O pior cenário possível: versão chinesa

Rafael Cunha de Almeida*

No curso de Estratégias de Defesa e Segurança em Beijing, 2018-19, chamava a atenção pelas suas particularidades um “exercício de crise”, ou “Jogo de Guerra” – comum nos meios militares e de estudos geopolíticos – simulação que ensaia variáveis de cenários internacionais que podem levar à guerra, as “linhas de ação” a serem tomadas e a aplicação de planejamentos operacionais sujeitos à variação de incidentes diversos  e problemas diplomáticos, militares e de segurança em geral inseridos pela direção do exercício.

Versão chinesa

Nestes treinamentos, se trabalha com os desdobramentos “mais prováveis, mais perigosos e pior cenário possível” para as hipóteses de crise. Usando países “hipotéticos” assim como nos exercícios ao redor do mundo, os atores são descaracterizados para se evitarem atritos desnecessários ao se nominarem estes diretamente. Chamemos de “país X” aquele que representa a China no estudo de caso de crise simulado, e os outros por letras, para facilitar. 

Logo de início, se percebia a complexidade e abrangência das situações englobadas na crise, muito coerente com a variedade de problemas externos e internos e áreas envolvidas no amplo conceito de segurança adotado na Política de Defesa chinesa.

O “país X” enfrentava uma disputa de fronteira com o país “A”, aliado de “B”, outro vizinho de fronteiras, todos integrantes de um importante organismo internacional, sendo “C” favorável a “X” nessa situação. Simultaneamente, ocorria um movimento separatista interno em “X” composto por etnias existentes em “C”, porém em área que faz fronteira também com “B” e “C”, o que seria desfavorável no escalão político a este último.

A crise escalava para uma guerra, depois de várias negociações internacionais e com mudanças de posição entre países do entorno e potências de outras regiões, incluindo outro país de fronteira, “D” atuando como aliado de “A” na guerra. Simultaneamente, “X” enfrenta uma série de protestos relativos a questões internas em variadas áreas e por motivos e grupos diversos, não necessariamente vinculadas às causas em disputa na guerra em curso.

Após as variáveis envolvidas analisadas e decisões estudadas do escalão político internacional, seguia-se passando pelo campo estratégico, operacional e até detalhes de planejamento tático militar e de atuação na área de segurança interna.  Um terremoto de larga escala atinge os países “D” e “X”, levando a ruptura de barragens e crises sanitárias em ambos os países, mudando o cenário internacional, regional e interno referente à guerra em curso, alianças e acordos, abrindo a possibilidade da atuação de ajuda humanitária disponibilizados por “X”, Organismos Internacionais e países regionais ou não e vinculados ou não à dinâmica do confito, sejam tradicionais cooperadores ou mesmo opositores em outras áreas.

Uma brincadeira entre os alunos dizia que os próximos incidentes seriam o apocalipse zumbi seguido de uma invasão alienígena, mas fora a observação jocosa, restava claro que se planejava em ambiente de extrema complexidade, variáveis e determinantes que integravam todos os escalões de planejamento e atuação, unificando o ambiente difuso internacional, regional e interno do nível político ao tático, e contando sempre com o “pior cenário possível” em todas as esferas de defesa e segurança e seus impactos em variadas áreas (comerciais, econômicas, sociais etc).

Cenário possível

Quem conhece a História chinesa sabe que eles, várias vezes, viveram o pior cenário possível em crises, sejam climáticas, naturais, de segurança interna ou defesa externa, sociais e econômicas, e; na maioria dos casos, com tudo-ao-mesmo-tempo-agora. A sequência de guerras, incidentes e crises no chamado “século das humilhações” (1839-1949) marcado por derrotas militares, tratados desiguais e perda de soberania para potências estrangeiras, mostra bem isso, mas a lente da história de longa duração traz muitos outros casos e períodos similares. Um problema para a China, sempre tem dimensões chinesas, dizem eles.

A grande questão é que aprenderam a realizar prospectivas neste ambiente, e direcionar planejamento integrados de políticas públicas, sejam externas ou internas. Todas elas na China são observadas e se tangenciam de forma holística- o que impacta no modo como você faz negócios, a fim de saber oportunidades e riscos de forma pragmática e analítica, mantendo distâncias de paixões ou posicionamentos. Aliás, a quem se interessar em ver como uma Política pública pode ser exemplarmente bem-feita e efetiva, sugiro pesquisar sobre o Ministério de Emergências chinês e como lidam com o que chamamos por aqui de Defesa Civil. Há muito a aprender.

Na atual Guerra no Irã, se por um lado a crise energética com relação ao trânsito por Ormuz pareceria afetar significativamente a China, acabou revelando a existência de depósitos e reservas estratégicas que a possibilitariam resistir à esta crise por cerca de 200 dias, em certas estimativas. Desde a década de 1960 a China estabelece cooperações com os países africanos, iniciadas com apoios às lutas de libertação e prosseguindo com assistência técnica, comércio e construção de infraestruturas.

No entanto, a relação institucionalizada e em larga escala que define a atual parceria sino-africana consolidou-se a partir de 2000, com a criação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC). Estas infraestruturas permitem o suprimento e escoamento de petróleo daquela região, que, apesar de na atualidade não suprirem a demanda do fechamento de Ormuz e da fonte iraniana, permitem uma válvula de escape (verdadeiras “pontes de safena” para o “coração do mundo”, o Oriente Médio e seus fluxos comerciais), mitigando o fechamento das rotas e choke points do Golfo, logo, ampliando os 200 dias de impacto.

Naquela região, o desafio da rota do Mar Vermelho são os choke points1 de Suez (de maior possibilidade de não fechamento do que os outros) e de Bab-El-Mandeb. A China estabeleceu duas bases navais, uma militar em Djbouti e outra multi-propósito, além do LAPSSET (Lamu Port-South Sudan-Ethiopia Transport Corridor), um megaprojeto de infraestrutura de US$ 25 bilhões que visa conectar o Quênia, Sudão do Sul e Etiópia que inclui um porto em Lamu, ferrovias, rodovias, oleodutos e cidades turísticas, visando fomentar o comércio e o desenvolvimento regional por meio de rodovias, oleodutos e ferrovias. Como dito, toda politica publica chinesa é tratada de forma holística e integrada.

Enquanto o ambiente internacional se “preocupava” com o que poderia acontecer com o fechamento do suprimento energético do Golfo Pérsico, na região que Peter Frankopan chama de “Coração do Mundo” pela importância da conexão global de rotas comerciais milenares, a China agia, no modelo que Kissinger sabiamente compara a um “tabuleiro de mahjong”, tradicional jogo chinês, a contornar estes bloqueios e estrangulamento das “rotas da seda”, o que a fez definhar a partir do século XIV junto a crises externas e internas.

Vários comentários surgem sobre questões sobre não ser o petróleo a maior problemática do trancamento de Ormuz, a importância do uso do hélio em atividades industriais de países da península, a produção de fertilizantes, as vantagens da China nas opções por outras fontes de energia e sua alta produção de painéis solares e outros itens comerciais importantes.

Ainda observo de uma forma mais ampla, e reforçaria a questão das rotas e seus fluxos comerciais, conforme Frankopan, em um filtro histórico e mais multidimensional do que de causalidades determinante sobre os impactos na China e os erros e acertos, da estratégia americana ofensiva ao Irã.

Retornando a Frankopan, a questão do Coração do Mundo, o Oriente Médio e as rotas da seda, são os fluxos comerciais das riquezas que por ali escoam, não especificamente uma mercadoria ou item em si. Ele explica isso, aliás, pela origem do nome e razão, pois a seda foi durante séculos item de grande valor e consumo, ao ponto de se tornar moeda de comércio internacional, pois era material de qualidade, durável, podendo ser estocada e sem perder valor.

Mesmo quando deixou de ser, o nome permaneceu, mas o segredo era o fluxo contínuo de mercadorias e riquezas numa dupla via. Por isso a interrupção dos estreitos impactar não só na atualidade – como foi na antiguidade- por conta de um item essencial, mas por bloquear uma rede comercial internacional com base em um item majoritário e de alto valor, mas não único- como analistas vários estão descobrindo sobre os efeitos da Guerra em curso. 

Claro que a descoberta do petróleo e a dependência global de hidrocarbonetos é fundamental nestas análises, mas não é só isso-aliás como se tem procurado demonstrar e foi citado, apesar de a meu ver estarem tentando entender uma lógica ampla por microscópios de observação.

Vejamos o que já nos trazia o “Périplo do Mar da Eritréia”, livro do século I d. C. É uma das fontes mais importantes para entender as conexões comerciais afro-asiáticas e a navegação no Oceano Índico durante a Idade Antiga. O termo “Mar da Eritréia” era utilizado na época para se referir ao Mar Vermelho, ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico.

Descrevia as rotas comerciais terrestres e marítimas, a importante conexão com o Reino de Axum (na atual Eritréia, conectando as rotas ao interior africano), os portos importantes (muitos ainda  hoje) e a lista de itens comerciados nas rotas, destacando o que saía de lá da região (ouro, marfim e escravos, os mais importantes, além de vários outros) e o que chegava (tecidos finos da Índia, vidro, vinho e azeite de oliva do Império Romano, além de ferramentas de ferro e armas, pedras preciosas, especiarias e sedas).

Nunca foi sobre um só item, por mais importância que possamos e precisamos dar na atualidade ao petróleo. Não à toa, a China tem implementado o tráfego de mercadorias para o Oriente Médio na sua aproximação comercial nas últimas duas décadas (durante as quais seu consumo de petróleo triplicou ao mesmo tempo que os EUA se tornaram autossuficientes do petróleo da região…). Como trouxemos, Pequim sabe que depende dos fluxos – não só do petróleo, para o qual planejou – no melhor estilo do jogo de guerra citado, as rotas da seda, variações de fontes energéticas e estoques de combustível. Um recente acordo de 30 anos de fornecimento de gás foi firmado com a Rússia, por exemplo.

A China se preparou para mitigar de várias formas estas crises cíclicas de trancamento das rotas. Estoques, alternativas energéticas, e, é preciso reforçar, ampliando as demandas de consumo externo de sua produção, pois um gargalo – citado por eles- no seu projeto de desenvolvimento é a diferença de produção versus o consumo interno. A interrupção cíclica de fontes de energia foi basicamente mitigada, porém a interrupção demorada do fluxo amplo de comércio internacional pelas rotas – esse sim, a meu ver, é o Centro de Gravidade do conflito.

E por isso, creio que subestimam a estratégia (ou falta dela, segundo alguns) das ações dos EUA na região. Muitos reforçam os ciclos de insucessos em vitórias e objetivos nas guerras das últimas décadas, mas sem se atentar ao fortalecimento da indústria de defesa americana e as expertises adquiridas nos níveis operacionais e táticos – mesmo sem vitórias no campo estratégico mais amplo e político, com perdas sociais e extremos gastos financeiros. 

A atuação dos EUA no Irã aparenta o que se chamaria de “ataque diversionário”, ou no nível tático, “reconhecimento pelo fogo”. O reconhecimento pelo fogo é uma técnica militar utilizada para forçar opositores a revelar sua posição, força e intenções, abrindo fogo contra áreas das quais não se tem informações completas de capacidades e atitudes de reação. No nível tático, essa ação é essencial para coletar informações em tempo real e guiar o planejamento de combates.

Não é um ataque decisivo, mas sim uma forma de “inquietar” o inimigo e obter dados como localização de armamentos, o modo de reagir, os atores diversos presentes etc. Um ataque diversionário é uma manobra militar ou estratégica desenhada para enganar o inimigo, forçando-o a desviar recursos, atenção ou tropas de um local principal para um objetivo secundário ou falso. O objetivo principal não é conquistar território naquele local, mas sim criar uma distração, permitindo que o ataque real ocorra com menos resistência em outra área.

Se considerarmos as perspectivas trazidas em “A armadilha de Tucídides”, onde o autor faz referência a uma inevitabilidade do conflito de interesses e disputas entre China e EUA levar a um cenário de guerra futuro, as informações coletadas nesta Guerra contra o Irã – independente do resultado – são valiosas futuramente.

Uma coalizão de países, os mesmos – e outros – que não se diziam interessados em apoiar as ações americanas, se reúnem para cobrar ações no nível das Relações Internacionais sobre regulamentação do estreito de Ormuz, junto à ONU inclusive. A China foi contra. 

Ao mesmo tempo, Irã e Omã se conectam para tentar estabelecer um “imposto” para a passagem dos navios- – a mesma medida que os portugueses no seu processo colonial cobrava em Ormuz. Poucos dias atrás, a Inglaterra enviou o Secretário de Defesa ao Qatar, reforçou as tropas e equipamentos lá e no Mediterrâneo e chamou os países da Península Arábica de “Aliados”. 

Enquanto não se conseguia enxergar a possível estratégia norte-americana, os EUA fizeram da Guerra no Irã um “ataque diversionário” às estratégias chinesas , fez “reconhecimento pelo fogo” das capacidades militares Iranianas – que agora servem para todos estes países em coalizão no caso de o conflito os envolverem, da capacidade e tempo de resistência à uma crise energética pela China – que agora é de conhecimento do mundo -, testou os sistemas de aliança regionais e mundiais , reações internacionais às ações iranianas e trouxe ao mundo um novo debate, que pode inclusive reforçar futuramente o papel da desgastada ONU – Até onde vai o direito, no nível internacional, de quem quer que seja interromper os fluxos comerciais do “coração do mundo”?

Muito se fala da clássica comparação de Kissinger ao fato da China ter uma estratégia similar ao Mahjong, enquanto o Ocidente ao xadrez. Se a pergunta era o que aconteceria se estes dois jogos estratégicos se se defrontassem, temos o tabuleiro se movendo, e rápido. Na minha análise, os EUA usaram o que se conhece nas simulações de combate e crises de “jogo de guerra” – só que em situação real.

Ações de alto risco, mas com desdobramentos que parecem demonstrar que talvez houvesse sim, objetivos traçados e uma estratégia – ainda que temerária. E que os efeitos decorrentes sejam tanto retrair os investimentos em infraestrutura chinesa, testar sua capacidade diplomática, e mesmo lançar o questionamento para seus colaboradores se ela estaria disposta a conflitos em que interesses em comum estariam em jogo quando uma terceira parte tomasse atitude ofensiva contra um parceiro importante.

A falta de harmonia já está interferindo nos planejamentos estratégicos chineses, seja por mudanças de prazos, questionamento de posturas, atrasando a resolução de seu dilema – equilibrar a produção exportada com a demanda interna. Como dizia certo historiador, ‘A guerra, independente da definição que se queira dar, quando ocorre é um fato”. E demanda reações. Lembrando Clausewitz, “A guerra é a província da incerteza e do acaso”. Observemos o que ocorrerá. Em particular, na região do Ba El Mandeb.

E você? Qual a sua análise sobre o tema? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando! Participe! Opine! Critique!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior. Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Licenciado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. . Mestre em Estratégias de Defesa pela National Defense University, Beijing (China). Doutor em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi Oficial de Ligação das Nações Unidas no Sudão do Sul durante a Guerra Civil (2013-2014). Foi Chefe da Seção de Política e Estratégia da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e Comandante do 3º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Bagé/RS). Linkedin :https://www.linkedin.com/in/rafael-almeida-ph-d-052a1743/

1 Leia mais sobre os Choke Points, os Pontos de Estrangulamento Globais: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/

1 comentário em “O pior cenário possível: versão chinesa”

  1. Jackson Rodrigues Sousa Junior

    Excelente artigo Rafael! A história chinesa com seus antecedentes e ressentimentos são o esteio dos Planos Estratégicos do Estado Chinês (e não de Governo) que sentimos falta em nosso País. Ao longo dos anos, ouvimos e presenciamos muitos profissionais capacitados no meio civil e militar que poderiam se debruçar sobre um Planejamento de Estado integrado em diversos pontos, com objetivos escalonados no tempo, mas desperdiçamos essa expertise, as riquezas nacionais e prolongamos o subdesenvolvimentos em áreas importantes como na Infraestrutura, na Educação e na Segurança. Como já identificamos, a preocupação chinesa com suas rotas comerciais tem impulsionado sua expansão na África e na América do Sul, buscando novos mercados, canteiros de obras e influência global. Além disso, sua independência do petróleo em parte pretendida com a grande frota de veículos elétricos, a sua busca por informação por meios digitais diversos em rede e sua priorização de estudos de IA para crianças, reforcam sua Política e Estratégia de Estado para atingir objetivos traçados e reduzir deficiências crônicas e atuais.
    Enquanto isso nesse conflito Irâ e EUA – Israel, observamos outros atores como a OTAN e seus membros com fissuras importantes e paralisantes, a ONU numa mescla de crise de identidade e financeira e a Rússia, com chances de ganhos na exportação de sua produção de petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz. Já Israel, no aproveitamento do êxito na Palestina contra o Hamas, vem atropelando a UNIFIL (ONU) no Líbano contra o Hezbollah, buscando se firmar como uma potência militar global e afastar a possibilidade de aniquilição pela capacidade nuclear iraniana. Mas e a China? Os riscos identificados no passado fomentaram a FOCAC, comprovando sua importância para a China, e hoje, ampliam suas reservas em petróleo além dos 200 dias PLANEJADOS pelo Estado Chinês, mas ainda acredito que as incertezas da Guerra dos EUA contra o “Eixo do Mal” (Cuba – Venezuela – Irã – Russia e China), vão continuar esbarrando com a capacidade de planejamento estratégico Chinês. Estamos no capítulo 3. O Capitulo 4 tem a Ucrânia, a OTAN e a Rússia (talvez a beneficiada). Os capítulos 4 e 5 são mais complexos, pois envolvem potências nucleares e agora um orcamento de mais de 1 trilhão de dólares americanos.

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