Conflito em Mianmar: história e reflexos geopolíticos

Alessandro Sberni*

Ao longo das décadas , Mianmar (ex-Birmânia) permaneceu relativamente distante das principais atenções da política internacional. Localizado entre China, Índia, Bangladesh e Tailândia, o país, apesar de possuir uma posição geográfica estratégica, historicamente teve seus conflitos internos mantidos em segundo plano no noticiário mundial.

Mianmar

Essa realidade mudou depois do golpe militar de fevereiro de 2021. Desde então, Mianmar mergulhou em uma guerra civil que envolve o Exército, grupos étnicos armados e uma ampla resistência pró-democracia. O conflito já provocou uma enorme crise humanitária e passou a interessar diretamente às grandes potências asiáticas.

Mais do que uma disputa interna pelo poder , a guerra civil em Mianmar tornou-se parte de uma competição maior envolvendo China, Índia, Rússia e os países da ASEAN, além de afetar rotas comerciais, projetos de infraestrutura e a segurança das fronteiras regionais.

Um conflito que começou muito antes do golpe de 2021

Para compreender a atual guerra civil, é preciso voltar à independência de Mianmar, em 1948. Desde então, o país conviveu com conflitos perenes entre o governo central, dominado majoritariamente pelo grupo étnico Bamar, e diversas minorias que vivem principalmente nas regiões fronteiriças.

Grupos como os Karen, Kachin, Shan, Rakhine e outros passaram décadas lutando por maior autonomia política e territorial. Portanto, o conflito atual não nasceu simplesmente do golpe militar: ele é decorrente de uma estrutura de conflitos étnicos que já existia havia décadas.

O Exército, conhecido como Tatmadaw, tornou-se a instituição política mais poderosa do país. Mesmo durante períodos de abertura política, os militares mantiveram enorme influência sobre o Estado. A partir de 2011, Mianmar iniciou uma transição política limitada. Em 2015, a Liga Nacional pela Democracia, liderada por Aung San Suu Kyi, venceu as eleições. Em 2020, voltou a conquistar uma ampla vitória.

O resultado, porém, foi contestado pelos militares, que alegaram irregularidades eleitorais. Em 1º de fevereiro de 2021, o Exército tomou o poder, prendeu Aung San Suu Kyi e outros líderes políticos e interrompeu o processo democrático que estava em curso.

Do protesto à guerra civil

Inicialmente, a reação da população foi predominantemente pacífica. Grandes manifestações tomaram as ruas e funcionários públicos aderiram a movimentos de desobediência civil. A repressão militar, entretanto, foi aumentando. A violência contra os manifestantes provocou uma transformação fundamental: parte da oposição concluiu que protestos pacíficos não seriam suficientes para derrubar o regime.

Surgiram então as People’s Defence Forces (PDFs), grupos armados associados ao movimento de resistência, enquanto antigas organizações étnicas intensificaram suas operações contra o Exército. A guerra deixou de ser apenas uma disputa entre militares e democratas e passou a envolver dezenas de organizações armadas, cada uma com seus próprios interesses territoriais e políticos. Essa fragmentação é uma das principais características do conflito.

Operação 1027: o ponto de virada

Durante os primeiros anos da guerra, o Exército manteve vantagem em equipamentos pesados, aviação e controle das principais cidades. A situação começou a mudar significativamente em outubro de 2023, quando uma aliança de grupos étnicos lançou a chamada Operação 1027, no norte do país.

A ofensiva conquistou bases militares, cidades e importantes pontos de passagem próximos à fronteira com a China. O avanço demonstrou que o Exército não possuía capacidade ilimitada para controlar simultaneamente todas as regiões do país.

A guerra passou, então, a apresentar uma situação paradoxal: o governo militar mantém importantes centros urbanos, capacidade aérea e estruturas estatais, mas enfrenta dificuldades para exercer controle efetivo sobre grandes áreas do território.

Situação atual

Mianmar continua em guerra. O Exército conseguiu recuperar parte do terreno perdido e passou a utilizar intensamente ataques aéreos e outras formas de pressão militar.

A reorganização do comando militar também fortaleceu a estratégia de consolidação do regime. Em abril de 2026, o antigo chefe militar Min Aung Hlaing assumiu a Presidência após eleições realizadas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. O processo eleitoral, contudo, foi amplamente contestado por grupos opositores e não contou com participação de importantes forças políticas, incluindo a Liga Nacional pela Democracia.

