Rafael Cunha de Almeida*
O Dia Internacional dos Peacekeepers da Organização das Nações Unidas (ONU), celebrado anualmente em 29 de maio, homenageia os mais de 2 milhões de homens e mulheres – militares, policiais e civis – que desde 1948 servem em missões de paz da ONU, bem como os mais de 4.400 mortos em serviço.
Hoje, mais de 68.000 “capacetes azuis” estão em 11 missões de paz, enfrentando desafios cada vez mais complexos. Sob o tema “Investir na Paz”, o Dia Internacional da Paz deste ano reforça as contribuições durante quase 80 anos ao redor do mundo em tarefas como proteção de civis, monitoramento de cessar-fogo, apoio humanitário, mediação política e fortalecimento institucional. Uma análise séria da atuação da ONU deve observar seus limites políticos e institucionais, muitas vezes ignorados desconsiderar a dependência da organização em relação aos Estados-membros.

Esperar da ONU responsabilidades incompatíveis com sua estrutura obscurece tanto os obstáculos enfrentados quanto os resultados efetivamente alcançados, particularmente nas missões de paz. A ONU foi fortemente criticada por não impedir tragédias como o genocídio em Ruanda (1994) e o massacre de Srebrenica na Bósnia e Herzegovina (1995); além de dificuldades em responder a crises recentes na Síria, Sudão e Gaza, onde, poucos notam, apesar de não haverem missões de paz, várias agências especializadas e equipes humanitárias ainda assim estão.
A atuação do componente militar não é a única. Ela acontece de maneira simultânea com diversas agências internacionais, organizações governamentais e não-governamentais, onde o trabalho de peacekeepers promove a integração entre militares e civis em prol de resultados.
Em países assolados por conflitos e por crises humanitárias, as atividades em campo abrangem a cooperação para a solução de problemas econômicos, sociais, culturais e de caráter humanitário, além da promoção do respeito pelos direitos humanos. As missões de paz da ONU ajudaram a reduzir conflitos e estabilizar países após guerras civis ou disputas internacionais, mas que costumam ficar esquecidas.
Na Namíbia teve papel central na transição para a independência e em eleições no fim dos anos 1980, no Camboja ajudou a organizar eleições e reconstrução institucional após décadas de guerra, na Libéria e Serra Leoa contribuíram para encerrar guerras civis extremamente violentas, no Timor-Leste a ONU administrou temporariamente o território e apoiou a criação do novo Estado.
Em Moçambique, Angola, Croácia e outros locais diversas vezes ajudou a conter escaladas de violência e o alastrar de conflitos. No Sudão do Sul, em 2013-2014, a UNMISS evitou que um novo genocídio como o de Ruanda ocorresse. Todos estes episódios tem também suas falhas, deficiências e revezes, mas que costumam ser maximizadas sem contrapartidas dos resultados obtidos e das oportunidades de melhoria trazidas aos processos.
O Brasil já enviou cerca de 55 mil homens e mulheres, militares e policiais, e um número não contabilizado de civis, para missões de paz da ONU ao longo de mais de sete décadas de participação dentre outras em Suez, Kosovo, Chipre, Libano, Síria, Sudão, Sudão do Sul, Abyei, República Democrática do Congo, República Centro Africana, Saara Oriental, Moçambique, Angola, Timor Leste, Haiti e Líbano.
O caso mais conhecido é da Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (MINUSTAH), entre 2004 e 2017, quando o comando militar da missão, que possuía tropas brasileiras, ficou várias vezes com generais brasileiros e que teve importância humanitária crucial após o terremoto de 2010, onde mais de 200 mil pessoas morreram, incluindo 102 funcionários da ONU e 20 brasileiros, sendo 18 militares.
A Marinha do Brasil, entre 2010 e 2021, teve a participação de navios, aeronaves e militares na Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FTM-UNIFIL). Em 2013, durante a missão da ONU na República Democrática do Congo (MONUSCO), forças das Nações Unidas sob o comando do General Carlos Alberto dos Santos Cruz desempenharam papel decisivo na contenção de grupos rebeldes que ameaçavam a cidade de Goma, em uma das mais relevantes ações de proteção de civis da história, evitando massacres e uma escalada regional do conflito.
Estas experiências, junto com as ações realizadas pela UNMISS durante a guerra civil sul-sudanesa, trouxeram mudanças e aperfeiçoamentos para atuação pouco notadas, que aparecem em parte no chamado “Relatório Cruz”, um dos mais eficientes documentos produzidos pela ONU e que teve bastante influência nos debates internos sobre operações de paz e nas mudanças de estruturas e arranjos de políticas públicas internacionais.
A definição das capacidades e atuação em proteção de civis, centros de prevenção de crises, sistemas de inteligência em missões de paz, análise e prevenção de riscos, reformulação do material didático e padronização internacional pelos centros de treinamento da ONU nos diversos países, certificação de tropas, capacitação, treinamento e implementação de medidas de prevenção da exploração, do abuso e do assédio sexual e estudos de cenários baseados em eventos reais foram implementados na última década, ampliando a capacidade de melhor atuar e contribuindo para evitar que as falhas que ocorreram no passado se repitam.
Se o desempenho do Conselho de Segurança em crises políticas especificas é limitado, este ainda se mantém como espaço internacional de negociação multilateral, canal de comunicação entre Estados, inclusive opositores. Porém, no nível estratégico, operacional e tático, os aperfeiçoamentos nas Operações de Paz foram significativos.
No Brasil, o Centro de Operações de Paz e Humanitárias de Caráter Naval (COpPazNav) e o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB),que leva o nome de Sérgio Vieira de Mello, destacado brasileiro que atuou de missões de campo ao alto escalão da ONU) fazem o treinamento dos peacekeepers.
