Geopolítica dos Bálcãs: fragmentação e interesses globais

Alessandro Sberni*

A Península Balcânica constitui-se em uma das regiões mais complexos e sensíveis da atualidade. Situada no cruzamento entre o Ocidente e o Oriente, a região é um mosaico de etnias, religiões e ressentimentos históricos que, longe de terem sido superados, continuam a moldar as relações de poder e as aspirações nacionais dos diversos povos que a habitam.

Até a década de 1990 a Península Balcânica abrigava os Estados da Iugoslávia, Grécia, Bulgária, Romênia, Albânia e uma parte da Turquia. Após a morte do Marechal Josip Broz Tito,em 1991, que governava a Iugoslávia com mãos de ferro, o país, que se constituia em um Estado multiétnico, entrou em rápido colapso, com o surgimento de nacionalismos bastante agressivos, que acabaram desencadeando uma série de violentas guerras civis.

Bálcãs

O conflito envolveu processos de independência da Eslovênia, Croácia, Sérvia e Bósnia-Herzegovina, sendo este último o palco de graves violações de direitos humanos e limpeza étnica, levando a necessidade de intervenção da OTAN. Os conflitos duraram até o ano de 1995, mas a fragmentação continuou com a separação de Montenegro e a declaração de independência do Kosovo. Passados mais de 30 anos da dissolução da Iugoslávia, a região permanece como um mosaico de nações soberanas que ainda lidam com traumas sociais, impasses diplomáticos e o desafio da integração plena à União Europeia.

FRAGMENTAÇÃO E SOBERANIAS INCOMPLETAS

Muito além de apenas um “evento político” a dissolução da Iugoslávia trouxe a tona uma série de conflitos étnicos-territoriais que haviam sido artificialmente represados por décadas. Esses conflitos, os primeiros em solo europeu desde o final de 2ª Guerra Mundial, redefiniram fronteiras através da violência e até da limpeza étnica e só foram contidos após a intervenção da OTAN. No entanto, ainda nos dias de hoje existem cicatrizes não completamente curadas, entre as quais destacam-se:

1) A questão do Kosovo

Quase duas décadas após sua declaração unilateral de independência em 2008, o Kosovo continua sendo um ponto de grande tensão da região dos Bálcãs. A Sérvia, apoiada por potências como Rússia e China, recusa-se a reconhecer a soberania kosovar, considerando a região o berço espiritual da nação sérvia. O norte do Kosovo, de maioria sérvia, é um foco constante de confrontos, onde a autoridade de Pristina é contestada e a presença da OTAN ainda faz-se necessária para evitar uma escalada militar total.

2) Bósnia-Herzegovina : a fragilidade institucional

O país é regido pelos Acordos de Dayton (1995), que criaram uma estrutura estatal disfuncional dividida em duas entidades: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Srpska. No início de 2026, as tendências secessionistas da liderança sérvia-bósnia atingiram níveis críticos, ameaçando paralisar as instituições centrais e reabrir feridas de um conflito que custou mais de 100 mil vidas nos anos 90.

3) A crise demográfica

Uma cicatriz menos visível, mas igualmente profunda, é o colapso demográfico. O trauma da guerra, somado à estagnação econômica e à corrupção sistêmica, tem levado os jovens a migrar para a Europa Ocidental, em buca de melhores condições de vida, estudo e trabalho. Países como a Macedônia do Norte e o Kosovo enfrentam crises de mão de obra qualificada que comprometem o desenvolvimento econômico e social do país.

INTERESSE DAS POTÊNCIAS GLOBAIS

Devido a sua posição geográfica, a região dos Bálcãs é alvo de monitoramento constante das potências globais que possuem interesses geopolíticos distintos na região, o que acrescenta mais pitadas de tensão ao já complexo ambiente regional. Dentre os principais atores globais com com interesse nos Bálcãs, destacam-se :

1) Estados Unidos e União Europeia

Para as potências europeias, os Balcãs constituem-se em uma peça fundamental para a segurança continental. Neste cenário, estratégia tem sido a da busca pela integração, ou seja, atrair os países da região para a UE e a OTAN com o objetivo de mantê-los tão estáveis quanto possível. No entanto, o processo de adesão é lento e possui resistências internas das próprias organizações. Países como Montenegro e Albânia buscam fazer parte da UE, mas enfrentam dificuldades em realizar as reformas internas exigidas para serem efetivamente aprovados. Já os Estados Unidos tem procurado oferecer condições privilegiadas no tocante às trocas comerciais como ferramenta de contenção ao crescimento da influência russa e chinesa na região.

2) Rússia

Moscou utiliza os Balcãs, especialmente a Sérvia , como uma ferramenta para desviar a atenção do Ocidente e criar focos de instabilidade nas fronteiras da OTAN. A afinidade cultural e religiosa (ortodoxia) é explorada através de “softpower” e investimentos em energia. A Rússia atua como o principal garantidor da integridade territorial sérvia no Conselho de Segurança da ONU no que diz respeito as pretensões do Kosovo, o que garante a lealdade estratégica de Belgrado na região.

3) China

Diferente da Rússia, a China foca no poder econômico. Através da iniciativa “Cinturão e Rota1“, Pequim tem investido pesadamente em infraestrutura, pontes e mineração na Sérvia e na Bósnia. O objetivo dos chineses é criar uma “diplomacia da dívida”, onde governos balcânicos tornam-se politicamente dependentes de Pequim, alinhando-se a interesses chineses em fóruns internacionais.

4) As dinâmicas regionais

Além dos interesses das potências globais, cada um dos países balcânicos possui seus próprios interesses e alinhamentos estrategicos, como se pode ver na figura abaixo, o que leva a região a possuir uma instabilidade latente e sujeita à escalada de crises

fragmentação

CONCLUSÃO

A região dos Bálcãs vive em uma estabilidade precária. A Península não está em guerra, mas também não vive uma paz plena. É um território de “soberanias limitadas” e influências externas sobrepostas. Enquanto o Ocidente busca a integração política, econômica e militar, a Rússia e a China oferecem alternativas que alimentam o nacionalismo e a autonomia em relação às normas da União Europeia.

As cicatrizes decorrentes da dissolução da Iugoslávia permanecem expostas porque questões fundamentais como identidade nacional, ressentimentos históricos e fronteiras foram congeladas pelos tratados de paz, mas não definitivamente resolvidos. O futuro da região dependerá de se a UE conseguirá oferecer um caminho de prosperidade real antes que o nacionalismo latente, alimentadas por rivais geopolíticos, tragam a guerra para a Península Balcânica e fragmentem novamente estes territórios. A conferir.

E você? Qual o seu pensamento sobre a região dos Bálcãs ? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Conheça mais sobre a Nova Rota da Seda: https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/12/nova-rota-da-seda/

2 Conheça mais sobre as questões étnicas nos Bálcãs: https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/235/8851/1/04_As%20quest%c3%b5es%20etnicas%20nos%20balc%c3%a3s%20do%20pr%c3%a9-primeira%20guerra.pdf

Para conhecer o Rio de Janeiro além do básico: Passeio histórico “O Rio de Janeiro e a 2ª Guerra Mundial”, com o Professor Rafael Cunha de Almeida

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