América Latina: A Nova Rota da Seda e os principais projetos da China

Alessandro Sberni*

A inserção da China no hemisfério ocidental deixou de ser apenas uma relação de compra e venda de commodities para se transformar em uma das maiores reconfigurações estruturais do século XXI. Através da Iniciativa Cinturão e Rota1 (Belt and Road Initiative – BRI), conhecida como a Nova Rota da Seda, Pequim vem realizando sua expansão geoeconômica por diversas regiões do globo.

America Latina

Se no início do projeto, em 2013, o foco encontrava-se na na Ásia Central, na Europa e na África, hoje a América Latina emerge como uma região crucial no planejamento chinês. Neste contexto, mais de 20 países da região já assinaram memorandos de entendimento para a realização de grandes obras de infraestrutura financiadas por capital chinês, que redesenham o comércio global e acendem o alerta geopolítico nos Estados Unidos.

Para se entender o avanço da Nova Rota da Seda na América Latina, é preciso compreender as necessidades mútuas de ambos os lados. A região historicamente sofre com um “gargalo de infraestrutura” (falta de portos modernos, ferrovias eficientes e redes de energia integradas) o que encarece as exportações e limita o desenvolvimento interno dos países da região.

Por outro lado, a China necessita garantir segurança alimentar e energética para sustentar sua imensa população e sua capacidade industrial. Ao financiar e construir infraestrutura na América Latina, Pequim cumpre um triplo objetivo:

  1. Logística Eficiente: Otimiza o escoamento de soja, minério de ferro, cobre e lítio2 em direção aos portos asiáticos.
  2. Exportação de Capital e Serviços: Abre mercados para as superestruturas estatais de engenharia e construção chinesas.
  3. Influência Geopolítica: Consolida sua presença diplomática em uma zona tradicionalmente considerada a “esfera de influência” dos Estados Unidos.

Os investimentos chineses deixaram de ser apenas “ideias de prancheta” e tem se transformado em megaprojetos de engenharia civil, energia limpa e conectividade digital. Abaixo, destacamos as principais frentes de atuação da Nova Rota da Seda na região.

O exemplo mais emblemático da Rota da Seda Marítima na região é o Megaporto de Chancay, localizado a cerca de 80 km ao norte de Lima, no Peru. Controlado majoritariamente pela estatal chinesa Cosco Shipping, o porto foi projetado para ser o principal hub de conexão profunda entre a América do Sul e a Ásia.

Antes de Chancay, os navios de carga que saíam da costa do Pacífico sul-americano frequentemente precisavam fazer escalas no México ou nos Estados Unidos antes de cruzar o oceano. Com o novo terminal portuário, o tempo de viagem até a China foi reduzido em até duas semanas. A obra não serve apenas ao Peru; a intenção de longo prazo é canalizar por ali também as exportações de grãos do Centro-Oeste brasileiro, contornando o Canal do Panamá.

Embora o ambicioso projeto da Ferrovia Transcontinental (Bioceânica), que pretendia ligar o litoral atlântico do Brasil ao litoral pacífico do Peru, enfrente complexidades ambientais e financeiras de execução, a China continua investindo em malhas ferroviárias pontuais. Na Argentina, a modernização da ferrovia Belgrano Cargas, financiada pela China Machinery Engineering Corporation (CMEC), revitalizou a capacidade de transporte de grãos das províncias do norte até os portos de Rosário.

A infraestrutura energética é outro pilar essencial da BRI. Na Patagônia argentina, as represas Néstor Kirchner e Jorge Cepernic representam um dos maiores investimentos chineses fora de suas fronteiras no setor hidrelétrico. Paralelamente, no norte do mesmo país, a China construiu o Parque Solar Cauchari, uma das maiores plantas de energia fotovoltaica da América Latina, situada a mais de 4.000 metros de altitude.

No Brasil, embora o país adote uma postura de parceria bilateral sem necessariamente assinar formalmente a adesão plena à BRI, a presença da estatal State Grid no setor de transmissão elétrica reflete a exata lógica de investimentos do ecossistema chinês: o controle de redes estratégicas de infraestrutura vital.

O avanço da China na região não ocorre apenas por meio de concreto e aço. A Rota da Seda Digital envolve a instalação de cabos de fibra óptica submarinos e a implementação de redes 5G por empresas como a Huawei. Países como Chile e Colômbia têm sido parceiros importantes no desenvolvimento dessa conectividade, gerando fortes atritos diplomáticos com governos ocidentais que alegam riscos à segurança de dados.

O avanço da Nova Rota da Seda tem gerado um intenso debate sobre os limites da soberania e os riscos econômicos para as nações da América Latina. Críticos da iniciativa, frequentemente alinhados às preocupações expressas pelo Council on Foreign Relations e think tanks ligaods aos Estados Unidos, apontam para o risco da chamada “diplomacia da armadilha da dívida”. O argumento é que países com menor capacidade fiscal podem se endividar excessivamente com bancos estatais chineses e, em caso de calote, ver-se forçados a ceder o controle de ativos estratégicos (como portos ou redes elétricas) para Pequim.

Por outro lado, governos latino-americanos argumentam que as instituições financeiras ocidentais tradicionais, como o FMI e o Banco Mundial, impõem condicionalidades políticas e de austeridade fiscal rigorosas, enquanto a China oferece financiamento ágil focado puramente em infraestrutura e negócios.

Entendemos que a aproximação da América Latina com a China não deve ser lida com a lupa do alinhamento ideológico ao regime chinês, mas sim com a lente do pragmatismo do desenvolvimento. Diante do vácuo de investimentos estruturais do Ocidente, e a política isolacionista e protecionista dos Estados Unidos, a região busca o parceiro disponível para financiar seu futuro logístico.

A Nova Rota da Seda aos poucos consolida a China como um ator geopolítico permanente e relevante na América Latina. Os projetos executados no continente mostram que Pequim não enxerga a região apenas como um quintal de suprimentos, mas sim como parte integrante de suas cadeias globais de suprimento e valor.

Para a América Latina, o grande desafio será negociar com a superpotência asiática de forma multilateral, garantindo que os novos portos, ferrovias e usinas sirvam para a industrialização e integração local, e não apenas para perpetuar um modelo primário-exportador, ao mesmo tempo em que deverá enfrentar pressões dos Estados Unidos, que não aceitarão passivamente a presença chinesa em sua área de influência histórica. Em um cenário global de crescente fragmentação e transição hegemônica, a neutralidade pragmática parece ser a moeda mais valiosa dos governos latino-americanos. A conferir.

E você? Qual o seu pensamento sobre a presença da China na América Latina? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe !

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre a Nova Rota da Seda: https://www.geopoliticando.com.br/2025/07/12/nova-rota-da-seda/

2 Conheça mais sobre o Triângulo do Lítio na América do Sul: https://www.geopoliticando.com.br/2025/10/04/triangulo-do-litio/

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