico contemporâneo, sendo frequentemente aplicado à análise das ações geopolíticas dos Estados. O termo foi originalmente criado por Carl von Clausewitz em sua célebre obra Da Guerra. Com o decorrer do tempo o conceito foi progressivamente ampliado para além do campo estritamente militar, passando a integrar a análise das relações internacionais, da geopolítica e da competição estratégica entre Estados.
Neste contexto, o Centro de Gravidade tornou-se um instrumento fundamental para em Estado compreender as suas próprias bases reais de seu poder, bem como avaliar as de potenciais adversários.

A ORIGEM : A FÍSICA DA GUERRA
Em sua obra Da Guerra, Clausewitz procurou estudar e entender a essência da vitória em um conflito militar. O pensador prussiano observou que em um conflito a força do oponente não é distribuída de maneira uniforme, mas se concentra em determinados pontos. Inspirado na física, Clausewitz definiu o Centro de Gravidade como “o centro de todo o poder e movimento, sobre o qual tudo o mais depende para se manter”. Assim, ele concluiu que , de maneira similiar o que acontece na Física, onde um objeto perde o seu equilíbrio se tiver o seu Centro de Gravidade deslocado, o mesmo aconteceria com uma Força Militar, caso o seu Centro de Gravidade fosse neutralizado.
Em resumo, pode-se definir o Centro de Gravidade como sendo a principal fonte de força, poder, equilíbrio ou coesão de um Estado adversário ou do nosso próprio Estado, e cuja neutralização leva ao colapso do sistema considerado. É importante ressaltar que para Clausewitz o Centro de Gravidade não se constituia necessariamente uma fraqueza, mas servia como identificador da “fonte de força”. Em resumo: atacar o Centro de Gravidade era o caminho mais curto para a decisão do conflito, exigindo a concentração de esforços no que ele denominou “golpe decisivo”.
DOS EXÉRCITOS A SISTEMAS: A EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS
Ao longo do desenvolvimento do pensamento estratégico, esse conceito passou a ser interpretado de maneira mais abrangente. No campo da geopolítica, o centro de gravidade de um Estado pode estar associado a diferentes dimensões do poder nacional1, como a estabilidade política interna, o controle de recursos naturais estratégicos, a superioridade tecnológica, a capacidade industrial, a legitimidade internacional ou a coesão social.
Assim, identificar o Centro de Gravidade de um Estado significa compreender quais são os elementos estruturais que sustentam sua posição no sistema internacional e garantem sua capacidade de projetar poder. A relevância dessa identificação torna-se particularmente evidente em um cenário internacional caracterizado por crescente competição estratégica entre grandes potências.
Em vez de empregar o seu Poder Militar em grande escala, observa-se cada vez mais a utilização de outras capacidades do Poder Nacional, como sanções econômicas, disputas tecnológicas, guerras informacionais e pressões diplomáticas. Nesses casos, a disputa geopolítica frequentemente se concentra na tentativa de afetar o Centro de Gravidade do adversário, buscando enfraquecer os elementos que sustentam sua influência regional ou global.
IDENTIFICANDO O CENTRO DE GRAVIDADE
A identificação do centro de gravidade também desempenha papel fundamental no planejamento estratégico dos próprios Estados. Ao compreender quais são os pilares essenciais de seu poder, um país pode direcionar políticas públicas, investimentos e estratégias de segurança para fortalecer esses elementos. Em termos práticos, isso significa proteger infraestruturas críticas, preservar a capacidade industrial, investir em inovação tecnológica e garantir a estabilidade institucional. Dessa forma, a análise do centro de gravidade não se limita à observação do adversário, mas constitui igualmente um instrumento de autoconhecimento estratégico.
A correta identficação do Centro de Gravidade é de fundamental importância na condução estratégica da busca dos objetivos de um Estado. Uma identificação assertiva pode levar a um “caminho” mais fácil para a consolidação dos objetivos, ao passo que o erro na identificação pode levar a graves consequências.
Um exemplo de acerto da identificação de Centro de Gravidade ocorreu durante a 2ª Guerra Mundial, quando os Aliados identificaram que o centro de gravidade da Alemanha nazista estava associado à capacidade industrial e logística que sustentava sua máquina de guerra. A partir dessa avaliação, os Aliados desenvolveram uma intensa campanha de bombardeios estratégicos contra centros industriais, redes ferroviárias e instalações energéticas, particularmente na região do Vale do Ruhr, o que reduziu drasticamente a produção de Materias de Emprego Militar por parte dos alemães, prejudicando o esforço de guerra de Hitler e facilitando a vitória dos Aliados.
Por outro lado, pode-se identificar um erro na identificação do Centro de Gravidade durante a invasão de Napoleão na Rússia em 1812. Em sua avaliação, o Estado-Maior Francês acreditava que uma derrota do Exército Russo e a consequente captura de Moscou fossem suficientes para para colapsar o regime russo, No entanto, o Centro de Gravidade não era nem o Exército Russo e nem a sua capital e sim a capacidade de mobilização e a resiliência política do Estado Russo. Assim, a retirada estratégica russa, aliada a destruição de recursos e ao prolongamento do conflito neutralizou a vantagem inicial da França, resultando em um desastre estratégico para os franceses.

CONCLUSÃO
Sintetizando, a identificação do centro de gravidade constitui-se elemento de fundamental importância para a compreensão das ações geopolíticas dos Estados. Em um ambiente internacional marcado por competição estratégica multidimensional, compreender quais são os pilares que sustentam o poder nacional próprio e de seu eventual adversário torna-se condição essencial para a formulação de políticas eficazes.
Muito além de um conceito meramente militar, o Centro de Gravidade representa hoje uma ferramenta analítica indispensável para interpretar a dinâmica do poder entre os Estados e no sistema internacional contemporâneo, o que torna o conhecimento de seu conceito e a metodologia para a sua identificação em habilidades fundamentais para os formuladores de políticas estatais contemporâneos.
E você? Qual o seu pensamento sobre o tema? Você consegue identificar os Centros de Gravidade nos conflitos atuais? Os Estados em conflito tem buscado atingir os Centros de Gravidade de seus adversários? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Participe !
(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Conheça mais sobre as dimensões do Poder Nacional: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/10/poder-nacional/
