Alessandro Sberni*
Criada em 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas nasceu com uma missão ambiciosa: evitar que a humanidade voltasse a enfrentar uma tragédia daquela dimensão. Oito décadas depois, entretanto, a ONU encontra-se diante de uma questão fundamental: como preservar a paz internacional em um mundo que já não corresponde àquele para o qual foi criada?

A guerra da Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a rivalidade entre Estados Unidos e China e o fortalecimento das potências emergentes revelam as dificuldades de um sistema internacional construído em torno do equilíbrio de poder existente ao término da Segunda Guerra.
A 81ª Assembleia Geral da ONU, realizada em setembro de 2026, tornou essas contradições particularmente evidentes. Em seu último discurso anual à Assembleia como Secretário Geral, António Guterres defendeu uma profunda reforma das instituições internacionais, alertando que os mecanismos de cooperação coletiva estão sob pressão crescente. A questão, portanto, ultrapassa a capacidade da ONU de resolver conflitos específicos. O que está em discussão é a própria organização do poder mundial.
Uma organização criada para um mundo que não existe mais
Quando a ONU foi fundada, a configuração política do mundo era muito diferente da atual. Grande parte da África e da Ásia ainda estava submetida ao colonialismo europeu. Alemanha e Japão haviam sido derrotados militarmente, enquanto Estados Unidos e União Soviética emergiam como superpotências. Foi nesse contexto que se estabeleceu a estrutura do Conselho de Segurança1.
Cinco países receberam assentos permanentes e direito de veto: Estados Unidos, União Soviética (posteriormente Rússia), China, França e Reino Unido. A lógica era simples: nenhuma organização internacional conseguiria preservar a paz se ignorasse os interesses das principais potências militares.
O problema é que desde então o mundo modificou-se profundamente. A Índia tornou-se uma das maiores economias do planeta. O Brasil consolidou-se como importante potência regional. A Alemanha e o Japão recuperaram seu peso econômico, enquanto países africanos passaram a reivindicar maior participação nas decisões internacionais. Apesar dessas transformações, a estrutura permanente do Conselho de Segurança permanece essencialmente a mesma desde 1945, não mais refletindo as estruturas de poder das primeiras décadas do século XXI.
O direito de veto: principal instrumento de poder e maior obstáculo à reforma
O Conselho de Segurança possui 15 integrantes, sendo cinco permanentes e dez eleitos para mandatos de dois anos. Suas decisões podem estabelecer sanções internacionais, autorizar operações militares e criar missões de paz. Entretanto, qualquer um dos cinco membros permanentes pode bloquear uma resolução substantiva por meio do veto.
Na prática, isso significa que uma decisão apoiada pela maioria dos países pode ser impedida por uma única grande potência.
A guerra da Ucrânia demonstra essa limitação. Como membro permanente, a Rússia possui capacidade de bloquear decisões substantivas do Conselho contrárias aos seus interesses. Situação semelhante ocorre em discussões envolvendo Israel e Palestina, nas quais os Estados Unidos têm utilizado o veto para impedir determinadas resoluções.
O problema não está limitado a um país. Ele decorre de uma estrutura que permite às grandes potências proteger seus interesses estratégicos mesmo diante da oposição de grande parte da comunidade internacional. Ao mesmo tempo, eliminar completamente o veto poderia tornar a participação dessas potências menos atraente.
Esse é o grande dilema da reforma: como democratizar o sistema sem comprometer a participação dos países que concentram maior poder militar e econômico?
Os BRICS e a reivindicação por uma ordem multipolar
A expansão dos BRICS acrescentou uma nova dimensão ao debate. O agrupamento reúne economias emergentes que defendem maior participação nas instituições internacionais e procuram reduzir sua dependência das estruturas financeiras dominadas pelo Ocidente, o que não significa que seus integrantes possuam interesses idênticos.
China e Índia mantêm disputas territoriais. Rússia e Brasil possuem prioridades estratégicas diferentes. Arábia Saudita e Irã competem por influência regional. Mesmo assim, compartilham uma reivindicação: a necessidade de adaptar a governança internacional à distribuição contemporânea do poder econômico e político.
Nesse contexto, a reforma da ONU tornou-se uma das principais bandeiras de diversos países emergentes. A proposta não representa necessariamente a substituição das Nações Unidas por outra organização, mas a transformação das instituições existentes para ampliar sua representatividade. O Pacto para o Futuro, aprovado pela Assembleia Geral em 2024, reconheceu expressamente a necessidade de reformar o Conselho de Segurança, incluindo maior representação africana e de regiões sub-representadas.
A crise financeira também ameaça a ONU
Existe outro problema frequentemente ignorado: o financiamento das atividades da ONU. A Organização depende das contribuições de seus Estados-membros para manter sua estrutura administrativa, suas operações de paz e diversas atividades humanitárias.
Quando países deixam de pagar suas obrigações ou reduzem contribuições voluntárias, a organização perde capacidade operacional. Em setembro de 2026, os Estados Unidos realizaram pagamentos de US$ 725 milhões ao orçamento regular e US$ 102 milhões às operações de paz, mas ainda acumulavam aproximadamente US$ 1,31 bilhão em obrigações pendentes do orçamento regular.
A situação revela uma contradição importante: os governos exigem que a ONU responda a crises cada vez mais complexas, mas nem sempre fornecem os recursos necessários para cumprir essas responsabilidades. Uma organização financeiramente fragilizada possui menor capacidade para proteger refugiados, distribuir alimentos, coordenar operações humanitárias e apoiar países afetados por conflitos.
A ONU ainda é necessária?
Diante de tantos óbices, surge uma pergunta inevitável: a ONU perdeu sua utilidade? A resposta não é trivial e exige distinguir duas funções diferentes.
A primeira é a capacidade de impedir guerras entre grandes potências. Nesse campo, os resultados são limitados, principalmente quando os próprios membros permanentes do Conselho de Segurança estão envolvidos nos conflitos, como é o caso do conflito Rússia-Ucrânia e do conflito Estados Unidos-Irã.
A segunda é a cooperação internacional em áreas que vão além do tema da segurança militar. A ONU possui diversas agências e programas que atuam em áreas como saúde, alimentação, proteção de refugiados, educação, desenvolvimento e assistência humanitária em diversas partes do mundo.
Como exemplo, pode-se citar a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Programa Mundial de Alimentos (WFP), o Fundo das Nações Unidas para a infância (UNICEF) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) como instituições e programas que realizam atividades concretas em diferentes regiões do planeta.
Em síntese, é lícito afirmar-se que as dificuldades enfrentadas do Conselho de Segurança para apresentar soluções tempestivas para os conflitos entre os membros da ONU não significam que todo o sistema das Nações Unidas seja irrelevante. A ONU não é apenas uma organização destinada a impedir guerras. É também uma infraestrutura permanente de cooperação internacional.
A ONU e os novos desafios do multilateralismo
Todavia, a transformação do sistema internacional não se resume apenas a conflitos militares. Temas como Inteligência Artificial, mudanças climáticas, segurança cibernética, pandemias e proteção dos oceanos são problemas que nenhum país consegue administrar isoladamente.
A inteligência artificial é um exemplo particularmente importante. Os Estados Unidos e China disputam a liderança tecnológica relativa ao tema, mas os riscos associados à utilização militar, à desinformação e à concentração de capacidades computacionais possuem consequências globais.
Em seu discurso na Assembleia Geral no mês de setembro de 2026, o Secretário Geral defendeu mecanismos multilaterais de governança da inteligência artificial, com compartilhamento de informações sobre riscos e salvaguardas internacionais.
O desafio consiste em construir regras compartilhadas em um ambiente no qual as grandes potências também consideram a tecnologia um instrumento de competição estratégica. Essa contradição estará presente em praticamente todos os grandes temas da geopolítica nas próximas décadas.
Conclusão
O mundo deixou de ser dominado exclusivamente pelas potências que construíram a ordem de 1945. Novos centros de poder econômico, tecnológico e militar reivindicam participação nas decisões globais. Paralelamente, os desafios internacionais tornaram-se mais complexos.
A competição entre Estados Unidos e China, as guerras regionais, as mudanças climáticas e a inteligência artificial exigem cooperação justamente quando a confiança entre as grandes potências encontra-se em um dos patamares mais baixos desde a criação da ONU.
A reforma das Nações Unidas, portanto, não se resume somente à ampliação ou a reformulação do Conselho de Segurança. Envolve financiamento, representatividade, capacidade operacional, mecanismos de decisão e adaptação a problemas que sequer existiam quando a organização foi fundada.
A questão central não é simplesmente se a ONU conseguirá preservar a ordem mundial criada em 1945, mas se os Estados conseguirão transformá-la em uma instituição capaz de responder ao mundo de 2050.
O futuro do multilateralismo (e da própria ONU) dependerá dessa capacidade de adaptação e da disposição das grandes potências de aceitar que a estabilidade internacional exige compromissos que ultrapassem seus interesses imediatos. A conferir.
E você? Como avalia a relevância da ONU dos dias atuais? Qual o papel que o Brasil pode desempenhar nesse processo de reestruturação das Nações Unidas? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!
(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre o Conselho de Segurança da ONU: https://main.un.org/securitycouncil/en
Que tal conhecer um pouco mais sobre a reforma do Conselho de Segurança? Acesse : https://repositorio.esg.br/handle/123456789/728
