Alessandro Sberni*
A política alemã tem atravessado uma transformação que pode produzir consequências muito além de suas fronteiras. Nas eleições realizadas em 6 de setembro de 2026 no estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 43,8% dos votos, tornando-se com ampla vantagem a principal força política regional. Embora não tenha alcançado maioria absoluta para governar sozinho, o resultado representa a maior votação obtida pelo partido desde sua criação e coloca novamente no centro do debate o avanço da extrema direita alemã.

A importância do resultado não deve ser medida apenas pelo reduzido tamanho econômico ou populacional da Saxônia-Anhalt, que representa 2,5% da poulação total do país e responde por 1,8% do PIB. A Alemanha é a maior economia da União Europeia, possui uma das principais forças políticas do continente e exerce papel decisivo na OTAN, na política de apoio à Ucrânia e nas relações econômicas europeias com Rússia, China e Estados Unidos. Portanto, qualquer mudança estrutural na política germânica tende a alterar também o equilíbrio de poder europeu.
A ascensão da AfD
A AfD surgiu em 2013, no contexto da crise das dívidas soberanas europeias. À época, suas bandeiras eram bastante diferente das atuais: seu ponto principal era a oposição aos programas de resgate financeiro realizados para preservar a zona do euro. Naquele momento, o partido reunia sobretudo economistas e setores conservadores críticos à integração econômica europeia.
A transformação começou principalmente durante a crise migratória de 2015, quando o governo de Angela Merkel permitiu a entrada de um grande número de refugiados na Alemanha. A imigração passou então a ocupar posição central no discurso da AfD, enquanto correntes nacionalistas e mais radicais conquistavam espaço dentro da legenda.
Em 2017, o partido entrou pela primeira vez no Bundestag, o Parlamento Federal Alemão, conquistando 12,6% dos votos e tornando-se a terceira maior força política do país. O crescimento continuou: nas eleições federais de fevereiro de 2025, a AfD alcançou 20,8% dos votos, praticamente dobrando seu desempenho anterior e tornando-se a segunda maior força política do Bundestag. O resultado obtido agora na Saxônia-Anhalt representa um novo estágio dessa trajetória.
A AfD e suas principais bandeiras
Apesar das diferenças existentes entre suas diversas correntes internas, algumas posições caracterizam atualmente a plataforma política da AfD. Uma das principais é a defesa de políticas migratórias muito mais restritivas. O partido propõe limitar fortemente a entrada de refugiados, acelerar deportações de estrangeiros que tenham pedidos de asilo rejeitados e ampliar o controle das fronteiras.
Outra característica é o forte euroceticismo. A AfD defende uma profunda redução dos poderes das instituições europeias e a recuperação da soberania dos Estados nacionais. Em sua visão, a União Europeia deveria deixar de caminhar na direção de uma integração política cada vez maior e voltar a funcionar principalmente como uma associação entre países independentes.
Setores da legenda defendem inclusive a possibilidade de a Alemanha abandonar estruturas atuais da integração europeia caso reformas profundas não sejam realizadas. O próprio chanceler Friedrich Merz advertiu recentemente que propostas envolvendo saída da União Europeia, da zona do euro ou do espaço Schengen poderiam produzir graves consequências econômicas para o país.
Outro ponto particularmente importante para a geopolítica europeia é a posição da AfD em relação à Rússia e à guerra na Ucrânia.
O partido defende o restabelecimento das relações econômicas com Moscou, critica as sanções contra a Rússia e rejeita a continuidade do apoio militar alemão à Ucrânia. Também defende uma Ucrânia neutra, fora tanto da OTAN quanto da União Europeia.
Reflexos para a União Europeia
O crescimento da AfD acontece em um momento especialmente delicado para o projeto europeu. Durante décadas, o eixo formado principalmente por Alemanha e França funcionou como motor político da integração continental. Berlim desempenhou papel central na construção da moeda comum, na ampliação da União Europeia para o leste e no financiamento de diversos projetos comunitários. Assim, uma Alemanha mais nacionalista e eurocética poderia modificar profundamente esse equilíbrio.
A primeira consequência seria provavelmente o fortalecimento das forças políticas europeias que defendem uma “Europa das nações”, com governos nacionais recuperando competências atualmente exercidas por Bruxelas. Isso poderia beneficiar partidos semelhantes na França, Itália, Países Baixos, Áustria e outros países.
A segunda consequência seria uma crescente dificuldade para alcançar consenso sobre temas como imigração, orçamento europeu, políticas ambientais, defesa e futuras ampliações da União Europeia. Nesse cenário, o problema para Bruxelas não seria necessariamente uma saída imediata da Alemanha do bloco, mas uma possível transformação da própria União Europeia de dentro para fora.
E a OTAN ?
A política de defesa talvez seja o ponto de maior importância estratégica. Desde a invasão russa da Ucrânia em 2022, a Alemanha iniciou uma grande mudança em sua postura militar. Depois de décadas de investimentos relativamente reduzidos em defesa, Berlim passou a aumentar significativamente os gastos militares e assumiu papel cada vez mais importante na segurança do flanco oriental da OTAN.
A posição da AfD é diferente. Seu programa reconhece a OTAN como elemento importante da segurança alemã no presente, mas rejeita novas ampliações para o leste e defende, no longo prazo, a criação de uma arquitetura europeia de segurança com maior autonomia em relação aos Estados Unidos.
Uma eventual chegada da AfD ao governo federal, portanto, poderia não significar automaticamente a saída da Alemanha da OTAN, mas certamente provocaria debates sobre o futuro papel alemão dentro da organização. O impacto seria particularmente relevante para países como Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia, que consideram a Rússia sua principal ameaça estratégica.
O fator Rússia
Poucos atores internacionais acompanhariam o crescimento da AfD com tanta atenção quanto a Rússia. A atual estratégia europeia de contenção de Moscou depende fortemente da cooperação entre Alemanha, França, Polônia, Reino Unido e Estados Unidos.
Uma mudança significativa na posição alemã poderia enfraquecer esse consenso. A redução do apoio militar à Ucrânia, a flexibilização das sanções econômicas e uma eventual retomada das relações energéticas entre Alemanha e Rússia poderiam modificar de maneira importante o equilíbrio geopolítico no continente.
Esse contexto justifica a preocupação demonstrada por países como Polônia e França diante do recente avanço da AfD.
A “Brandmauer” começa a ser testada?
Existe, entretanto, um obstáculo importante para a chegada da AfD ao poder. Os principais partidos alemães mantêm há anos uma política conhecida como Brandmauer, ou “muralha de proteção”, recusando coalizões com a legenda.
Na Saxônia-Anhalt mesmo conquistando quase 44% dos votos, a AfD não conseguiu maioria absoluta e enfrenta dificuldades para encontrar parceiros políticos suficientes para formar um governo.
A questão é que, quanto mais o partido cresce, mais difícil se torna manter essa estratégia. Se a AfD alcançar percentuais próximos ou superiores a 30% em futuras eleições, os partidos tradicionais precisarão formar coalizões cada vez mais amplas e ideologicamente contraditórias apenas para impedir sua chegada ao governo, o que pode gerar instabilidade política e, paradoxalmente, alimentar ainda mais o discurso antissistema da própria AfD.
A Saxônia-Anhalt pode ser apenas o começo
O resultado de setembro de 2026 deve ser interpretado menos como um fenômeno regional isolado e mais como um indicador das profundas transformações que atravessam a sociedade alemã. Descontentamento econômico, dificuldades da indústria, imigração, custo de vida, insegurança sobre o futuro e crescente rejeição aos partidos tradicionais formam um ambiente político favorável ao crescimento de movimentos contestadores.
A AfD tem conseguido transformar parte desse descontentamento em votos. Ainda existe uma distância considerável entre vencer uma eleição estadual e governar a Alemanha. O sistema político alemão, suas instituições e a necessidade de formação de coalizões tornam mudanças radicais mais difíceis.
Entretanto, a geopolítica raramente muda apenas quando novos governos assumem o poder. Ela começa a mudar quando determinadas ideias deixam de ocupar as margens do debate e passam a influenciar decisões dos governos tradicionais. É justamente aí que reside a importância da recente vitória da AfD.
Mesmo permanecendo fora do governo federal, seu crescimento pode pressionar os demais partidos alemães a adotar posições mais rígidas sobre imigração, mais cautelosas sobre integração europeia e mais críticas em relação ao apoio prolongado à Ucrânia.
E quando a política externa da Alemanha muda, ainda que parcialmente, a própria geopolítica europeia começa a se mover. A conferir.
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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
