Alessandro Sberni*

No início de dezembro de 2025 os Estados Unidos publicaram a nova versão de sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sila em inglês). Trata-se de um documento que pode ser considerado um divisor de águas tanto na política externa quanto na política de defesa norte-americana. O texto de 33 páginas assinado pelo Presidente Donald Trump representa uma guinada em relação à sua versão anterior, redefinindo prioridades, ações e áreas estratégicas de interesse para os EUA.
Ao contrário das antigas versões do documento, a atual Estratégia de Segurança Nacional1 se afasta da visão da liderança hegemônica dos Estados Unidos e da visão globalista de intervenção do país em todo o mundo, redefinindo, portanto, o papel dos EUA no cenário global.
De uma forma geral e didática, pode-se dividir a NSS em quatro pilares, cujas principais características abordaremos a seguir.
PRIORIDADE AO HEMISFÉRIO OCIDENTAL: A VOLTA DA DOUTRINA MONROE E O COROLÁRIO TRUMP
A Doutrina Monroe foi a base da Política Externa norte-americana durante o o século XIX. Anunciada em 1823 pelo Presidente James Monroe, tinha como lema “A América para os americanos”. Seu principal objetivo era evitar que potências europeias realizassem ações intervencionistas nos países da América Latina, que recentemente haviam conquistado suas independências nacionais.
Na nova Estratégia de Segurança Nacional, os Estados Unidos afirmam que farão cumprir a Doutrina Monroe para protejer a Pátria e e restaurar a preeminência norte-americana no hemisfério ocidental. O documento acrescenta ainda o chamado “Corolário Trump”, onde deixam explícito que os EUA negará a concorrentes de fora do hemisfério a capacidade de posicionar forças, capacidades ou de controlar ativos estratégicos vitais aos interesses dos Estados Unidos.
A análise desse primeiro pilar da NSS nos mostra um claro recado à China, que sistematicamente tem cada vez mais se aproximado dos países da América Latina, quer por meio do incremento do comércio, quer por meio da realização de grandes investimentos em infraestrutura e em plantas industriais. Também deixa uma mensagem implicita para outras potências extracontinentais, como a Rússia e o Irã, que possuem uma proximidade indesejada com países como a Venezuela e Cuba.
Nesse contexto, um outro fator existente na América Latina e que representa uma ameaça aos interesses dos EUA é o tráfico de drogas. Na região encontram-se os maiores produtores mundiais de drogas, organizados em cartéis e facções profundamente enraizados nas sociedade e nas elites político-econômicas de países como a Colômbia, a Bolívia, a Venezuela e o México. Dessa forma, é possível se inferir que nos próximos anos os Estados Unidos devem intensificar ações de combate ao narcotráfico na América, a exemplo do que está ocorrendo atualmente no Mar do Caribe.
NOVA POSTURA GLOBAL: “AMERICA FIRST”
Um dos aspectos da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA que mais desperta interesse e que merece destaque é a redefinição do papel do país no cenário global. Ao afirmar que as políticas externa, de defesa e de inteligência do país serão estritamente focadas no interesse nacional, os Estados Unidos deixam claro que não mais desejam exercer o papel de “polícia do mundo”, ou seja, de considerar que todos os assuntos em todos os locais do mundo são de interesse dos norte-americanos.
Assim, a NSS prossegue deixando clara uma predisposição ao não-intervencionismo nos assuntos de outros Estados quando esses assuntos não afetarem os interesses do país, em um retorno ao pensamento dominante entre os “Founding Fathers2“, à epoca da Independência (1776).
Outro ponto relevante da NSS é a modificação da postura dos Estados Unidos face aos conflitos que ocorrem em diversos pontos do planeta. Ao contrário de versões anteriores do documento, onde os EUA invariavelmente se viam “obrigados” a apoiar um dos lados da disputa, a nova NSS estabelece que as alianças e as batalhas serão escolhidas de acordo com a conjuntura e o interesse dos Estados Unidos.
Em outras palavras, as ações externas do Poder Nacional dos Estados Unidos somente serão realizadas caso tragam algum benefício direto aos interesses nacionais norte-americanos, em com contexto que o documento chama de ‘Realismo Flexível”.
CHINA: CONTER A EXPANSÃO ECONÔMICA E INCREMENTAR ALIANÇAS REGIONAIS
O texto da Estratégia de Segurança Nacional dedica mais de três páginas exclusivamente à China. Ao abordar os principais aspectos relativos ao crescimento do país asiático a NSS faz uma crítica aos governos anteriores e à elite norte-americana sobre as políticas e estratégias tidas como equivocadas e que permitiram que os chineses se tornassem uma potência global.
Nesse contexto, a NSS lista uma série de ações a serem desenvolvidas pelos EUA para minimizar os “danos” que as chamadas práticas comerciais nocivas da China vem sistematicamente causando à economia dos Estados Unidos. Entre essas práticas, o documento cita: subsídios predatórios concedidos pelo Estado Chinês, roubo de propriedade intelectual, ameaças à cadeia de suprimentos (incluindo minerais e terras raras), exportação descontrolada de fentanil, entre outras. Uma outra ação estratégica prevista para conter a expansão econômica chinesa é o aprimoramento e o incremento das relações comerciais com a Índia e os demais países do QUAD3 (Índia, Japão e Austrália).
Em relação ao Poder Militar, a NSS afirma que os Estados Unidos deverão manter Forças Armadas aptas a manter o chamado “equilíbrio convencional” (não-nuclear) na região do Indo-Pacífico. Da mesma forma, o documento deixa explícito que os maiores interesses dos EUA na região são Taiwan (devido a sua produção de semicondutores e sua localização geográfica) e a livre navegação na região do Mar do Sul da China. O documento incentiva ainda aos aliados dos EUA na região, Coreia do Sul e Japão , a ampliarem seus gastos com defesa e a adquirirem novas capacidades para incrementarem seu poder de dissuasão em relação à China.
DÚVIDAS SOBRE A EUROPA
A nova NSS é bastante dura em relação à Europa, aliada tradicional dos Estados Unidos. Ao apresentar dados sobre o declínio econômico do continente, sobre a queda da taxa de natalidade, sobre a perda das identidades nacionais de vários países, sobre as políticas migratórias consideradas erráticas, à censura e ao excesso de regulamentação da União Europeia, o documento conclui que, caso as tendências atuais persistam, a Europa será irreconhecível em 20 anos.
Nesse cenário, a NSS questiona se nesse espaço de tempo alguns países europeus terão capacidade econômica suficiente para manterem Forças Armadas com a dimensão estratégica suficiente para permanecerem como aliados estratégicos. Assim, a NSS questiona o impacto que essa degradação econômica e social de alguns países europeus pode ter sobre a OTAN e sobre sua capacidade de se opor a uma Rússia expansionista.
Ampliando a janela temporal, a NSS avalia que em algumas décadas alguns membros atuais da OTAN se tornarão majoritariamente não-europeus (etnicamente falando), o que pode trazer impactos profundos sobre seu papel na aliança militar ocidental.
A NSS acrescenta também que um dos objetivos a serem atingidos pelos Estados Unidos é auxiliar a Europa a “corrigir” sua trajetória atual, uma vez que aos EUA interessa ter uma Europa forte para impedir que qualquer adversário (Rússia? Islã?) domine o continente.
CONCLUSÃO
A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 é o reflexo de um realinhamento geopolítico global, marcado pela competição entre os Estados Unidos e a China, pela reafirmação do interesse norte-americano em exercer a sua primazia no Hemisfério Ocidental e por um foco na segurança doméstica e na resiliência econômica americana.
O documento reafirma a postura dos Estados Unidos de apenas realizar ações em âmbito global caso os interesses do país estejam em jogo, rejeitando um papel de intervenção em assuntos que não lhe dizem respeito. As poucas linhas dedicadas ao Oriente Médio e ao contimente africano exemplificam essa postura, apresentando ações bastante genéricas a serem desenvolvidas pelos Estados Unidos nessas regiões.
Critica ainda duramente a Europa, apontando políticas consideradas equivocadas e com potencial de descaracterização social, política e econômica do continente em poucas décadas, questionando as futuras capacidades de alguns países europeus em se manterem como parceiros militares confiáveis no âmbito da OTAN.
As políticas e diretrizes descritas na Estratégia de Segurnaça Nacional dos Estados Unidos publicada em 2025 serão efetivamente a espinha dorsal da Política Externa, de Defesa e de Inteligência da gestão de Donald Trump? Ou serão apenas “palavras ao vento”, um documento destinado a ficar armazenado no fundo das gavetas do Departamento de Estado , do Pentágono e da CIA? A conferir.
E você? Qual a sua percepção sobre a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos? Deixe sua opinião no comentários ou entre em contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Participe! https://www.geopoliticando.com.br/contato/

