O Brasil e a geopolítica do diesel

Alessandro Sberni*

Quando pensamos em geopolítica energética, normalmente associamos o tema ao petróleo, ao gás natural ou, mais recentemente, aos minerais estratégicos utilizados na transição energética. Entretanto, existe um derivado do petróleo cuja importância econômica e estratégica frequentemente passa despercebida: o óleo diesel.

Diesel

O diesel movimenta caminhões, máquinas agrícolas, locomotivas, embarcações, equipamentos industriais e veículos militares. Sua disponibilidade influencia diretamente o transporte de mercadorias, a produção de alimentos, o funcionamento da economia e a capacidade operacional das Forças Armadas. Diferentemente de outros produtos energéticos, uma interrupção no fornecimento de diesel pode provocar consequências quase imediatas sobre a sociedade.

Por essa razão, o diesel não deve ser compreendido apenas como uma mercadoria, mas como um recurso estratégico de poder nacional. Em um cenário internacional caracterizado por conflitos militares, sanções econômicas e disputas comerciais, compreender a geopolítica do diesel tornou-se fundamental para avaliar a segurança energética dos países.

O diesel e a economia mundial

O diesel é um dos principais combustíveis utilizados no transporte de cargas e na movimentação de máquinas pesadas. Sua importância decorre da combinação entre eficiência energética, autonomia operacional e ampla infraestrutura de distribuição.

Sua utilização está presente em praticamente todas as etapas das cadeias produtivas.

Na agricultura, abastece tratores, colheitadeiras e equipamentos de transporte. Na indústria, movimenta máquinas e sistemas auxiliares. Na logística, permite o funcionamento de caminhões, locomotivas e embarcações. Essa abrangência transforma o diesel em um elemento essencial para o funcionamento das economias modernas.

O problema geopolítico surge quando países dependem de fornecedores externos para garantir seu abastecimento. Nesses casos, crises políticas, guerras ou restrições comerciais podem comprometer a disponibilidade do combustível e elevar seus preços.

A consequência é que a segurança do abastecimento de diesel passa a integrar a própria segurança econômica e nacional dos Estados. E esse é o caso do Brasil.

A produção: petróleo não é sinônimo de diesel

Um aspecto importante é que possuir grandes reservas de petróleo não significa necessariamente alcançar a autossuficiência em diesel. O petróleo bruto precisa passar por processos industriais de refino, responsáveis pela produção de diferentes derivados, como gasolina, querosene de aviação e óleo diesel.

Além da capacidade instalada, a produção depende da configuração tecnológica das refinarias e das características do petróleo processado. Desta forma, um país pode ser grande produtor e exportador de petróleo bruto e, simultaneamente, depender da importação de derivados, como o diesel.

Essa realidade demonstra que o poder energético não está relacionado exclusivamente ao controle das reservas naturais. A capacidade de refino, a infraestrutura logística, os estoques estratégicos e a diversificação dos fornecedores também constituem instrumentos de poder geopolítico.

Nesse contexto, refinarias e terminais de combustíveis representam infraestruturas estratégicas cuja proteção assume especial importância em situações de crise internacional ou mesmo em conflitos armados.

O diesel como instrumento geopolítico: o caso da Rússia

A Rússia ocupa uma posição relevante no mercado internacional de diesel, resultado de sua expressiva produção petrolífera e capacidade de refino. Historicamente, o país foi um dos principais fornecedores de derivados de petróleo para o mercado europeu. Entretanto, a invasão da Ucrânia, em 2022, e as sanções econômicas impostas pelos países ocidentais provocaram profundas alterações nas rotas internacionais de comercialização.

As restrições europeias aos derivados russos estimularam Moscou a buscar novos compradores, especialmente em mercados asiáticos, africanos e latino-americanos. Neste cenário, o Brasil passou a ocupar posição de destaque nessa reorganização comercial.

Ao mesmo tempo, os ataques ucranianos contra refinarias russas demonstraram a vulnerabilidade da infraestrutura energética em conflitos militares contemporâneos. Segundo a Agência Internacional de Energia, os danos provocados por esses ataques reduziram a capacidade operacional do sistema de refino russo, afetando a disponibilidade de derivados no mercado internacional, e consequentemente, provocando um aumento nos preços.

O caso demonstra como a cadeia produtiva do diesel pode se transformar simultaneamente em fonte de receitas, instrumento de influência econômica e constituir-se em alvo estratégico durante conflitos armados.

A segurança do abastecimento: o papel do Oriente Médio

O Oriente Médio representa outra região fundamental para a geopolítica do diesel. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait possuem expressiva participação nas cadeias internacionais de petróleo e derivados. Uma parcela importante dessas exportações depende de rotas marítimas que atravessam o Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã.

Estima-se que aproximadamente 20 milhões de barris diários de petróleo e outros líquidos petrolíferos atravessaram o estreito de Ormuz em 2024, volume que representa cerca de 20% do consumo mundial desses produtos.

As tensões militares envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, intensificadas em 2026, colocaram novamente essa passagem marítima no centro das preocupações internacionais. A possibilidade de ataques contra petroleiros ou de interrupções prolongadas da navegação representa um risco significativo para o mercado mundial.

Os efeitos não se limitam ao petróleo bruto. A redução da oferta de derivados, especialmente diesel, também compromete a segurança energética internacional. Em agosto de 2026, as exportações líquidas combinadas de diesel e gasóleo do Golfo e da Rússia estavam aproximadamente 1,6 milhão de barris diários abaixo dos níveis de fevereiro, demonstrando que conflitos regionalizados podem produzir consequências econômicas em escala mundial.

O Brasil e o diesel: o paradoxo energético

O Brasil apresenta uma situação particularmente interessante do ponto de vista da geopolítica do diesel. Embora seja um importante produtor e exportador de petróleo, o país ainda depende de importações para atender integralmente sua demanda por diesel.

Essa dependência decorre de fatores relacionados à capacidade de refino, à estrutura logística e ao perfil do consumo nacional.

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o diesel importado representa aproximadamente 20% do consumo nacional. É conveniente esclarecer que trata-se de uma “proporção” mensal, sujeita a variações ao ao longo dos períodos do ano.

A relevância dessa dependência torna-se evidente quando observamos a estrutura dos transportes brasileiros. De acordo com o Balanço Energético Nacional 2026, o setor de transportes respondeu por aproximadamente 70% do consumo energético de óleo diesel em 2025.

Em vista desse fato, oscilações no preço ou na disponibilidade do combustível podem provocar consequências diretas sobre o custo dos alimentos, a produção agrícola, o PIB e a inflação. Existe, portanto, um paradoxo: o Brasil possui abundantes recursos petrolíferos, mas permanece vulnerável a acontecimentos internacionais que afetam o mercado de diesel.

A dependência do diesel russo

Um dos fenômenos mais relevantes dos últimos anos foi o crescimento da participação russa nas importações brasileiras de diesel. A reorganização do comércio internacional, provocada pelas sanções ocidentais contra Moscou, abriu oportunidades para importadores brasileiros adquirirem combustível de origem russa.

Segundo a Agência Nacional de Petróleo, a Rússia respondeu por aproximadamente 65% do diesel importado pelo Brasil em 2024, proporção que diminuiu para 57% em 2025 e 47% no primeiro trimestre de 2026

Do ponto de vista econômico, essa relação comercial pode oferecer vantagens de preços e diversificação em relação a fornecedores tradicionais. Entretanto, do ponto de vista geopolítico, esse relalçao também cria vulnerabilidades.

Eventuais sanções secundárias, restrições financeiras, dificuldades de transporte ou interrupções na produção russa podem comprometer a regularidade do abastecimento brasileiro. A questão central não é de natureza ideológica e nem tampouco de adotar-se políticas e medidas para se deixar de importar diesel russo, mas buscar-se aalternativas para evitar uma dependência excessiva de qualquer fornecedor internacional.

O diesel e o poder militar

Além de sua importância econômica, o diesel constitui um componente fundamental da logística militar. A maior parte dos veículos blindados, caminhões de transporte, equipamentos de engenharia, geradores e parte das embarcações militares são movidas à diesel. Isso significa que a capacidade de sustentar operações militares está diretamente relacionada à existência de cadeias logísticas eficientes e estoques adequados.

Ao longo da história, operações militares demonstraram que a superioridade tecnológica ou numérica podem ser insuficientes quando as forças combatentes não dispõem dos suprimentos necessários e da logística adequada para fazê-los chegar onde são necessários e dentro de prazos adequados. Sob essa perspectiva, o diesel representa um elemento de conexão entre duas expressões do poder nacional1: a econômica e a militar.

O diesel e a transição energética

A expansão dos veículos elétricos, dos biocombustíveis e de novas tecnologias energéticas tem o potencial de modificar progressivamente a demanda mundial pelo óleo diesel. Entretanto, a substituição do diesel em segmentos como transporte pesado, agricultura, navegação e operações militares ainda apresenta desafios econômicos e tecnológicos significativos.

No Brasil, o biodiesel já participa da composição do combustível comercializado, contribuindo para reduzir parcialmente a necessidade de diesel fóssil. Atualmente, a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil é da ordem de 15%.

Apesar desses avanços, a transição energética não eliminará imediatamente a importância geopolítica do diesel. Durante as próximas décadas, a segurança de seu abastecimento continuará sendo uma preocupação relevante para governos e setores produtivos.

Destarte, a transição deve, portanto, ser compreendida como um processo gradual, no qual combustíveis tradicionais e novas fontes energéticas coexistirão.

Conclusão: o diesel como questão de segurança nacional

A análise da questão do diesel demonstra que recursos aparentemente comuns podem assumir importância estratégica decisiva para o funcionamento dos Estados. A guerra na Ucrânia, as sanções contra a Rússia e as crises no Oriente Médio evidenciam como conflitos internacionais podem modificar os fluxos comerciais, comprometer a produção e elevar os custos de um combustível essencial.

Para o Brasil, o principal desafio consiste em conciliar eficiência econômica e segurança energética. Isso envolve ampliar a capacidade e a eficiência do refino nacional, diversificar fornecedores, aperfeiçoar a infraestrutura logística, avaliar estoques estratégicos e desenvolver alternativas energéticas economicamente viáveis.

Mais do que buscar autossuficiência a qualquer custo, o objetivo deve ser construir um sistema de abastecimento resiliente, capaz de enfrentar crises internacionais. Afinal, em uma economia profundamente dependente do transporte rodoviário, a segurança do abastecimento de diesel não representa apenas uma questão energética: constitui um componente essencial da soberania e do poder nacional brasileiro. A conferir.

E você? Quais são as suas reflexões sobre a geopolítica do diesel ? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticado. Opine! Critique! Participe!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre os campos do poder nacional: https://www.geopoliticando.com.br/2025/05/10/poder-nacional/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *