Alessandro Sberni*
Introdução
Ao longo da história, as tecnologias emergentes em cada momento sempre provocaram profundas mudanças na sociedade e consequentemente na geopolítica. A invenção da pólvora alterou a forma de fazer guerras e contribuiu para o fortalecimento dos Estados nacionais. As grandes navegações deslocaram o centro do poder mundial para as potências marítimas europeias. Séculos depois, a Revolução Industrial consolidou a hegemonia britânica, enquanto o domínio da energia nuclear definiu o equilíbrio estratégico durante a Guerra Fria.

No século XXI, uma nova revolução tecnológica está em curso. Inteligência Artificial, computação quântica, biotecnologia, robótica, redes de comunicação de próxima geração, satélites, blockchain e semicondutores estão transformando não apenas a economia, mas também as relações de poder entre os Estados. A competição internacional já não se limita ao controle de territórios ou recursos naturais; ela ocorre também nos laboratórios de pesquisa, nas universidades, nas empresas de alta tecnologia e nas cadeias globais de suprimentos.
Essa realidade inaugura uma nova fase da geopolítica, na qual o domínio do Campo Científico-Tecnológico torna-se um dos principais fatores de poder nacional1.
O que são tecnologias emergentes?
O termo “tecnologias emergentes” refere-se a inovações que ainda estão em processo de expansão e consolidação, mas cujo potencial de transformação é enorme. Algumas delas não são propriamente novas, porém somente nos últimos anos alcançaram maturidade suficiente para produzir mudanças profundas na sociedade.
O aspecto mais importante dessas tecnologias é que elas possuem caráter transversal. Isso significa que seus efeitos não ficam restritos a um único setor. Uma inovação desenvolvida inicialmente para aplicações civis pode rapidamente ser utilizada na indústria, na medicina, na agricultura, na defesa ou na segurança pública. É justamente essa capacidade de gerar impactos simultâneos em diversas áreas que desperta o interesse dos Estados e governos.
Muitas dessas inovações são classificadas como tecnologias de uso dual, ou seja, possuem aplicações civis e militares. Um satélite pode fornecer internet para regiões isoladas, mas também orientar mísseis de precisão. Um algoritmo de Inteligência Artificial pode auxiliar médicos na identificação precoce de doenças, mas igualmente analisar imagens de satélite para fins de inteligência militar. Essa dualidade faz com que ciência, economia e segurança nacional estejam cada vez mais interligadas.
Da geopolítica dos recursos à geopolítica do conhecimento
Durante grande parte da história, a influência internacional de um país era determinada principalmente por quatro fatores: território, população, recursos naturais e capacidade militar. Esses elementos continuam relevantes, porém passaram a dividir espaço com um novo componente estratégico: a capacidade tecnológica.
Hoje, o poder de uma nação depende cada vez mais da sua habilidade para produzir conhecimento, registrar patentes, desenvolver pesquisas científicas e controlar cadeias produtivas altamente sofisticadas. Em vez de conquistar territórios pela força, muitos países buscam ampliar sua influência por meio do domínio tecnológico.
Essa mudança explica por que governos investem bilhões de dólares em inovação, educação superior, centros de pesquisa e formação de cientistas. A tecnologia tornou-se um instrumento de projeção de poder comparável ao que o petróleo representou durante boa parte do século XX.
Inteligência Artificial: o cérebro da nova economia
Entre todas as tecnologias emergentes, a Inteligência Artificial (IA) é provavelmente a que desperta maior atenção.
De forma simplificada, a IA consiste na capacidade de sistemas computacionais aprenderem padrões, analisarem enormes quantidades de dados e tomarem decisões ou oferecerem respostas com pouca intervenção humana. Diferentemente dos programas tradicionais, que executam comandos previamente definidos, sistemas de IA conseguem identificar relações complexas e aperfeiçoar seu desempenho continuamente.
Suas aplicações são praticamente ilimitadas. Ela pode otimizar processos industriais, diagnosticar doenças, prever desastres naturais, gerenciar redes elétricas, automatizar serviços financeiros e acelerar pesquisas científicas.
Do ponto de vista geopolítico, porém, seu maior impacto está na vantagem estratégica que proporciona aos países que liderarem seu desenvolvimento. A Inteligência Artificial pode aumentar significativamente a produtividade econômica, fortalecer capacidades militares, aprimorar sistemas de inteligência e ampliar a eficiência da administração pública.
Não por acaso que Estados Unidos e China transformaram a IA em prioridade nacional. Ambos disputam talentos, empresas, investimentos e infraestrutura computacional, numa corrida que muitos especialistas já classificam como a nova corrida espacial do século XXI.
Os semicondutores: a infraestrutura invisível da economia digital
Se a Inteligência Artificial pode ser comparada ao cérebro da economia digital, os semicondutores são seu sistema nervoso.
Conhecidos popularmente como chips, esses componentes estão presentes em praticamente todos os equipamentos eletrônicos modernos, desde celulares e automóveis até satélites, aviões e sistemas militares.
Sua fabricação é complexa e depende de cadeias globais especializadas. Pouquíssimos países dominam as etapas mais avançadas desse processo, criando uma dependência tecnológica que preocupa diversas potências.
A disputa em torno dos semicondutores ilustra como a tecnologia passou a integrar a agenda da segurança nacional. Controlar a produção de chips significa garantir autonomia industrial, superioridade militar e maior capacidade de inovação. Não por acaso, Estados Unidos, China, Japão e União Europeia destinam centenas de bilhões de dólares para fortalecer suas indústrias de semicondutores.
Computação quântica e a próxima revolução científica
Outra tecnologia que promete alterar profundamente o equilíbrio internacional é a computação quântica.
Enquanto os computadores atuais processam informações utilizando bits, que assumem apenas os valores zero ou um, os computadores quânticos empregam princípios da mecânica quântica para realizar múltiplos cálculos simultaneamente.
Embora essa tecnologia ainda esteja em desenvolvimento, seu potencial é extraordinário. Ela poderá acelerar a descoberta de novos medicamentos, otimizar sistemas logísticos, desenvolver materiais inovadores e ampliar significativamente a capacidade da Inteligência Artificial.
Entretanto, sua consequência geopolítica mais importante envolve a criptografia. Grande parte dos sistemas atuais de proteção de dados poderá tornar-se vulnerável quando computadores quânticos plenamente funcionais estiverem disponíveis. Isso explica por que governos tratam essa tecnologia como um ativo estratégico de primeira grandeza.
Biotecnologia e segurança nacional
A pandemia da COVID-19 demonstrou que a capacidade científica de um país também pode representar um elemento de poder.
A biotecnologia reúne conhecimentos da biologia, genética e engenharia para desenvolver medicamentos, vacinas, sementes agrícolas mais resistentes e novos processos industriais.
Além dos benefícios econômicos, essa área fortalece a autonomia nacional diante de crises sanitárias e reduz a dependência de fornecedores externos. Países capazes de desenvolver rapidamente vacinas ou medicamentos possuem maior capacidade de proteger suas populações e preservar suas economias.
Ao mesmo tempo, avanços como a edição genética levantam importantes debates éticos e preocupações relacionadas ao uso militar dessas tecnologias.
O espaço e a nova dimensão da competição internacional
Durante décadas, o espaço era considerado um ambiente restrito às grandes potências. Atualmente, empresas privadas e países emergentes ampliam rapidamente sua presença orbital.
Satélites desempenham funções essenciais para comunicações, navegação, agricultura, previsão do tempo, monitoramento ambiental e operações militares.
A destruição ou interrupção desses sistemas poderia afetar profundamente a economia mundial. Por essa razão, o espaço tornou-se um domínio estratégico comparável aos oceanos, ao espaço aéreo e ao ciberespaço.
Além disso, cresce o interesse internacional pela exploração da Lua, pela mineração de asteroides e pelo desenvolvimento de novas infraestruturas espaciais.
A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China
A competição entre Estados Unidos e China representa hoje o principal eixo da geopolítica tecnológica.
Enquanto Washington busca preservar sua liderança científica e industrial, Pequim investe pesadamente em inovação, pesquisa e formação de especialistas para reduzir sua dependência tecnológica.
Essa disputa não ocorre apenas por mercados consumidores, mas principalmente pelo controle das tecnologias consideradas críticas para o futuro da economia mundial.
Restrições à exportação de chips avançados, disputas em torno das redes 5G, investimentos em Inteligência Artificial e incentivos à produção doméstica de semicondutores demonstram que tecnologia e geopolítica tornaram-se praticamente inseparáveis.
O Brasil diante da nova ordem tecnológica
Embora não participe diretamente da disputa entre as grandes potências, o Brasil possui oportunidades importantes nessa nova configuração internacional.
O país reúne universidades de excelência, centros de pesquisa consolidados, capacidade agrícola reconhecida mundialmente e uma matriz energética relativamente limpa. Essas características podem favorecer o desenvolvimento de áreas como biotecnologia, agricultura de precisão, energias renováveis, inteligência artificial aplicada ao agronegócio e tecnologias voltadas à preservação ambiental.
Entretanto, aproveitar essas oportunidades exige políticas públicas consistentes de incentivo à pesquisa, fortalecimento das universidades, ampliação da infraestrutura digital e aproximação entre governo, setor produtivo e comunidade científica. Mais do que importar tecnologias, o desafio brasileiro consiste em produzir conhecimento e participar das cadeias globais de inovação.
Conclusão
As tecnologias emergentes estão redefinindo os fundamentos da geopolítica contemporânea. Se, no passado, o poder internacional dependia principalmente da posse de territórios, recursos naturais e forças militares, hoje ele está cada vez mais associado à capacidade de gerar conhecimento, desenvolver inovação e controlar tecnologias estratégicas.
Isso não significa que os fatores geopolíticos clássicos perderam relevância. Petróleo, minerais críticos, rotas marítimas e capacidade militar continuam desempenhando papel central nas relações internacionais.
A diferença é que esses elementos passam a ser potencializados pelo domínio tecnológico. Uma potência do século XXI precisa combinar recursos materiais com liderança científica, infraestrutura digital e capacidade de inovação.
Nesse contexto, a geopolítica deixa de ser apenas uma disputa por espaços físicos e transforma-se, cada vez mais, em uma competição pelo controle do conhecimento.
Os países que compreenderem essa mudança e investirem de forma consistente em ciência, educação e tecnologia estarão mais bem preparados para exercer influência em uma ordem internacional cada vez mais marcada pela inovação. A conferir.
E você? O que pensa sobre as tecnologias emergentes? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre os Campos do Poder Nacional: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/10/poder-nacional/