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre a Iniativa QUAD : https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/22/iniciativa-quad/
2 Founding Fathers (Pais Fundadores, em uma tradução lvre): foram os líderes norte-americanos que conquistaram a Independência do país e que redigiram a sua Constituição. Entre os principais nomes estão George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e diversos outros.
3 Conheça a NSS na íntegra: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf

Excelente matéria! Concisa e direta. Parabéns Sberni.
Muito obrigado, caro amigo! Aguardamos seus textos para publicação ! Abraço !
Meu amigo, esse tema que você escolheu para abordar tem uma importância geopolítica atualíssima, que aos olhos desenformados, poderia passar despercebido. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA marca uma guinada estratégica, recentralizando o foco no Hemisfério Ocidental e no princípio do “America First”. O documento reforça a contenção à expansão chinesa e questiona a resiliência futura da Europa como parceiro estratégico. Trata-se de um sinal claro de realinhamento global, com prioridades mais seletivas e orientadas ao interesse nacional.
Ainda vejo a interferência direta dos EUA, nas guerras da Rússia com a Ucrânia, de Israel contra Hamas , e recente cerco a Venezuela, como forma direta de proteger as empresas de Petróleo Norte Americanas e dificultar a remessa de drogas àquele país! Essas novas regras dos EUA, só atualizam sua geopolítica! Revelam temor com a China!
De fato! A NSS deixa claro sua preocupação com a China e também com a conjuntura da América Latina e a influência de potências de fora do Hemisfério Ocidental na região.