No meio acadêmico, A REBRAPAZ, Rede Brasileira sobre Operações de Paz, uma iniciativa acadêmica e profissional criada em 2016 para reunir pesquisadores, militares, policiais, diplomatas e especialistas ligados às operações de paz da ONU, produz pesquisa e análise de qualidade e com metodologia científica sobre o tema, assim como várias universidades e centros de pesquisa do país (e no mundo) encaram de forma séria o assunto, trazendo não só críticas, mas contribuições.
Em maio ocorreu um ciclo de estudos estratégicos na Escola de Comando e Estado Maior do Exército1 (ECEME), onde existe um programa de pôs graduação com Mestrado e Doutorado para civis e militares que contempla também missões de paz, em que estiveram presentes especialistas civis e militares de alto nível trazendo as perspectivas das lições aprendidas, situação atual e cenários futuros.
Um deles é o direcionamento, face aos cortes de recursos da ONU que acabaram de certa forma refletindo em um pragmatismo resiliente na condução das missões de paz que colateralmente refletiu nas melhoras já apresentadas em termos de eficácia interna, estruturas e arranjos. Outra, um aspecto que ainda não foi atendido totalmente que é de as tropas de paz terem as capacidades militares adequadas para cada ambiente operacional.
Neste aspecto, o Brasil tem contribuído desde 2019 com uma equipe composta por militares das Forças Armadas na República Democrática do Congo, a Equipe Móvel de Treinamento em Operações na Selva (conhecida internacionalmente como JWMTT), treinando contingentes de forças de paz da ONU e tropas locais em ambiente de selva. Mas ainda existem muitas oportunidades.
As Forças Armadas Brasileiras têm diversas capacidades especificas que são muito úteis e eficientes em missões de paz, para além das operações na selva. Tropas de caatinga, pantanal, patrulhamento fluvial e operações ribeirinhas, tropas de cavalaria mecanizadas para escolta de comboios humanitários e patrulhamento de estradas, experiência de aviação em áreas tropicais, fora a particular experiência de navio hospital na Amazônia atendendo populações em doenças tropicais.
Imaginem uma Missão de Paz com estas capacidades atuando no Nilo e seu entorno, no Sudão do Sul, onde se encontram ambientes operacionais como savanas, pântanos e o próprio rio, que guardam semelhanças com o que temos aqui- e nos quais temos capacitação de material e pessoal ímpar em várias áreas, técnicas, táticas, procedimentos e equipamentos.
Tendo atuado lá, posso afirmar que seria um diferencial significativo tanto para o alcance de resultados esperados de peacekeepers como os que foram citados aqui quanto para a projeção diplomática, da indústria de defesa nacional quanto das capacidades militares brasileiras. E isso pode ser aplicado não só no Sudão do Sul, um dos ambientes mais complexos de atuação de missões de paz, mas em vários outros, elevando a expressão brasileira a um patamar internacional e aproveitando também a continua capacitação e expertise adquiridas por militares que participaram e civis que estudam o tema em tarefas individuais existentes nas missões.
O ciclo do fluxo de cortes de apoio financeiro à ONU, estimo, não deve se manter quando o ciclo de guerras e conflitos em andamento tenderem a diminuir, bem como após mudanças de governo mundo afora. A presença de uma terceira parte, uma Organização Internacional que consiga retomar um papel na mediação, condução de acordos de paz, monitoramento e estabilização vai voltar a ser necessária. E com a demanda, devem retornar os recursos.
Por mais bem intencionados que países isolados possam tentar demonstrar em negociações de paz, a presença de uma organização multidiversa tende a ser melhor capacitada e ter melhores resultados, o que é historicamente comprovado. Cenários futuros de negociações de paz, manutenção de acordos e monitoramento virão, onde uma terceira parte que consiga diluir interesses particulares seja necessária. Em uma geopolítica da Paz, o papel estratégico – fora as demandas operacionais e táticas- das Missões da ONU muito provavelmente vai ser necessário e requerer ampliação.
Para o Brasil, seria um ótimo momento e oportunidade imediata de investir em ampliação de alocação de recursos para a Organização, dentro das realidades nacionais, face a retração dos principais contribuidores, demonstrando atenção diplomática ao cenário atual e previsão estratégica para demandas futuras, abrindo caminhos para ampliar a negociação de cargos e missões existentes e vindouras. Afinal, em um mundo em guerra, quem ainda investe na Paz?
Registrar a História do que foi feito é urgente, preparar para as futuras demandas também, ampliar a participação de civis e militares, homens e mulheres para o cenário pós o fluxo de guerras que o mundo está vivendo, bem como estarmos aptos a apresentar as capacidades que temos e como podem ser empregadas em missões de paz é estratégico para reforçar a presença brasileira no cenário internacional vindouro e para contribuir para o preparo das Forças Armadas brasileiras, com reflexos em aprimoramentos para a área de Defesa e Segurança.
Sair do senso comum, entender os níveis e áreas de atuação nesses processos, planejar e investir nessas capacidades é investir na Paz, justamente o tema proposto para a reflexão no dia 29 de maio de 2026.
E você? O que pensa sobre o tema? Deixe sua opinião no comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Participe! Critique! Opine!

(*) Doutor em Políticas Públicas e historiador. Coronel Veterano do Exército Brasileiro, possui Mestrado em Estudos de Defesa e Estratégia pela National Defense University, Beijing, China; e em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Atuou na Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) durante a eclosão da guerra civil sul-sudanesa em 2013-14. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-almeida-ph-d-052a1743/
1 Conheça a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME): https://www.eceme.eb.mil.br/
