Alessandro Sberni*

Enquanto boa parte das atenções internacionais permanece concentrada nas guerras e crises do Oriente Médio e da Europa, um movimento importante acontece silenciosamente no Sudeste Asiático. China e Indonésia estão aprofundando uma relação que, até pouco tempo atrás, era predominantemente econômica e que começa a ganhar contornos claramente estratégicos.
Em agosto de 2026, autoridades dos dois países anunciaram novos entendimentos envolvendo defesa, minerais estratégicos, energia, inteligência artificial, infraestrutura e tecnologia.
O movimento não significa que Jacarta esteja abandonando sua tradicional política externa independente para ingressar na órbita chinesa. Mas revela algo igualmente importante: a China está conseguindo ampliar sua influência sobre um dos países mais importantes do Indo-Pacífico. E este é um fato que merece atenção.
China e Indonésia: uma relação que vai além do comércio
Recentemente, uma série de encontros de alto nível em Jacarta reuniu o ministro das Relações Exteriores da China, o ministro da Defesa chinês, seus respectivos homólogos indonésios e o presidente Prabowo Subianto.
As conversas abrangeram uma agenda bastante ampla: defesa, energia, minerais, inteligência artificial, ferrovias, pesca, segurança alimentar e novas tecnologias. Os dois governos também se comprometeram a facilitar o comércio e ampliar o acesso de produtos indonésios ao mercado chinês.
Não se trata de uma relação que começou agora. A China já ocupa posição central na economia indonésia. O comércio bilateral chegou a aproximadamente US$ 167 bilhões em 2025, enquanto grandes empresas chinesas participam de projetos de mineração, siderurgia, baterias, infraestrutura ferroviária e geração de energia no arquipélago.
O fato novo é de outra natureza: a parceria econômica já consolidada começa a avançar de maneira muito mais clara para o campo da segurança e da defesa.
Uma fábrica de munições muda o tom da parceria
O anúncio mais simbólico dessa nova fase é a intenção de estabelecer uma fábrica conjunta de munições em território indonésio, com possibilidade de transferência de tecnologia chinesa. A previsão é que a instalação possa iniciar suas atividades em 2027.
Além disso, Pequim e Jacarta discutem maior intercâmbio entre militares, cooperação entre suas indústrias de defesa e ampliação dos exercícios conjuntos, incluindo o Heping Garuda, o que muda de modo significativo a natureza da relação.
Construir uma ferrovia ou investir numa fábrica de baterias produz dependência econômica. Fabricar munições, compartilhar tecnologia militar e realizar exercícios conjuntos cria outro tipo de vínculo: confiança estratégica.
Por que a Indonésia é tão importante?
A reposta a este questionamento fica bastante evidenciada ao observarmos um mapa. Com mais de 280 milhões de habitantes e milhares de ilhas distribuídas entre os oceanos Índico e Pacífico, a Indonésia ocupa uma das posições geográficas mais importantes do planeta. O arquipélago está próximo de algumas das principais rotas comerciais utilizadas para conectar Oriente Médio, África e Europa ao Leste Asiático.
O Estreito de Malaca, em particular, é uma verdadeira artéria da economia mundial. Uma parcela importante das importações chinesas de petróleo e gás atravessa aquela região antes de chegar aos portos da China.
Para Pequim, portanto, manter boas relações com Jacarta não significa apenas vender produtos ou construir infraestrutura. Significa fortalecer sua posição ao longo das rotas marítimas das quais depende boa parte da economia chinesa.
Níquel, baterias e a corrida pelos minerais estratégicos
Existe ainda outro componente essencial nessa aproximação: o níquel. A Indonésia possui algumas das maiores reservas conhecidas desse mineral no mundo e tornou-se peça fundamental na cadeia internacional de baterias para veículos elétricos.
Empresas chinesas perceberam essa oportunidade muito antes de muitos concorrentes ocidentais. Companhias como CATL e Tsingshan realizaram grandes investimentos no país, ajudando a integrar a produção indonésia de minerais à indústria chinesa de baterias, aço e veículos elétricos. Somente no início de 2026, o investimento direto chinês na Indonésia alcançou cerca de US$ 3,9 bilhões.
Essa integração possui enorme importância geopolítica. A disputa entre China e Estados Unidos deixou de ser apenas uma competição por mercados. Hoje ela envolve semicondutores, inteligência artificial, energia, baterias, terras raras, infraestrutura e controle das cadeias produtivas. E nesse tabuleiro, a Indonésia possui cartas valiosas.
