Alessandro Sberni*
Uma milícia que surgiu nas montanhas do norte do Iêmen transformou-se em um ator capaz de interferir diretamente em uma das principais rotas comerciais do planeta. O avanço dos Houthis sobre a costa do Mar Vermelho e o Estreito de Bab el-Mandeb, em setembro de 2026, representa muito mais do que uma nova etapa da longa guerra civil iemenita1.

Ao conquistar a localidade de Mocha, o principal porto do Iêmen, e avançar sobre a ilha estratégica de Perim , os Houthis ampliaram significativamente sua capacidade de ameaçar a navegação entre o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Canal de Suez.
O problema se amplia exponencialmente porque ocorre enquanto o Estreito de Ormuz, no outro extremo da Península Arábica, também sofre os efeitos da guerra envolvendo Irã e Estados Unidos. Assim, os , dois principais choke points2 do comércio energético mundial encontram-se simultaneamente sob forte pressão.
A importância do estreito de Bab el-Mandeb
Em árabe, a expresssão Bab el-Mandeb significa “Portão das Lágrimas”. O nome parece particularmente apropriado diante de sua importância estratégica. O estreito separa o Iêmen, na Península Arábica, de Djibuti e Eritreia, no Chifre da África. Em seu ponto mais estreito, possui aproximadamente 30 quilômetros de largura. A geografia determina a sua importância.
Qualquer navio viajando da Ásia em direção ao Canal de Suez necessita atravessar Bab el-Mandeb para entrar no Mar Vermelho. O mesmo acontece no sentido contrário com grande parte das embarcações que saem do Mediterrâneo em direção ao Oceano Índico.
Dessa forman nvaios petroleiros contêineres com produtos diversos e matérias-primas passam diariamente pela região, movimentando o comércio global. Quando essa rota se torna insegura, existe uma alternativa: contornar toda a África pelo Cabo da Boa Esperança, o que significa viagens mais longas, maior consumo de combustível, aumento dos custos de frete e seguros e atrasos nas cadeias de abastecimento.
Eis motivo pelo qual um conflito local no Iêmen pode afetar consumidores e empresas a milhares de quilômetros de distância.
A ascensão dos Houthis
O movimento dos Houthis surgiu no norte do Iêmen no final da década de 1990, associado à comunidade zaidita, um ramo do islamismo xiita historicamente importante no país. Durante anos, o grupo combateu o governo central, sem no entanto obter resultados decisivos.
A grande mudança ocorreu após a Primavera Árabe e o colapso progressivo do Estado iemenita. Aproveitando a instabilidade política, os Houthis expandiram seu território e, em 2014, conquistaram a capital, Sanaa. A partir daquele momento, deixaram definitivamente de ser apenas uma insurgência regional.
A Arábia Saudita reagiu em 2015 liderando uma coalizão militar para tentar restaurar o governo internacionalmente reconhecido. O resultado foi uma guerra prolongada que devastou o Iêmen, mas não conseguiu eliminar o movimento. Ao contrário: a intervenção saudita o fortaleceu.
Durante os anos seguintes, apoiados pelo Irã (que nega tal apoio), cujo principal interesse é contrapor-se aos interesses da Árabia Saudita, os Houthis desenvolveram capacidades militares cada vez mais sofisticadas, incluindo drones, mísseis balísticos, mísseis antinavio e sistemas de armas capazes de atingir alvos a grandes distâncias.
O avanço territorial fortalece a posição política dos Houthis. O grupo deixou de ser apenas uma força que precisa ser considerada na política interna do Iêmen. Tornou-se um ator que Estados Unidos, Arábia Saudita e outras potências precisam levar em consideração na segurança do Mar Vermelho.
Uma demonstração disso ocorreu poucos dias depois do avanço territorial. Representantes americanos e Houthis mantiveram contatos em Omã, indicando que Washington procura simultaneamente utilizar pressão militar e canais diplomáticos para administrar a crise.
Isso representa uma mudança significativa. Durante anos, a estratégia predominante foi tentar enfraquecer ou conter militarmente o grupo. Agora, a geografia conquistada pelos Houthis aumenta seu poder de negociação.
A conquista de Mocha: um novo patamar
A ofensiva de setembro de 2026 representa uma mudança significativa no contexto da guerra civil no Iêmen. Os Houthis avançaram rapidamente pelo litoral ocidental do aís e conquistaram a cidade de Mocha, um porto localizado próximo a Bab el-Mandeb. Aproveitando o êxito, conquistaram , chegaram à estratégica ilha de Perim, localizada praticamente no interior do estreito. Em seguida, estabeleceram uma “cabeça de praia” ampliando sua presença ao longo da costa e das ilhas próximas.
Apesar disso, essas conquistas não significam que os Houthis possam simplesmente fechar Bab el-Mandeb sempre que desejarem. Mas sinaliza um fato de suma importância: agora possuem melhores posições para observar, ameaçar e eventualmente atacar embarcações que atravessem a região. Para companhias de navegação, seguradoras e governos, a percepção de risco pode ser quase tão importante quanto o controle físico da passagem.
Irã: o fator que transforma a crise em problema global
No já complexo contexto da crise no Iêmen existe uma dimensão geopolítica muito maior: os Houthis mantêm estreita relação com o Irã. Teerã possui sua própria capacidade de pressionar ( e o vem fazendo nos últimos meses) o Estreito de Ormuz, por onde historicamente transita parcela significativa das exportações energéticas do Golfo Pérsico. O estreito de Bab el-Mandeb está localizado no outro extremo da Península Arábica. Do lado oposto está Ormuz. Entre ambos estão alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo. Isso cria um cenário estratégico extremamente delicado.
Caso a navegação seja simultaneamente comprometida nos dois estreitos, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros produtores do Golfo podem enfrentar dificuldades muito maiores para transportar petróleo aos mercados internacionais.
A crise do Iêmen, portanto, passa a fazer parte diretamente da guerra regional envolvendo o Irã.
O dilema saudita
Para a Arábia Saudita, o avanço Houthi é particularmente preocupante. Opaís investiu durante anos na construção de uma alternativa ao Estreito de Ormuz. O país possui o oleoduto East-West, capaz de transportar petróleo das áreas produtoras próximas ao Golfo Pérsico até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
A lógica dos sauditas é simples: se Ormuz estiver ameaçado, o petróleo pode seguir por terra até o litoral ocidental por intermédio do oleoduto. Todavia, para alcançar mercados asiáticos a partir do Mar Vermelho, os navios precisam atravessar o estreito de Bab el-Mandeb.
Em resumo: o avanço Houthi reduz parcialmente o valor estratégico da principal alternativa saudita a Ormuz. Assim, é “natural” que a Arábia Saudita tenha retomado ataques contra posições Houthis e reforçado o apoio às forças iemenitas que combatem o grupo.
O Egito e a questão de Suez
O Egito é outro ator que acompanha a situação do Iêmen com muita atenção. O Canal de Suez é uma das principais fontes de divisas da economia egípcia. O estreito de Bab el-Mandeb funciona como a porta de entrada meridional do sistema marítimo que conduz ao canal. Caso os navios mercantes evitem a rota do Mar Vermelho passando por Bab el-Mandeb, também deixarão de utilizar o Canal de Suez.
Fatos dessa natureza já ocorreram anteriormente. Os ataques Houthis contra embarcações iniciados no final de 2023 levaram diversas companhias internacionais a redirecionar seus navios pelo Cabo da Boa Esperança, trazendo impactos negaativos significativos para o Egito.
Agora, a diferença é que os Houthis não possuem apenas mísseis e drones capazes de ameaçar a navegação. Eles controlam posições geográficas muito mais próximas da rota marítima.
Bab el-Mandeb: peça central na geopolítica mundial
O avanço Houthi revela uma realidade desconfortável: controlar grandes territórios não é necessariamente o elemento mais importante da geopolítica. Controlar os pontos de estrangulamento (choke points) é muito mais valioso. Bab el-Mandeb é um exemplo dessa fato.
Sua localização conecta o Oceano Índico ao Mar Vermelho, ao Canal de Suez e ao Mediterrâneo. Por ali passa parte importante do comércio entre Europa e Ásia. Com os Houthis estabelecidos na costa iemenita e em ilhas estratégicas, o equilíbrio de poder no Mar Vermelho mudou.
Arábia Saudita, Egito, Israel, Estados Unidos e países europeus precisarão recalcular suas estratégias para a região. Enquanto Ormuz estiver sob pressão iraniana e Bab el-Mandeb estiver vulnerável aos Houthis, a segurança energética mundial permanecerá exposta a dois gargalos localizados nas extremidades da mesma península.
Essa é a verdadeira dimensão geopolítica do avanço Houthi. Uma guerra civil iniciada em um dos países mais pobres do Oriente Médio produziu uma força militar capaz de exercer influência sobre algumas das rotas comerciais mais importantes do planeta.
E isso transforma Bab el-Mandeb em um dos lugares que o mundo precisará acompanhar com atenção nos próximos meses. A conferir.
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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre a Guerra Civil no Iêmem: https://www.geopoliticando.com.br/2025/06/11/iemen-guerra/
2 Conheça mais sobre os Choke Points: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/31/choke-points/
