Anatomia do colapso: a crise política e institucional na Bolívia

Alessandro Sberni*

A Bolívia enfrenta um dos momentos mais dramáticos e complexos de sua história republicana recente. Após quase duas décadas de hegemonia política do Movimento ao Socialismo (MAS), o país andino vive uma transição abrupta e violenta, marcada pela ascensão da centro-direita ao poder e por uma paralisia social que ameaça a própria estabilidade democrática. O atual governo, liderado pelo presidente Rodrigo Paz — eleito no segundo turno do pleito de 2025 —, encontra-se sob intenso cerco popular com apenas seis meses de mandato. A capital, La Paz, está virtualmente sitiada por bloqueios de estradas, enquanto estrondos de dinamite e confrontos entre forças de segurança e movimentos sociais tomam as ruas.

Bolívia

Para compreender a extensão da crise boliviana, é necessário destrinchar suas causas profundas,que misturam a falência de um modelo econômico, disputas fratricidas na esquerda e o choque cultural da mudança de regime, além de mapear seus reflexos e consequências imediatas para o futuro do país e da América Latina.

AS CAUSAS ESTRUTURAIS DA CRISE ATUAL

A atual tensão política-institucional por que vem passado a Bolívia não é um produto atual. Trata-se do resultado do esgotamento simultâneo de duas dinâmicas que sustentaram o país no século XXI: o “milagre econômico” baseado no gás natural e o pacto social plurinacional.

O fim dos subsídios e o colapso do modelo econômico

Durante os longos anos dos governos do MAS, a Bolívia ostentou altas taxas de crescimento ancoradas na nacionalização e exportação de hidrocarbonetos. No entanto, a falta de investimentos em exploração esgotou as reservas de gás, transformando o país de exportador em importador de combustíveis. O Estado passou a queimar suas reservas internacionais de dólares para manter congelados internamente os preços da gasolina e do diesel.

Ao assumir o Palácio Quemado, em novembro de 2025, o presidente Rodrigo Paz deparou-se com um cenário de cofres vazios, escassez severa de divisas e desabastecimento. Diante desses fatos, o novo goverbo editou o Decreto 5.503, que retirou os subsídios aos combustíveis. O impacto foi imediato e brutal: a inflação disparou, o custo de vida saltou e as classes populares viram seu poder de compra desaparecer, detonando a revolta de transportadores, mineiros e camponeses.

O legado de instabilidade: a implosão interna do MAS

O caminho para a derrota da esquerda nas últimas eleições foi criado por por uma guerra política fratricida entre o ex-presidente Evo Morales e o seu sucessor imediato, Luis Arce. A disputa feroz pelo controle do partido e pela candidatura presidencial fragmentou a base social do MAS, paralisou o Poder Legislativo e destruiu a governabilidade no final do mandato anterior. O bloqueio parlamentar promovido por alas evistas impediu reformas econômicas cruciais que poderiam ter suavizado a crise atual.

A Marginalização social e o choque de legitimidade

A vitória eleitoral de Rodrigo Paz representou o fim do ciclo “nacional-popular” e o retorno de políticas de corte liberal. No entanto, a transição gerou um profundo sentimento de “indignação moral” e exclusão entre as organizações indígenas e camponesas (como os Ponchos Rojos e a Federação Túpac Katari), além da histórica Central Obreira Boliviana (COB). Esses setores sentem que o Estado Plurinacional, forjado nos governos do MAS para dar protagonismo à maioria indígena, está sendo desmontado em prol das velhas elites agrárias e urbanas, reacendendo tensões étnicas e de classe sempre latentes na sociedade boliviana.

O CERCO A RODRIGO PAZ

Diante desse contexto, o governo de Rodrigo Paz enfrenta uma crise de sobrevivência precoce. Os protestos originais, que exigiam reajustes salariais e a revogação de leis de terras e decretos econômicos, unificaram-se de forma orgânica em uma única e radical palavra de ordem: a renúncia do presidente recentemente eleito.

A liderança das manifestações é difusa, mas carrega em seu DNA a sombra de Evo Morales. O ex-presidente, entrincheirado politicamente em seu bastião sindical no Trópico de Cochabamba, atua como o grande catalisador da resistência nas sombras. O governo acusa abertamente Morales de financiar e coordenar os bloqueios para provocar uma ruptura constitucional, utilizando os protestos como blindagem contra os processos judiciais que enfrenta por suposto estupro e tráfico de pessoas. Morales, por sua vez, denuncia um complô entre o exército boliviano e a DEA americana para capturá-lo, insuflando ainda mais o fervor de seus apoiadores.

A tática dos manifestantes é o tradicional sufocamento de La Paz por meio do bloqueio das artérias rodoviárias do Altiplano. Sem abastecimento de alimentos e insumos básicos, com o tráfego paralisado por barricadas e o centro político acuado por marchas mineiras armadas com cartuchos de dinamite, o governo central balança entre a necessidade de impor a ordem e o risco iminente de que o uso da força resulte em tragédia.

CONSEQUÊNCIAS E REFLEXOS PARA A BOLÍVIA

Os eventuais desdobramentos dessa crise político-institucional da Bolívia podem a vir a “reconfigurar” o mapa político e social do país em diversos eixos, a saber:

1) Risco de ruptura institucional e vácuo de poder: Com apenas seis meses de gestão, o pedido de renúncia de Rodrigo Paz coloca a Bolívia na antessala de uma nova crise sucessória, similar às de 2003 e 2019. Se o presidente ceder à pressão das ruas, o país entrará em um espiral de ingovernabilidade crônica, onde nenhum governante, de direita ou de esquerda, terá legitimidade suficiente para implementar as dolorosas reformas estruturais necessárias.

2) Aumento da violência e da polarização: Após décadas de polarização, em grande parte incentivada por Evo Morales, o tecido social boliviano está fraturado. A recusa do presidente atual em dialogar com o que chama de “vândalos” e a contrapartida dos sindicatos de que “o governo deve ir embora se não quiser que corra sangue” empurram o país para cenários de violência descontrolada. Há um perigo real de confrontos armados entre civis, milícias sindicais e forças de segurança.

3) Agravamento da crise econômica: Os bloqueios prolongados podem prejudicar fortemente o aparato produtivo que resta. Sem combustíveis, o agronegócio e a mineração paralisam. A inflação tende a assumir contornos hiperinflacionários, destruindo a moeda local e empurrando parcelas significativas da população de volta à pobreza extrema, revertendo os ganhos sociais das últimas duas décadas.

IMPACTOS GEOPOLÍTICOS REGIONAIS

A atual crise boliviana vai muito além de suas fronteiras e atua como o novo epicentro do choque ideológico na América do Sul. Os demais países da região observam o desenrolar dos fatos com preocupação, divididos em alinhamentos geopolíticos claros:

O governo de Rodrigo Paz buscou sustentação externa em vizinhos de direita. Buenos Aires e La Paz estreitaram laços sob uma ótica de cooperação mútua. O presidente argentino Javier Milei enviou missões de apoio logístico e humanitário à Bolívia, o que gerou denúncias (não comprovadas) por parte de Evo Morales de que aeronaves militares estariam transportando material de repressão. Ademais, o presidente da Bolívia chegou a acenar ao modelo de segurança de Nayib Bukele, de El Salvador, em busca de fórmulas para conter a violência interna.

Em contrapartida, governos de esquerda da região veem a situação com bastante cautela. O presidente colombiano Gustavo Petro alertou publicamente que a Bolívia caminha para extremismos perigosos e que a falta de um grande diálogo nacional pode resultar em uma “masacre sobre a população”. A oferta de mediação da Colômbia foi rechaçada asperamente por La Paz, resultando na expulsão de diplomatas e congelamento de relações sob o princípio da reciprocidade.

Por fim, há o fator estratégico dos recursos naturais. A Bolívia possui uma das maiores reservas mundiais de lítio1, o “ouro branco” essencial para a transição energética global. A instabilidade crônica afasta os consórcios internacionais e paralisa os projetos de industrialização do mineral, afetando as cadeias de suprimento globais e atrasando o desenvolvimento de uma fonte de receita que poderia ser a salvação econômica do país no médio e no longo prazo.

REFLEXOS PARA O BRASIL

Os reflexos para o Brasil também merecem atenção. A Bolívia é um importante fornecedor de gás natural para o mercado brasileiro, especialmente para regiões industriais do Centro-Oeste e Sudeste. Uma deterioração prolongada da situação interna pode afetar contratos energéticos e gerar impactos sobre preços e abastecimento.

Além disso, a instabilidade pode aumentar fluxos migratórios nas áreas de fronteira, especialmente nos estados do Acre, Rondônia e Mato Grosso. Historicamente, crises políticas e econômicas na Bolívia produziram deslocamentos populacionais em direção ao território brasileiro. Há também preocupações relacionadas à segurança nas fronteiras, considerando a possibilidade de fortalecimento de redes ilegais ligadas ao narcotráfico e ao contrabando em contextos de enfraquecimento institucional.

CONCLUSÃO

A atual situação política por que passa a Bolívia não é trivial O colapso do modelo econômico do MAS revelou que a estabilidade anterior estava construída sobre bases fiscais insustentáveis. Contudo, a receita liberal aplicada pelo novo governo de Rodrigo Paz chocou-se frontalmente com a cultura de mobilização permanente e com a identidade política das maiorias indígenas, que se recusam a perder o protagonismo conquistado nas últimas décadas.

Sem predisposição para o diálogo entre as partes, sem lideranças capazes de unificar o país e sob a constante instrumentalização do caos por figuras que buscam a impunidade política, a Bolívia arrisca a assistir o desmoranamento de suas instituições e de sua economia. O desfecho desta crise definirá se o país andino conseguirá repactuar seu modelo econômico dentro da institucionalidade ou se mergulhará, mais uma vez, em um ciclo histórico de revoltas, deposições e violência fratricida, com graves consequências internas e para a Amperica do Sul. A conferir.

Crise política

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre o Triângulo do Lítio: https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/04/triangulo-do-litio/

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