Os desafios geopolíticos do Brasil após as eleições de 2026

Alessandro Sberni*

O Brasil e a nova realidade internacional

As eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026 ocorreram em um cenário internacional caracterizado pela intensificação das disputas entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas e pelo enfraquecimento de mecanismos tradicionais de cooperação internacional.

Brasil

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 25 de outubro, estabelece a continuidade da atual administração federal. Entretanto, os principais desafios geopolíticos brasileiros ultrapassam os resultados eleitorais e as orientações político-partidárias de qualquer governo.

O Brasil possui características que lhe conferem posição relevante no sistema internacional: grande extensão territorial, população expressiva, abundância de recursos naturais, importante capacidade de produção agropecuária e localização estratégica no Atlântico Sul. Apesar dessas vantagens, enfrenta limitações relacionadas à dependência tecnológica, à infraestrutura, à capacidade industrial e à projeção de poder internacional.

Nesse contexto, a principal questão geopolítica consiste em compreender como o Brasil poderá transformar seus recursos e potencialidades em instrumentos efetivos de poder nacional, preservando sua autonomia diante de um sistema internacional cada vez mais competitivo.

O equilíbrio estratégico entre Estados Unidos e China

Um dos principais desafios da política externa brasileira consiste em administrar suas relações com Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas da atualidade.

A China consolidou-se como principal destino das exportações brasileiras, especialmente de produtos agropecuários e minerais. Em 2025, as vendas brasileiras ao mercado chinês alcançaram aproximadamente US$ 100 bilhões, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Os Estados Unidos, por sua vez, continuam exercendo influência significativa sobre o sistema financeiro internacional, as tecnologias avançadas, os investimentos e os mecanismos globais de segurança.

A rivalidade entre essas potências apresenta desafios particulares para o Brasil. Uma aproximação excessiva com qualquer um dos lados poderá reduzir a margem de manobra diplomática brasileira. Por outro lado, o distanciamento simultâneo das duas potências poderá limitar oportunidades comerciais, tecnológicas e financeiras.

Neste cenário dual, o Brasil necessita buscar manter e ampliar a sua autonomia estratégica, que pode ser definida como como a capacidade de um Estado tomar decisões de acordo com seus interesses nacionais, sem subordinação automática às prioridades de outras potências.

Em termos práticos, isso significa desenvolver relações pragmáticas com diferentes parceiros, evitando compromissos e alinhamentos ideológicos que restrinjam desnecessariamente sua liberdade de atuação. O desafio consiste em combinar cooperação econômica, independência diplomática e capacidade de negociação.

O BRICS e a busca por influência internacional

A crescente importância do BRICS representa outra dimensão relevante da geopolítica brasileira. O agrupamento reúne países com diferentes características políticas, econômicas, psicossociais e estratégicas, mas que compartilham interesses relacionados à ampliação de sua participação nas instituições de governança internacional.

Para o Brasil, o BRICS oferece possibilidades de cooperação financeira, comercial e tecnológica, além de ampliar o diálogo com economias emergentes. Entretanto, a participação brasileira também exige cautela estratégica. As divergências existentes entre integrantes do grupo demonstram que o BRICS não constitui uma aliança militar nem um bloco de interesses completamente homogêneos.

O desafio brasileiro consiste em aproveitar suas oportunidades sem transformar a participação no grupo em fator de antagonismo com outros parceiros internacionais. Sob a perspectiva geopolítica, o BRICS deve ser compreendido como um instrumento adicional de inserção internacional, e não como substituto das demais relações diplomáticas brasileiras.

América do Sul: a importância do entorno regional

A América do Sul representa o espaço geográfico de maior importância imediata para a segurança e a projeção internacional do Brasil. O país compartilha aproximadamente 16,9 mil quilômetros de fronteiras terrestres com dez vizinhos sul-americanos e com a Guiana Francesa, território ultramarino francês.

Essa condição geográfica cria oportunidades de integração econômica, mas também desafios relacionados à segurança fronteiriça, aos fluxos migratórios e à criminalidade transnacional. Além disso, a instabilidade política e econômica de determinados países pode provocar repercussões sobre o território brasileiro. A situação venezuelana, as dificuldades de integração regional e a competição pela influência de potências externas demonstram a importância do entorno estratégico sul-americano.

