O emprego dual da Inteligência Artificial: da efetividade na Logística Militar à garantia da Soberania

Luiz Roberto Camara*

Desde os primórdios da humanidade, a tecnologia foi empregada em usos múltiplos: caçar para alimentar e, ao mesmo tempo, proteger a tribo. Ferramentas de pedra, lanças, pólvora e os navios a vela serviram não apenas para explorar territórios e expandir fronteiras comerciais, mas também como instrumentos de guerra e dissuasão.

O conceito do emprego dual das tecnologias acompanha, portanto, a própria evolução da civilização. No século XXI, esse fenômeno se intensifica com a ascensão da Inteligência Artificial (IA). Uma inovação que já reorganiza cadeias produtivas no setor civil, mas que encontra, na logística militar, um campo fértil para consolidar seu caráter estratégico. Não se trata apenas de eficiência operacional: trata-se da própria garantia da soberania nacional em um mundo cada vez mais competitivo e volátil.

Logística e Inteligência Artificial

LOGÍSTICA MILITAR COMO DIFERENCIAL ESTRATÉGICO

A logística sempre foi o coração invisível das operações militares. Sun Tzu, em A Arte da Guerra, enfatizava que a vitória depende tanto da organização dos suprimentos quanto da habilidade no campo de batalha.

De nada adianta o soldado mais bem treinado se lhe faltam munição, alimentação ou transporte adequado. No cenário atual, essa lógica ganha novas camadas de complexidade. Operações Militares atuais demonstram que até 70% do esforço militar no planejamento de uma campanha pode estar relacionado à logística.

Em relação à execução, dados do U.S. Army Logistics revelam que apenas no Afeganistão, em 2010, foram consumidos cerca de 5 bilhões de galões de combustível, a um custo de US$ 13 bilhões. Nesse contexto, a IA não é apenas uma ferramenta auxiliar: ela redefine o papel logístico como elemento de vantagem estratégica e economia de meios e recursos.

IA NA LOGÍSTICA: DO PLANEJAMENTO À EXECUÇÃO

 A redefinição promovida pela IA acontece em múltiplas etapas:

 1. Planejamento logístico: A análise de grandes volumes de dados históricos e em tempo real permite prever demandas com maior precisão. Sistemas inteligentes poderiam, por exemplo, calcular a necessidade de suprimentos para uma Brigada inteira em diferentes cenários climáticos ou geográficos, ajustando recursos de forma dinâmica. Isso torna a gestão proativa, reduzindo falhas e custos inesperados.

 2. Antecipação de cenários: Modelos preditivos baseados em machine learning (tecnologia de IA que usa algoritmos para analisar grandes volumes de dados, identificar padrões, fazer previsões e tomar decisões autônomas) simulam desde hipóteses favoráveis até crises críticas, como bloqueios em rotas, variações climáticas ou restrições de transporte. Em operações militares conjuntas, isso permite preparar rotas alternativas e alocar contingências antes que o problema ocorra. 

3. Otimização de rotas: A IA cruza informações sobre tráfego, condições meteorológicas, estado de manutenção das vias e até riscos geopolíticos. O resultado são trajetos mais seguros, rápidos e previsíveis. Para um país continental como o Brasil, a possibilidade de calcular em tempo real o melhor corredor logístico para deslocar tropas ou suprimentos pode representar a diferença entre êxito e fracasso. 

4. Gestão de suprimentos: A integração inteligente de dados de estoques, validade de materiais, fornecedores e condições de transporte reduz desperdícios e falhas de abastecimento. O Code Brew Labs publicou que, segundo a McKinsey a implementação da IA na cadeia de suprimento poderia reduzir os erros de previsão entre 20% a 50%, otimizando a previsibilidade, aumentando a eficiência e economizando recursos.

5. Execução operacional: Na ponta da linha, a IA atua automatizando processos, desde a manutenção preditiva de veículos até a coordenação de comboios autônomos. Veículos não tripulados, aéreos e terrestres, podem transportar suprimentos em áreas de risco, reduzindo a exposição de vidas humanas.

A natureza dual da IA: civil e militar

O emprego dual das tecnologias não é novidade, mas ganha intensidade com a IA. Segundo relatório da União Europeia (2023), cerca de 80% das inovações em IA desenvolvidas no setor civil possuem aplicação militar direta ou indireta. Exemplos recentes ilustram esse fenômeno:

Setor civil: empresas de e-commerce utilizam IA para prever demanda e otimizar estoques.

Setor militar: as mesmas técnicas apoiam a previsão de insumos em operações prolongadas, garantindo fluxo contínuo de suprimentos. Nos Estados Unidos, a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) mantém projetos de integração de IA na logística militar, baseada em forte cooperação com empresas privadas, startups e universidades. Segundo relatório da WIPO Technology Trends 2019 – Artificial Intelligence, de todos os casos das famílias de patentes de IA em litígio, 74% estão nos Estados Unidos, o que demonstra a força norte-americana no setor de desenvolvimento tecnológico de IA.

O Brasil no contexto: desafios e oportunidades

O Brasil possui uma matriz energética limpa, vastos recursos naturais e posição geoestratégica privilegiada no Cone Sul. No entanto, enfrenta desafios estruturais na integração de tecnologias duais. A Base Industrial de Defesa (BID), organizada sob a articulação da ABIMDE, reúne empresas que já operam em setores de alta tecnologia, como aeronáutica, cibernética e materiais avançados.

A Embraer, por exemplo, desenvolveu o KC-390 Millennium, maior avião militar já produzido no Hemisfério Sul, e que integra sistemas inteligentes de logística aérea. Mas ainda falta coordenação nacional em torno de uma estratégia clara para a IA dual-use.

Relatório recente da Agência Brasil, publicado em 30 de setembro, apontou que R$ 390 milhões serão investidos em pesquisa de IA, ao longo dos próximos quatro anos, o que corresponde a apenas 6,5% da previsão orçamentária para 2026 e, considerando que esse valor será diluído em 4 anos, essa porcentagem diminui para menos de 2% ao ano. É uma fatia ainda muito pequena do orçamento, mas já apresenta um interesse crescente em desenvolvimento e regulamentação do uso da IA.

No entanto, falta a integração com a Base Industrial de Defesa. Outro desafio está na formação de recursos humanos. A cooperação entre centros de pesquisa militares (IME, ITA, EsPCEx) e civis (universidades e institutos tecnológicos) precisa avançar, criando massa crítica para a pesquisa em IA aplicada à defesa nacional.

O PAPEL DA LOGÍSTICA NA SOBERANIA

Ao pensar em soberania, não podemos nos limitar ao conceito de proteção das fronteiras físicas1. Esse conceito é deveras ultrapassado nos dias de hoje. Garantia da soberania, no mundo de hoje, significa sobretudo assegurar a autonomia tecnológica. Se um país depende de fornecedores externos para sistemas de IA críticos, sua capacidade de resposta em crises fica vulnerável e incipiente.

Nesse sentido, a integração entre pesquisa civil e militar é essencial. Projetos financiados conjuntamente podem desenvolver algoritmos que sirvam tanto para a logística empresarial quanto para a logística militar. Esse modelo, além de reduzir custos, amplia a escala produtiva e garante longevidade estratégica. Um exemplo prático seria o uso de sistemas de IA para monitoramento de portos e corredores logísticos. Enquanto no setor civil servem para otimizar o escoamento de grãos e minérios, no setor militar garantem segurança no transporte de equipamentos estratégicos. 


Conclusão: IA, logística e soberania no século XXI

A dualidade tecnológica não é um conceito abstrato, mas uma realidade histórica e atual. Desde as primeiras ferramentas até a Inteligência Artificial, a humanidade desenvolveu tecnologias com múltiplos usos, sempre em busca de vantagem competitiva e de sobrevivência. No século XXI, a IA empregada na Defesa Nacional não só redefine a logística em todas as etapas, do planejamento à execução, aumentando eficiência, segurança e resiliência.

Ao mesmo tempo, ela se afirma como eixo estratégico da segurança nacional: quem domina a IA não apenas desenvolve sua economia, mas também garante a soberania, possibilitando ao Estado Brasileiro autonomia decisória. Como dizia Sun Tzu, “a arte da guerra é a arte da adaptação”. O Brasil, ao investir em IA como tecnologia dual, tem a oportunidade de transformar sua Base Industrial de Defesa em motor de inovação nacional. Mais que acompanhar tendências globais, pode liderar no Cone Sul, unindo desenvolvimento econômico, sustentabilidade e segurança. O futuro da logística — militar e civil — será moldado pela Inteligência Artificial. Cabe a nós decidir se seremos protagonistas desse processo ou meros consumidores de soluções externas. 

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(*) Coronel de Material Bélico e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Mestre em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos. Administrador de Empresas. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor de Logística do Gabinete do Comandante do Exército. Foi instrutor da AMAN. Foi Comandante do 4º Batalhão Logístico Blindado (Santa Maria/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/luiz-roberto-camara-251389386/

1 Saiba mais sobre o conceito e as classificações das fronteiras : https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/04/as-fronteiras-e-a-geopolitica/

1 comentário em “O emprego dual da Inteligência Artificial: da efetividade na Logística Militar à garantia da Soberania”

  1. Krístian Carlos Silva Amazonas

    Brilhante análise, Luiz Roberto Camara! O artigo sobre o emprego dual da IA revela, com precisão e profundidade, como tecnologia e soberania caminham juntas no fortalecimento da logística e da Defesa nacional.

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