África: A expansão da influência da China

Alessandro Sberni*

A África tornou-se uma das regiões mais importantes da geopolítica do século atual. Possuindo vastas reservas de recursos naturais, crescimento populacional acelerado e localização estratégica entre os oceanos Atlântico e Índico, o continente passou a ocupar posição central na disputa global por influência entre grandes potências.

Nesse cenário, a China emergiu como o principal ator externo em expansão na África. Por meio de investimentos bilionários em infraestrutura, acordos comerciais, financiamento de projetos estratégicos e cooperação tecnológica, Pequim vem ampliando sua presença econômica e política em praticamente todas as regiões do continente.

Africa

A estratégia chinesa vai muito além da busca por matérias-primas. Trata-se de uma política de longo prazo destinada a fortalecer cadeias de produção globais, garantir segurança energética, ampliar mercados consumidores e consolidar a China como uma potência global alternativa à influência tradicional dos Estados Unidos e da Europa.

A relação entre China e África ganhou força especialmente a partir do início do século XXI, quando Pequim intensificou sua política de aproximação com os países africanos.

Em 2000, a criação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) estabeleceu uma plataforma institucional para ampliar as relações diplomáticas, econômicas e comerciais entre as partes. Desde então, os encontros periódicos entre líderes chineses e africanos passaram a definir novos projetos de investimentos e cooperação.

Atualmente, a China é um dos maiores parceiros comerciais do continente africano. Empresas chinesas atuam em setores considerados estratégicos, como mineração, energia, telecomunicações, transporte, construção civil e agricultura.

Diferentemente das antigas potências coloniais europeias, Pequim apresenta sua atuação como uma parceria baseada em desenvolvimento econômico e respeito à soberania nacional dos países africanos.

Um dos principais pilares da estratégia chinesa na África é a Iniciativa Cinturão e Rota1 (Belt and Road Initiative – BRI), lançada em 2013 pelo presidente Xi Jinping.

O projeto busca conectar a China a diferentes regiões do mundo por meio de uma ampla rede de infraestrutura envolvendo portos, ferrovias, rodovias, aeroportos, oleodutos e sistemas de telecomunicações.

Na África, a iniciativa tem financiado grandes obras que ampliam a integração econômica do continente. Países como Quênia, Etiópia, Djibuti, Angola e Nigéria receberam investimentos chineses em projetos de transporte e energia.

Um dos exemplos mais simbólicos dessa estratégia é a construção da ferrovia que conecta a capital do Quênia, Nairóbi, ao porto de Mombaça, aumentando a capacidade logística do país e facilitando o comércio regional.

Essa política fortalece a presença chinesa em áreas consideradas essenciais para o comércio internacional.

A expansão chinesa no continente africano também está diretamente relacionada à necessidade de garantir acesso a recursos naturais fundamentais para sua economia.

A África possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos, incluindo:

  • Cobalto, essencial para baterias de veículos elétricos;
  • Lítio, fundamental para a transição energética;
  • Cobre, utilizado em equipamentos tecnológicos;
  • Petróleo e gás natural;
  • Minerais raros utilizados na indústria de alta tecnologia.

A título de exemplo, a República Democrática do Congo tornou-se um território estratégico devido às suas enormes reservas de cobalto. O controle e o acesso a esses recursos são fundamentais para a indústria chinesa de baterias e veículos elétricos.

Além disso, países como Angola e Nigéria possuem importância energética devido às reservas de petróleo e gás natural.

Dessa forma, a presença chinesa na África está diretamente relacionada ao objetivo de reduzir vulnerabilidades externas e garantir o abastecimento de sua economia industrial.

5. Tecnologia chinesa e a disputa pelo futuro digital da África

Outro elemento central da influência chinesa na África é o avanço tecnológico.

Empresas chinesas de telecomunicações, como Huawei e ZTE, participam da construção de redes digitais em diversos países africanos.

A expansão da infraestrutura de internet, redes móveis e sistemas de comunicação fortalece a presença tecnológica chinesa e cria novos vínculos de dependência nos campos econômico e científico-tecnológico2.

Além disso, Pequim tem ampliado sua cooperação em áreas como inteligência artificial, cidades inteligentes, vigilância digital e comércio eletrônico.

Esse movimento desperta preocupação nos Estados Unidos e em países europeus, que enxergam a tecnologia como uma nova fronteira da competição geopolítica global.

6. O papel estratégico dos portos africanos

A presença chinesa na África também possui uma importante dimensão naval. O controle e o acesso a portos estratégicos são fundamentais para garantir rotas comerciais e ampliar a capacidade logística chinesa no Oceano Índico e no Atlântico.

O caso mais conhecido é a base militar chinesa em Djibuti, inaugurada em 2017. Localizada próxima ao estreito de Bab el-Mandeb, uma das principais rotas marítimas do comércio mundial, essa instalação demonstra que a atuação chinesa não se limita ao campo econômico.

Embora Pequim afirme que suas bases possuem finalidade de apoio logístico e combate à pirataria, não se pode ignorar que elas também representam uma projeção do poder militar chinês além de sua vizinhança

O avanço chinês na África tem provocado uma reavaliação das estratégias ocidentais para o continente.

Durante décadas, Estados Unidos e países europeus mantiveram forte influência política e econômica na região. Entretanto, a combinação entre investimentos chineses, rapidez na execução de projetos e oferta de financiamento aumentou a competitividade de Pequim.

Washington passou a considerar a África como uma região importante dentro da disputa global por influência, especialmente em áreas relacionadas à segurança energética, minerais estratégicos e tecnologia. No entanto, a atual política externa do país tem afastado os países do continente africano de sua esfera de influência e possibilitando que cada vez mais eles sejam atraídos pela China.

A União Europeia, por sua vez, busca fortalecer seus vínculos históricos com o continente africano por meio de novos investimentos e acordos comerciais. Todavia, ressentimentos históricos ligados à colonização e aos processos de independência das nações africanas por vezes dificultam essa aproximação, o que facilita o incremento da influência dos chineses.

A expansão chinesa oferece aos países africanos oportunidades significativas de desenvolvimento. Investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia podem contribuir para o crescimento econômico e a modernização de setores estratégicos.

Entretanto, existem também críticas relacionadas ao aumento do endividamento de alguns países africanos, à dependência econômica e à predominância de empresas chinesas em diversos setores.

O grande desafio para os governos africanos será transformar a presença estrangeira em desenvolvimento sustentável, garantindo transferência de tecnologia, geração de empregos e fortalecimento das economias nacionais.

A África tornou-se um dos principais tabuleiros da competição entre grandes potências no século XXI. A estratégia chinesa demonstra que o poder global atualmente não depende apenas de capacidade militar, mas também do controle de infraestrutura, tecnologia, recursos naturais, cadeias produtivas e de uma política externa assertiva.

Ao ampliar sua influência no continente africano, a China fortalece sua posição como potência global e desafia a ordem internacional construída pelas potências ocidentais ao longo do século XX.

Para o Brasil, que possui relações históricas, culturais e econômicas com diversos países africanos, compreender esse movimento é fundamental. A crescente presença chinesa na África influencia diretamente o comércio internacional, os preços das commodities e o equilíbrio geopolítico do Atlântico Sul, que historicamente se constitui em uma relevante área de interesse para o país.

A expansão chinesa sobre a África representa uma das maiores transformações geopolíticas das últimas décadas. Por meio de investimentos, comércio, tecnologia e infraestrutura, Pequim construiu uma presença estratégica que dificilmente será revertida no curto prazo.

O continente africano, com seus recursos naturais, população jovem e posição geográfica privilegiada, será cada vez mais importante na disputa pelo poder global.

A pergunta central para as próximas décadas não será apenas quem influenciará a África, mas como os países africanos utilizarão essa competição entre potências para construir seu próprio caminho de desenvolvimento. A conferir.

E você? Como avalia e analisa a questão ? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique ! Participe !

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre a Iniciativa Cinturão e Rota: https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/12/nova-rota-da-seda/

2 Conheça mais sobre os Campos do Poder Nacional: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/10/poder-nacional/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *