Alessandro Sberni*
A estratégia costuma ser associada aos campos de batalha, às grandes guerras e aos generais que comandam grandes contingentes militares em operações de combate. No entanto toda ação estratégica se inicia com o chamado impulso estratégico, ou seja a determinação e a vontade política de se agir para modificar uma realidade atual.

Dito isso, pode-se afirmar que a estratégia encontra-se presente em praticamente todas as áreas da vida política e das relações internacionais. Estados, empresas e organizações internacionais precisam definir objetivos, avaliar recursos disponíveis e escolher os melhores caminhos para alcançar seus interesses.
No século XX, um grande pensador sobre o tema cunhou uma “fórmula” relacionando a estratégia e o impulso estratégico. Seu nome : André Beaufre, general do Exército Francês. Suas ideias ajudaram a compreender como os Estados podem utilizar diferentes instrumentos de poder para atingir seus objetivos sem depender exclusivamente da força militar.
Beaufre e o impulso estratégico
André Beaufre (1902–1975) foi um general francês que participou das duas Guerras Mundiais e acompanhou de perto as profundas transformações ocorridas durante a Guerra Fria.
Ao contrário de muitos estrategistas que concentravam suas análises apenas no emprego da força militar, Beaufre entendia que a estratégia deveria integrar diferentes dimensões do poder nacional: diplomática, econômica, psicológica, tecnológica e militar.
Sua principal obra, Introdução à Estratégia, tornou-se um clássico justamente por ampliar o conceito tradicional de estratégia e aproximá-lo da política internacional.
Para Beaufre, nenhuma estratégia nasce por acaso. Toda ação estratégica começa com aquilo que ele chamou de impulso estratégico. Esse impulso surge quando um governo/organização identifica uma oportunidade, percebe uma ameaça ou entende que determinados interesses precisam ser defendidos. Em outras palavras, o impulso estratégico responde à pergunta: “O que queremos mudar?”
Esse impulso pode ter diversas origens:
- proteger fronteiras;
- conquistar novos mercados;
- garantir acesso a recursos naturais;
- aumentar influência política;
- reduzir vulnerabilidades;
- fortalecer alianças.
Sem essa motivação inicial, não existe estratégia. Há apenas administração da rotina.
Entretanto, o impulso estratégico não produz resultados de per si. Um governo que desejar ampliar sua influência necessita transformar esse desejo em ações concretas, avaliando e alocando fatores como: recursos financeiros, capacidade militar, aliaças, opinião pública, capacidade diplomática, enfim, precisa levar em conta todos os Campos do Poder Nacional. Em resumo : A estratégia consiste justamente em organizar esses elementos para produzir os efeitos desejados.
A fórmula do impulso estratégico de Beaufre
Buscando sintetizar o seu pensamento em relação à estratégia, Beaufre cunhou uma fórmula, que ficou conhecida como Fórmula de Beaufre, que tornou-se bastante conhecida entre os estudiosos do tema:
E = K x F x Y x T, onde :
E : (Impulso Estratégico): Representa a capacidade total de um Estado impor a sua vontade ou atingir os seus objetivos políticos.
K : Liberdade de Ação). É o fator principal. Mede a margem de manobra que um país possui, considerando restrições internas (opinião pública, economia) e externas (pressão diplomática internacional)
F: (Força Material): Refere-se aos recursos tangíveis e palpáveis, como poderio militar, armamento, tecnologia disponível, capacidade industrial e recursos econômicos do Estado.
Y: (Força Moral): Mede a vontade política, a motivação e a resiliência da liderança e da população para sustentar os esforços de um conflito ou manobra.
T: (Tempo Disponível): O tempo considerado necessário para alcançar a decisão estratégica antes que o adversário consiga reagir ou antes que o esforço se torne insustentável.
Interessante notar que na Fórmula de Beaufre, todos os componentes são “multiplicados” entre si e o impulso estratétigo é diretamente proporcional a todos eles. Em consequência, o impulso estratégico será tão maior quanto forem maiores as “parcelas” que o compõem. Também é relevante notar que caso algum dos componentes seja nulo, o resultado do impulso estratégico também será nulo ou inexistente (multiplicaçao por zero).
Liberdade de ação e geopolítica
Talvez uma das maiores contribuições de Beaufre tenha sido destacar a importância da liberdade de ação, ou seja, a capacidade que um Estado possui em atuar no tabuleiro geopolítico para atingir seus objetivos . No cenário internacional, os Estados competem constantemente para ampliar sua margem de decisão enquanto procuram limitar a capacidade de seus rivais. É possível observar esse fenômeno em diversas situações atuais:
- disputas por cadeias globais de suprimentos;
- competição tecnológica entre grandes potências;
- controle de minerais críticos;
- segurança energética;
- proteção de cabos submarinos;
- corrida pela inteligência artificial.
Em todos esses casos, o objetivo não é apenas acumular recursos, mas aumentar a capacidade de decidir de forma independente e sofrendo o menor grau de pressão externa
A atualidade do pensamento de Beaufre
Mesmo depois de muitas décadas, as ideias de Beaufre continuam relevantes. A competição entre Estados deixou de ocorrer exclusivamente nos campos de batalha.
Hoje, disputas comerciais, campanhas de desinformação, sanções econômicas, espionagem tecnológica e guerras cibernéticas fazem parte do ambiente estratégico. Nesse contexto, o impulso estratégico continua sendo o ponto de partida das grandes decisões nacionais. É ele que transforma interesses políticos em políticas públicas, investimentos militares, acordos diplomáticos e iniciativas econômicas.
A avaliação e a quantificação do impulso estratégico por intermédio da Fórmula de Beaufre continua sendo um importante instrumento para os Estados Nacionais nortearem as suas decisões e eleger o melhor caminho a ser percorrido na consecução de seus objetivos.
Conclusão
O pensamento de André Beaufre demonstra que estratégia não significa apenas vencer guerras, mas utilizar de forma inteligente todos os instrumentos do poder nacional para se alcançar os objetivos colimados.
O conceito de impulso estratégico mostra que toda ação estratégica nasce de uma vontade de modificar a realidade. Já sua fórmula estratégica evidencia que o sucesso depende do equilíbrio entre objetivos claros, liberdade de ação e meios compatíveis com as ambições do Estado.
Em um mundo marcado pela competição entre grandes potências, pela disputa por tecnologias críticas e pela crescente importância da geopolítica econômica, compreender essas ideias ajuda a interpretar decisões que, muitas vezes, vão muito além do campo militar. Afinal, antes de mover tropas, governos movimentam interesses, recursos e estratégias.
E você? Que tal aplicar a fórmula de Beaufre para avaliar a ação de um Estado Nacional na atualidade ? Deixe suas conclusões nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe !

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
