Rodrigo Modesto Frech Diniz*
A ordem internacional atravessa um processo de transformação profunda. Embora mudanças geopolíticas sejam inerentes ao sistema global, o que se observa hoje é uma reconfiguração simultânea de bases econômicas, militares, tecnológicas e normativas que sustentaram o arranjo pós-Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma transição que não ocorre de forma linear, mas por meio de tensões, disputas de influência e rearranjos institucionais que refletem a crescente multiplicidade de centros de poder.
1. O declínio relativo da hegemonia norte-americana
A estrutura de poder que emergiu após 1945 foi amplamente moldada pela liderança dos Estados Unidos. O país assumiu o comando na construção de instituições multilaterais, difundiu normas liberais e manteve superioridade militar e tecnológica por décadas. Contudo, sinais de fadiga hegemônica tornaram-se evidentes ao longo dos últimos anos.
Esse declínio não significa colapso, mas perda de exclusividade. A economia norte-americana permanece vibrante, seu ecossistema de inovação continua predominante e sua capacidade militar ainda não encontra paralelo. No entanto, a incapacidade de Washington de exercer o mesmo grau de influência normativa e a fragmentação interna do país limitaram sua habilidade de moldar consensos globais. A ascensão avassaladora da China no tabuleiro geopolítico global e o revisionismo russo de Putin colaboram para essas mudanças.

2. A emergência da China como polo remodelador
A ascensão chinesa representa o fenômeno mais determinante da transição atual. Combinando crescimento econômico de longo prazo, investimentos maciços em tecnologia e projeção militar crescente, Pequim transformou-se em alternativa real ao modelo ocidental. Iniciativas como a Nova Rota da Seda, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e a internacionalização do Yuan são expressões de um projeto estatal de longo alcance.
A China não se apresenta como potência revisionista clássica — isto é, empenhada em romper completamente a ordem vigente —, mas como potência que busca reformá-la a partir de seus interesses. Pretende ampliar sua influência sem assumir integralmente os custos do sistema internacional, ao mesmo tempo em que contesta padrões de governança digital, regras comerciais e mecanismos de segurança regional.
3. A Rússia e o retorno da competição estratégica
Embora a Rússia não tenha peso econômico comparável ao dos EUA ou da China, sua capacidade militar, controle energético e assertividade geopolítica asseguram-lhe centralidade nas dinâmicas internacionais. A guerra na Ucrânia marcou a ruptura definitiva do paradigma de estabilidade europeia pós-Guerra Fria e recolocou a lógica de rivalidade entre grandes potências no centro da agenda de segurança global.
A atuação russa desafia diretamente instituições como a OTAN e questiona a legitimidade dos arranjos de segurança liderados pelo Ocidente. Além disso, aproximou Moscou de outros atores revisionistas e acelerou a formação de blocos geopolíticos mais rígidos, ainda que não totalmente coesos.
4. A fragmentação do multilateralismo
Um dos aspectos mais visíveis da transformação da ordem mundial é a fragilidade crescente das instituições multilaterais. Organismos como ONU, OMC e OMS enfrentam paralisia decisória, disputas internas e perda de autoridade normativa. A competição entre potências esvazia fóruns de cooperação e favorece arranjos paralelos, frequentemente regionais ou temáticos.
A multiplicação de mecanismos bilaterais ou multilaterais — como QUAD1, AUKUS, BRICS ampliado e novas coalizões climáticas — expressa um multilateralismo adaptado, mais flexível e menos universalista. Essas iniciativas respondem a interesses específicos, mas também contribuem para a fragmentação das regras globais e para a sobreposição de agendas concorrentes.
5. Economia global em transição: desglobalização seletiva
Nos últimos anos, a globalização passou por revisão crítica. Tensões comerciais, vulnerabilidades de cadeias de suprimentos e disputas tecnológicas estimularam movimentos de reshoring, nearshoring e formação de “blocos tecno econômicos”. Não se trata exatamente de uma desglobalização, mas de uma globalização seletiva, mais política e menos espontânea.
Setores estratégicos — semicondutores, inteligência artificial, energia de transição e telecomunicações tornaram-se arenas prioritárias da competição entre Estados. O domínio tecnológico passou a determinar não apenas competitividade econômica, mas soberania nacional. Assim, políticas industriais, antes contestadas por ortodoxias liberais, voltaram ao centro das estratégias governamentais.
6. Poder tecnológico e disputas pela infraestrutura do futuro
A disputa geopolítica do século XXI é profundamente tecnológica. A infraestrutura digital tornou-se campo de batalha para a definição de padrões, controle de dados, vigilância e autonomia estratégica. Competição por redes 5G, satélites em órbita baixa, biotecnologia e inteligência artificial envolve tanto governos quanto grandes empresas.
Nesse contexto, a interdependência global, antes vista como mecanismo de estabilidade, passou a ser tratada como possível vulnerabilidade. Países buscam reduzir dependências críticas e diversificar fornecedores, especialmente em áreas sensíveis como energia, minerais estratégicos e sistemas de comunicação.
7. O Sul Global e o avanço da multipolaridade
A proliferação de novos polos de poder não se restringe à competição entre grandes potências. Países do Sul Global — particularmente Índia, Turquia, Indonésia, Arábia Saudita, Brasil e África do Sul — ampliaram sua projeção internacional. Muitos deles utilizam estratégias de autonomia pragmática, evitando alinhamentos rígidos e negociando simultaneamente com blocos rivais.
A ampliação dos BRICS simboliza essa mudança. Embora heterogêneo, o grupo expressa insatisfação com a distribuição de poder nas instituições internacionais e busca alternativas financeiras, energéticas e comerciais. Ao mesmo tempo, o Sul Global tornou-se terreno decisivo para a disputa de narrativas e para a construção de parcerias estratégicas, especialmente em infraestrutura, segurança alimentar e transição energética.
8. Conflitos regionais e tensões persistentes
A redefinição da ordem mundial ocorre em meio ao aumento de conflitos regionais. Oriente Médio, Mar do Sul da China, Cáucaso e África subsaariana vivem períodos de instabilidade prolongada. Esses conflitos não são isolados: interferem em fluxos energéticos, cadeias de suprimentos e alianças militares globais.
A competição entre potências reverbera nesses espaços, seja por meio de apoio militar, financiamento, influência diplomática ou disputa por recursos naturais. A interconexão entre conflitos locais e rivalidades globais intensifica o risco de escaladas não planejadas.
9. Normas internacionais em disputa
A transição global envolve uma disputa silenciosa — mas profunda — pela redefinição das normas que orientam a conduta dos Estados. Questões como cibersegurança, privacidade, soberania de dados, uso de força, governança ambiental e regulação de tecnologias emergentes tornaram-se objeto de negociações intensas.
A consolidação de uma ordem internacional híbrida, onde coexistem normas ocidentais, interpretações alternativas e sistemas paralelos, tende a marcar os próximos anos. As regras deixam de ser universais e passam a ser disputadas em múltiplos níveis.
Conclusão
O mundo não se encaminha para uma nova ordem rígida e claramente definida, como ocorreu após 1945 ou durante a Guerra Fria. O cenário atual é de complexidade histórica rara: múltiplos polos de poder coexistem, instituições tradicionais perdem capacidade de coordenação e novas formas de cooperação surgem, ainda frágeis e desiguais.
A ordem mundial está sendo redesenhada não por um único ator, mas por um conjunto de forças que se sobrepõem: ascensão chinesa, resiliência norte-americana, protagonismo do Sul Global, disputas tecnológicas e tensões regionais. O resultado provável é um sistema internacional mais multipolar, mais competitivo e menos previsível.
Em meio a essa transição, países que souberem combinar autonomia estratégica, inovação tecnológica e capacidade diplomática terão maior margem para navegar um cenário global em constante mutação. A redefinição da ordem mundial está em curso, e seu desfecho dependerá das escolhas e dos equilíbrios que se construirão nas próximas décadas.
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(*) Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) . Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estácio de Sá. Pós-Graduado em Operações Militares de Defesa Antiaérea e de Defesa do Litoral pela Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe) . Mestre em Ciências Militares com Ênfase em Gestão Operacional Atualmente é aluno da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/rodrigo-frech-281a7a200/
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O artigo do Major Rodrigo Frech é uma análise densa, atual e de grande importância ao mostrar que a ordem internacional não colapsa, mas se reconfigura em bases multipolares, tecnológicas e normativas mais disputadas. Uma reflexão que nos convida a enxergar o essencial para compreender riscos, oportunidades e a necessidade de autonomia estratégica em um sistema global cada vez mais competitivo e imprevisível.