A Indonésia não pretende escolher um lado…
Interpretar essa aproximação como uma simples mudança de alinhamento da Indonésia em direção à China pode se constituir em um grave erro de percepção estratégica. A política externa indonésia continua marcada pelo não alinhamento e pela tentativa de manter relações equilibradas com diferentes potências.
Ao mesmo tempo em que aumenta sua cooperação militar com Pequim, Jacarta mantém relações de defesa importantes com Estados Unidos e Japão. A Indonésia também preserva importantes vínculos econômicos com Washington: empresas dos dois países anunciaram acordos comerciais e de investimentos avaliados em dezenas de bilhões de dólares em fevereiro de 2026.
Essa postura pode ser resumida em um postulado relativamente simples: Jacarta quer trabalhar com a China sem depender da China.
Mas, A Indonésia também deseja trabalhar com os Estados Unidos sem se tornar parte automática de uma estratégia americana de contenção de Pequim.
O Mar do Sul da China continua sendo o ponto sensível
Existe, entretanto, um obstáculo importante nessa relação: China e Indonésia possuem divergências relacionadas ao Mar do Sul da China, especialmente nas águas próximas às ilhas Natuna. Pequim reivindica direitos históricos sobre uma enorme parcela do Mar do Sul da China. Parte dessas reivindicações alcança áreas da Zona Econômica Exclusiva indonésia.
Todavia, Jacarta rejeita essa interpretação. O governo indonésio já afirmou claramente que as reivindicações chinesas naquela região não possuem base jurídica internacional e insiste que sua soberania e seus direitos sobre as águas próximas às Natuna não estão sujeitos a negociação. Esse detalhe demonstra a complexidade da relação.
A Indonésia pode receber investimentos chineses, construir uma fábrica de munições em parceria com Pequim e realizar exercícios militares conjuntos e, ao mesmo tempo, confrontar diplomaticamente a China quando seus interesses territoriais forem ameaçados.
A estratégia chinesa no Sudeste Asiático
Para Pequim, aprofundar relações com a Indonésia faz parte de um objetivo maior: ampliar sua influência sobre o Sudeste Asiático.
A região é fundamental para a China. Além de possuir aproximadamente 680 milhões de habitantes, os países da ASEAN formam um dos maiores mercados do mundo e ocupam uma posição privilegiada entre os oceanos Índico e Pacífico.
A China já é o maior parceiro comercial da ASEAN. Em 2024, o comércio bilateral entre Pequim e os países do bloco alcançou aproximadamente US$ 771 bilhões. Contudo, Pequim pretende ir além. O Objetivo dos chineses é transformar parte dessa força econômica em influência política e estratégica.
Nesse contexto, a Indonésia é parte fundamental dessa estratégia Afinal, o país é o mais populoso do Sudeste Asiático, a maior economia da região e um dos principais integrantes da ASEAN.
O que significa a aproximação sino-indonésia?
A relação entre China e Indonésia oferece uma boa fotografia da transformação pela qual passa a ordem internacional. Durante a Guerra Fria, muitos países eram pressionados a escolher entre dois blocos. De maneira distante, no mundo atual, diversas potências médias procuram evitar essa escolha.
A Indonésia deseja acesso a investimentos e tecnologia chinesas , além de acesso ao gigantesco mercado chinês. Mas também quer preservar relações com Estados Unidos, Japão, Austrália, União Europeia e outros parceiros.
Para Pequim, isso já representa uma vitória importante. A China não precisa necessariamente transformar a Indonésia em uma aliada formal. Para os chineses, impedir que Jacarta se transforme em potencial adversária já se constitui em uma importante conquista geopolítica.
Essa constitui-se em uma das estratégias mais eficientes da diplomacia chinesa: criar relações econômicas profundas o suficiente para tornar qualquer política de confronto cada vez mais cara para seus parceiros.
A aproximação recentemente anunciada entre China e Indonésia demonstra que essa estratégia começa agora a avançar para setores ainda mais sensíveis, como defesa, tecnologia e segurança. A Indonésia, por sua vez, tentará transformar a competição entre China e Estados Unidos em oportunidade para acelerar seu próprio desenvolvimento.
O sucesso ou não dessa manobra poderá ser avaliado nos próximos anos. Mas uma coisa parece clara: em um Indo-Pacífico cada vez mais disputado, quem conseguir manter a Indonésia próxima terá conquistado uma das posições mais importantes do tabuleiro geopolítico asiático. A conferir.
E você? Qual a sua avaliação sobre a aproximação Sino-indonésia? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