O resultado não significou o fim da guerra. Confrontos continuam em diferentes partes do país. Mais de 450 civis morreram em incidentes envolvendo ataques e massacres atribuídos às forças militares somente no primeiro semestre de 2026.

A crise humanitária também é dramática. A ONU estima que milhões de pessoas estejam deslocadas e que mais de 16 milhões necessitem de algum tipo de assistência humanitária . O terremoto de magnitude 7,7 que atingiu o país em março de 2025 agravou ainda mais a situação.

A importância da China

A China é principal ator externo no conflito. Pequim possui interesses econômicos e estratégicos importantes em Mianmar. O país funciona como uma alternativa para a China acessar o Oceano Índico, reduzindo sua dependência das rotas marítimas que passam pelo Estreito de Malaca.

Além disso, existem oleodutos, gasodutos, projetos de infraestrutura e corredores comerciais ligando o sudoeste chinês ao território mianmarense. Assim, a China não quer necessariamente que o Exército conquiste uma vitória total, mas também não deseja que o Estado mianmarense entre em colapso.

Pequim tem adotado uma política pragmática: mantém relações com o governo militar, mas também conversa com organizações armadas que controlam regiões próximas à fronteira. Em 2025, por exemplo, a China mediou um cessar-fogo entre o Exército e a Myanmar National Democratic Alliance Army (MNDAA). Posteriormente, também pressionou outros grupos armados a reduzir suas ofensivas.

Isso demonstra uma característica fundamental da política chinesa: mais importante do que escolher um lado é preservar sua influência sobre todos os lados.

Outros atores relevantes: Índia, Rússia e ASEAN

A Índia também observa com atenção o conflito. Mianmar faz fronteira com o nordeste indiano, uma região marcada por questões étnicas e insurgências. Uma guerra prolongada pode favorecer contrabando, circulação de armas, refugiados e grupos armados. Nova Délhi também deseja impedir que a China obtenha influência excessiva sobre Mianmar.

A Rússia, por sua vez, tornou-se importante fornecedora de armas e equipamentos militares ao governo de Mianmar. Moscou vê o regime como parceiro estratégico e mantém relações que também ajudam a compensar seu isolamento internacional. China e Rússia continuam sendo importantes fontes de apoio político e militar para o governo.

Já a ASEAN, associação que reúne os países do Sudeste Asiático, enfrenta enorme dificuldade para encontrar uma solução. O bloco adotou um plano de cinco pontos para tentar mediar a crise, mas seus resultados foram limitados. A própria aproximação recente de Min Aung Hlaing com países da região mostra que a estratégia de isolamento diplomático está começando a sofrer erosão.

Perspectivas

Uma vitória militar completa de qualquer lado parece difícil no curto prazo. O cenário mais provável é a continuidade de uma guerra fragmentada, com o Exército mantendo grandes cidades e infraestrutura estratégica enquanto grupos armados controlam ou disputam extensas áreas periféricas.

Três possibilidades merecem atenção:

A primeira é uma consolidação gradual do regime militar, apoiada por eleições controladas, repressão e acordos parciais com determinados grupos armados.

A segunda seria uma fragmentação ainda maior do país, com diferentes organizações estabelecendo administrações próprias em seus territórios.

A terceira, mais difícil, seria um acordo político federal, capaz de combinar democracia nacional com maior autonomia para as minorias étnicas.

Conclusão: o significado geopolítico de Mianmar

O país está localizado entre duas grandes potências (China e Índia) e funciona como ponte entre o interior asiático e o Oceano Índico. Seu território também está inserido em importantes projetos de infraestrutura e corredores comerciais chineses. Portanto, a guerra de Mianmar possui importância que ultrapassa suas fronteiras.

Sem sombra de dúvida, o que ocorrer em Mianmar tem o potencial de influenciar o equilíbrio de poder no Sudeste Asiático. A grande questão não é apenas quem vencerá a guerra civil. É quem conseguirá exercer influência sobre o território, as fronteiras, os corredores econômicos e as instituições políticas que surgirem depois do conflito.

Mianmar demonstra, assim, como os conflitos internos do século XXI estão cada vez mais conectados à disputa entre grandes potências. A guerra começou como uma crise política nacional, mas transformou-se em um complexo tabuleiro geopolítico no qual China, Índia, Rússia e ASEAN possuem interesses próprios.

Enquanto não houver uma solução política capaz de acomodar as diferentes forças que compõem o país, Mianmar continuará sendo um dos principais pontos de instabilidade da Ásia — e um território estratégico na disputa pela influência sobre o futuro do Indo-Pacífico. A conferir.

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Conflito

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

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