Assim a integração regional constitui-se em um dos mais importantes desafios geopolíticos contemporâneos para o Brasil. O fortalecimento das conexões rodoviárias, ferroviárias, energéticas e comerciais são instrumentos fundamentais para ampliar essa integração regional. Além disso, o MERCOSUL, apesar de todas as dificuldades conjunturais, permanece como instrumento importante da inserção internacional brasileira.

A entrada em vigor do acordo comercial provisório entre Mercosul e União Europeia, em maio de 2026, ampliou as possibilidades de integração com o mercado europeu, enquanto o acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) criou novas oportunidades de diversificação comercial. Em resumo, para o Brasil, o desenvolvimento de uma infraestrutura regional integrada representa não apenas um objetivo econômico, mas também um fator de fortalecimento geopolítico.

Os grandes espaços estratégicos: Amazônia e Atlântico Sul1

A dimensão continental brasileira apresenta duas áreas de especial importância geopolítica: a Amazônia e o Atlântico Sul.

A Amazônia reúne recursos hídricos, biodiversidade, reservas minerais e extensas áreas de floresta tropical. Sua importância ultrapassa as questões ambientais, envolvendo soberania territorial, segurança das fronteiras, infraestrutura e exploração sustentável dos recursos naturais. O desafio brasileiro consiste em conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e presença efetiva do Estado.

No Atlântico Sul, encontram-se importantes rotas marítimas comerciais, recursos pesqueiros e expressivas reservas de petróleo e gás natural. A chamada Amazônia Azul constitui, portanto, uma dimensão fundamental dos interesses estratégicos nacionais.

A proteção dessas áreas depende de capacidades adequadas de vigilância, monitoramento e defesa, especialmente diante do crescimento da competição internacional por recursos naturais e controle de rotas marítimas.

Segurança energética e recursos naturais

A disponibilidade de recursos naturais representa uma das principais vantagens competitivas do Brasil. O país possui importantes reservas de petróleo, minério de ferro, lítio, terras raras e outros minerais considerados estratégicos para a economia contemporânea. Entretanto, a simples disponibilidade desses recursos não garante maior poder geopolítico.

O verdadeiro desafio consiste em agregar valor à produção, desenvolver tecnologias e reduzir a dependência de processos industriais realizados no exterior. O setor energético exemplifica essa situação. Embora seja um importante produtor de petróleo, o Brasil continua dependente da importação de determinados derivados, especialmente óleo diesel2.

Essa vulnerabilidade pode expor a economia brasileira às consequências de conflitos internacionais, restrições comerciais e interrupções das cadeias de abastecimento. Da mesma forma, a exploração de minerais estratégicos somente produzirá benefícios geopolíticos duradouros se estiver associada ao desenvolvimento de capacidade industrial e tecnológica nacional. A segurança energética e o domínio de cadeias produtivas estratégicas constituem, portanto, componentes essenciais da soberania econômica brasileira.

Reindustrialização e a disputa tecnológica

A competição internacional está cada vez mais relacionada ao domínio de tecnologias avançadas. Inteligência artificial, semicondutores, computação de alto desempenho, sistemas espaciais e tecnologias de defesa passaram a ocupar posição central na disputa pelo poder mundial.

Nesse cenário, países incapazes de desenvolver ou acessar tecnologias críticas poderão enfrentar limitações crescentes à sua autonomia econômica e estratégica. O Brasil apresenta capacidades relevantes em setores como agronegócio, aeronáutica, energia e pesquisa científica. Entretanto, ainda depende de fornecedores estrangeiros em diversas áreas tecnológicas sensíveis.

O desafio consiste em fortalecer a articulação entre universidades, centros de pesquisa, empresas e instituições governamentais, com o objetivo de se revitalizar e modernizar o parque industrial brasileiro. Também será necessário desenvolver políticas industriais capazes de ampliar a competitividade nacional, sem desconsiderar as vantagens oferecidas pela integração ao comércio internacional. A soberania tecnológica não exige produzir internamente todos os equipamentos e componentes, mas pressupõe reduzir dependências excessivas em áreas consideradas fundamentais.

Defesa nacional e capacidade de dissuasão

A capacidade militar constitui uma das expressões tradicionais do poder nacional. Para um país com as dimensões territoriais do Brasil, a defesa representa um instrumento necessário à proteção da soberania, dos recursos naturais e das infraestruturas estratégicas.

Os conflitos internacionais recentes demonstraram a importância crescente de sistemas não tripulados, guerra eletrônica, inteligência, defesa cibernética e tecnologias espaciais. A experiência da guerra entre Rússia e Ucrânia evidencia, igualmente, o papel da logística, da capacidade industrial e da disponibilidade de equipamentos e munições.

Para o Brasil, o principal desafio consiste em manter capacidades militares compatíveis com sua dimensão estratégica, respeitando as limitações orçamentárias existentes. Isso envolve investimentos seletivos, modernização tecnológica, fortalecimento da Base Industrial de Defesa , ampliação da cooperação internacional, manutenção de Forças Armadas treinadas, equipadas e em estado permanente de prontidão operacional e desenvolvimento constante de doutrina militar aplicável ao espaço geográfico de interesse nacional.

Sob essa perspectiva, a capacidade de dissuasão não está relacionada à intenção de participar de conflitos, mas à possibilidade de desencorajar ameaças contra os interesses nacionais.

O grande desafio: transformar potencial geopolítico em poder efetivo

A geopolítica clássica demonstra que fatores como território, população, recursos naturais e posição geográfica constituem importantes elementos de poder. Entretanto, essas características não são suficientes para garantir influência internacional.

A transformação de potencialidades em poder efetivo depende da capacidade do Estado de mobilizar seus recursos de maneira coordenada e sustentável. No caso brasileiro, essa transformação exige continuidade institucional, planejamento de longo prazo, investimentos em infraestrutura e desenvolvimento científico e tecnológico. Também pressupõe maior integração entre as diferentes expressões do poder nacional: política, econômica, militar, psicossocial e científico-tecnológica.

A ausência de articulação entre esses elementos pode limitar a capacidade brasileira de aproveitar suas vantagens geográficas e econômicas. Por essa razão, os grandes objetivos geopolíticos nacionais precisam ser tratados como políticas de Estado, capazes de ultrapassar e suplantar os ciclos eleitorais. Eis o desafio.

Conclusão: os desafios geopolíticos nacionais ultrapassam as eleições

Não há dúvidas que as eleições presidenciais de 2026 representam um marco importante na vida institucional brasileira. Entretanto, os principais desafios geopolíticos do país possuem natureza estrutural e continuarão presentes independentemente da orientação política dos governos.

A competição entre Estados Unidos e China, a reorganização da ordem econômica internacional, a instabilidade regional, a segurança energética e a disputa por tecnologias estratégicas constituem questões que exigirão atenção permanente.

O Brasil reúne condições geográficas, econômicas e naturais para ampliar sua participação no sistema internacional. Todavia, transformar essas vantagens em influência efetiva dependerá da capacidade de formular e executar estratégias nacionais consistentes.

Mais do que escolher alinhamentos internacionais baseados em convicções meramente ideológivcas, o desafio central consiste em fortalecer a capacidade brasileira de decidir autonomamente, negociar com diferentes parceiros e proteger seus interesses.

Em síntese, o principal desafio geopolítico do Brasil após as eleições de 2026 não será apenas definir sua posição no mundo, mas desenvolver os instrumentos necessários para sustentar essa posição com autonomia, estabilidade e poder nacional. Estaremos a altura do desafio ? A conferir.

E você? Quais considera os maiores desafios geopolíticos brasileiros? Deixe a sua opiniao nos Comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!

(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Saiba mais sobre a geopolítica do Atlântico Sul: https://www.geopoliticando.com.br/2026/05/16/atlantico-sul/

2 Leia sobre o Brasil e a geopolítica do diesel: https://www.geopoliticando.com.br/2026/10/24/geopolitica-do-diesel/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *