Alessandro Sberni*
O Atlântico Sul ocupa posição crescente na agenda estratégica internacional do século XXI. Durante grande parte da Guerra Fria, a atenção geopolítica global esteve concentrada no Atlântico Norte, no Pacífico e na Eurásia. Entretanto, transformações econômicas, energéticas e militares ampliaram a relevância do espaço marítimo que conecta a América do Sul, a África Austral e as rotas em direção à Antártica. Nesse contexto, o Atlântico Sul tornou-se uma região de importância estratégica para o comércio internacional, a segurança energética, a exploração de recursos naturais e a projeção de poder naval.

Neste cenário, a governança e a segurança do Atlântico Sul deixaram de ser preocupações secundárias. A presença de potências extrarregionais, a militarização de pontos focais e a necessidade de salvaguarda de imensas riquezas minerais e biológicas colocaram a região no centro das atenções de formuladores de políticas de defesa. Para compreender essa complexa dinâmica, é fundamental analisar a relevância das posições insulares na região e o protagonismo histórico e atual do Brasil.
O TABULEIRO INSULAR
Muito mais que meros acidentes geográficos, as ilhas dispersas pelo Atlântico Sul se tornaram verdadeiros “porta-aviões imóveis” e marcos de projeção de poder político e militar. Quem exerce soberania sobre essas porções de terra domina, por consequência, imensas áreas marítimas circundantes, graças ao conceito de Zona Econômica Exclusiva (ZEE) estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM).
A histórica projeção britânica
O Reino Unido mantém uma presença colonial e estratégica massiva no Atlântico Sul através dos seus Territórios Ultramarinos. As ilhas Falklands (Malvinas), Geórgia do Sul e Sandwich do Sul funcionam como postos avançados de monitoramento e controle dos acessos ao Oceano Antártico e à passagem bioceânica (Cabo de Hornos). A disputa de soberania sobre as Falklands entre Buenos Aires e Londres, cujo ápice culminou com um conflito armado em 1982, continua sendo o principal ponto de fricção geopolítica clássica na região.
Mais ao norte, o arquipélago de Tristão da Cunha e a ilha de Santa Helena garantem ao Reino Unido pontos de apoio logístico cruciais no meio do Atlântico. No entanto, o ponto mais crítico da projeção militar ocidental na área é a ilha de Ascensão. Localizada estrategicamente perto do equador, Ascensão abriga uma base aérea operada conjuntamente por britânicos e norte-americanos (RAF Ascension Island), servindo como um nó essencial para comunicações satelitais, inteligência eletrônica e projeção de forças rápidas em direção à África Ocidental e ao Caribe.
As sentinelas brasileiras
Do lado ocidental, o Brasil possui possessões insulares que expandem significativamente sua jurisdição e capacidade de vigilância, a saber:
- Arquipélago de Fernando de Noronha e Ilha de Atol das Rocas: Posicionados próximos à “esquina” do continente, ampliam a ZEE brasileira em direção ao Atlântico Central.
- Arquipélago de São Pedro e São Paulo: Um conjunto de pequenos rochedos habitados permanentemente por pesquisadores da Marinha do Brasil. Sua ocupação contínua garante ao país uma grande extensão de ZEE, avançando o território jurídico brasileiro profundamente em direção à África.
- Trindade e Martim Vaz: Localizadas a cerca de 1.200 km da costa do Espírito Santo, estas ilhas servem como um posto avançado de observação meteorológica e militar, guardando o flanco leste do mar territorial brasileiro.
RECURSOS ESTRATÉGICOS E A AMAZÔNIA AZUL
Para o Brasil, o Atlântico Sul não é apenas uma rota de passagem, mas um espaço vital batizado pela Marinha do Brasil de “Amazônia Azul”. Esta área, que engloba cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados (somando a ZEE e a plataforma continental estendida pleiteada junto à ONU), abriga riquezas comparáveis às da floresta homônima.
O principal recurso econômico da Amazônia Azul é o Pré-sal. As gigantescas reservas de hidrocarbonetos localizadas sob o leito marinho transformaram o Brasil em um dos maiores produtores de petróleo do mundo. A segurança dessas plataformas de extração é uma prioridade de segurança nacional, uma vez que qualquer interrupção ou ataque a essa infraestrutura comprometeria gravemente a economia do país.
Além do petróleo e do gás, o Atlântico Sul é rico em recursos pesqueiros e esconde no seu leito mineral minérios de alto valor estratégico para a transição energética global, como nódulos polimetálicos ricos em cobalto, níquel, manganês e terras raras2 (como os encontrados na Elevação do Rio Grande). Adicionalmente, o oceano funciona como a principal artéria do comércio exterior brasileiro: mais de 95% das exportações e importações do país transitam por esse modal.
Liderança, Cooperação e Dissuasão: o papel do Brasil
A inserção geopolítica do Brasil no Atlântico Sul é pautada por uma dualidade histórica entre a busca pela estabilidade cooperativa e a necessidade de desenvolver capacidades de dissuasão militar.
A Via Diplomática: A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)
O Brasil sempre defendeu a desmilitarização do Atlântico Sul para evitar que o oceano se tornasse palco de rivalidades entre grandes potências (como ocorreu na Guerra Fria e na Guerra das Malvinas em 1982). O maior símbolo dessa estratégia diplomática foi a criação, em 1986, da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul , por iniciativa brasileira na ONU.
A ZOPACAS visa promover a cooperação regional, a não proliferação de armas nucleares e a proteção ambiental, unindo os países da América do Sul e da costa ocidental africana. O fortalecimento desse mecanismo é visto pelo Brasil como uma barreira diplomática contra a expansão excessiva de bases militares de potências extrarregionais, especialmente no atual contexto de crescente presença econômica e naval da China na África e da reativação da Quarta Frota dos Estados Unidos.
A Via da Defesa: O Prosub1 e o SisGAAz
A diplomacia, contudo, requer o respaldo de uma força crível, que propicie um adequado grau de dissuação. Ciente das vulnerabilidades da Amazônia Azul frente a ameaças como a pesca ilegal, a pirataria no Golfo da Guiné e a espionagem, o Brasil estruturou iniciativas para incrementar a segurança e a defesa na região.
A principal ação no contexto dessa estratégia é o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB). O programa prevê a construção de submarinos convencionais da classe Riachuelo (baseados na tecnologia francesa Scorpène) e, crucialmente, do primeiro Submarino de Propulsão Nuclear Brasileiro (Álvaro Alberto). O submarino nuclear é considerado um divisor de águas geopolítico: sua autonomia e velocidade permitirão patrulhar as imensidades do Atlântico Sul, funcionando como uma poderosa arma de dissuasão contra qualquer tentativa de coerção externa.
Paralelamente, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) atua como uma rede integrada de radares, satélites e sensores destinada a monitorar em tempo real as águas jurisdicionais brasileiras, garantindo a consciência situacional necessária para responder a crises ambientais ou ameaças à segurança.
DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS PARA O ATLÂNTICO SUL
O século XXI trouxe novos desafios para o Atlântico Sul. O crescimento da influência chinesa na África Ocidental, por intermédio do financiamento de portos comerciais que potencialmente podem ser convertidos em bases navais, altera o balanço de poder tradicionalmente dominado pelo Ocidente. A instabilidade política e a pirataria no Golfo da Guiné também exigem que o Brasil projete estabilidade para além de suas fronteiras marítimas, auxiliando na capacitação de marinhas de nações amigas africanas, tais como como Namíbia, Angola e Cabo Verde.
O Atlântico Sul reafirma-se como um espaço de interconexão vital. As ilhas que afloram em suas águas servem como ancoradouros de soberania e postos de observação em um mundo cada vez mais multipolar e disputado. Para o Brasil, a consolidação de sua liderança e a proteção da Amazônia Azul não são opções políticas passageiras, mas imperativos geopolíticos existenciais. O futuro da soberania e do desenvolvimento brasileiro depende diretamente de sua capacidade de manter o Atlântico Sul como um oceano seguro, próspero e, acima de tudo, sob a liderança cooperativa das nações que o cercam. A conferir.
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(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre o PROSUB: https://www.marinha.mil.br/prosub/
2 Leia mais sobre as Terras Raras: https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/06/terras-raras/

Ótimo artigo! Nossas Forças Armadas sofrem com cortes em seu Orçamento! Tornam as ações de vigilância prejudicadas e principalmente nas iniciativas de inovações tecnológicas! Ainda assim, avança para garantir a soberania territorial de nossa Pátria!