A China e o novo tabuleiro militar do Indo-Pacífico

Alessandro Sberni*

A disputa pelo Indo-Pacífico está entrando em uma nova fase. Durante muitos anos, a ascensão chinesa foi analisada principalmente pelo crescimento econômico, pela expansão comercial e pela crescente influência de Pequim sobre países da Ásia, da África e da América Latina. Aos poucos, porém, outro elemento vem ganhando espaço: a ampliação da capacidade militar chinesa para operar cada vez mais distante de seu território continental.

Tabuleiro militar

Os acontecimentos das últimas semanas reforçam essa tendência. Novas imagens de satélite indicam que a China acelerou a construção de infraestrutura no Antelope Reef, nas disputadas Ilhas Paracel, enquanto uma nova instalação conjunta sino-laociana entrou em operação no Laos. Ao mesmo tempo, Taiwan recebeu os primeiros caças F-16V Block 70 adquiridos dos Estados Unidos.

Individualmente, são acontecimentos distintos. Quando observados em conjunto, porém, ajudam a compreender uma transformação mais ampla: o mapa estratégico-militar do Indo-Pacífico está sendo gradualmente redesenhado.

Mar do Sul da China: o centro do tabuleiro

Poucas regiões do planeta possuem tanta importância geopolítica quanto o Mar do Sul da China. A área concentra algumas das principais rotas marítimas internacionais e envolve disputas territoriais entre China e diversos países da região. Pequim reivindica soberania sobre grande parte desse espaço marítimo, enquanto Vietnã, Filipinas, Malásia, Brunei e Taiwan possuem reivindicações próprias sobre determinadas áreas.

Nesse contexto, a construção chinesa no Antelope Reef, localizado no arquipélago das Paracel, chama particularmente a atenção. Imagens comerciais de satélite analisadas pela Reuters mostram a realização de trabalhos de nivelamento, compactação e preparação de uma pista de pouso de grandes dimensões. Estima-se que a infraestrutura poderia estar concluída por volta de meados de 2027. A China, entretanto, não anunciou oficialmente se o local será uma base militar.

A dimensão da transformação já vinha sendo acompanhada pela Asia Maritime Transparency Initiative1 (AMTI). De acordo com levantamento publicado em março, a área aterrada em Antelope Reef aproximava-se de 1.490 acres, colocando o local em uma escala semelhante à de alguns dos maiores postos avançados chineses no Mar do Sul da China. Em agosto, novas imagens já indicavam obras compatíveis com a preparação de uma pista semelhante às existentes em outros postos chineses na região.

A importância de Antelope Reef

A importância estratégica não está apenas no tamanho da ilha artificial. Uma pista capaz de receber aeronaves militares permitiria ampliar a presença aérea chinesa sobre parte relevante do Mar do Sul da China. Portos, radares, sistemas de vigilância e eventualmente instalações defensivas poderiam, dependendo da configuração final da estrutura, ampliar ainda mais essa capacidade.

Antelope Reef também está relativamente próximo da ilha chinesa de Hainan, um dos pontos estratégicos mais importantes da defesa chinesa. Hainan abriga importantes instalações navais, incluindo estruturas utilizadas pela força de submarinos da China. Isso significa que a expansão das instalações nas Paracel pode exercer uma dupla função: ampliar a presença chinesa sobre áreas disputadas e contribuir para a proteção das aproximações marítimas ao sul do território continental.

Mas existe outro elemento fundamental: bases e postos avançados não precisam necessariamente participar de um conflito para produzir efeitos geopolíticos. Sua simples existência altera cálculos militares, amplia possibilidades de patrulhamento e aumenta a capacidade de determinado país de manter presença permanente sobre uma região. É justamente aí que reside parte da importância das ilhas artificiais chinesas.

Laos: uma nova peça no jogo

Outro acontecimento significativo ocorreu longe do litoral. Em 29 de setembro de 2026, entrou oficialmente em operação no Laos o China-Laos Joint Support and Training Center, juntamente com a China-Laos Friendship Aviation Academy, nas proximidades do aeroporto de Ban Keun.

Segundo o Ministério da Defesa chinês, a instalação é administrada conjuntamente pelos dois países e tem como objetivo apoiar o treinamento de pilotos da Força Aérea do Laos. Pequim afirma que a iniciativa não é dirigida contra terceiros e que está inserida na cooperação militar bilateral.

A estrutura, porém, vem despertando interesse entre especialistas em segurança regional. Imagens de satélite mostram uma ampla pista, áreas de apoio e diversos edifícios. Analistas consultados pela Reuters avaliam que a instalação pode representar um passo importante na expansão da presença militar chinesa no Sudeste Asiático, embora exista debate sobre até que ponto ela deve ser considerada uma “base chinesa” propriamente dita.

A China ainda possui uma rede internacional de bases significativamente menor do que a norte-americana. Sua presença externa mais conhecida está no Djibuti, na África, enquanto instalações utilizadas em cooperação com o Camboja também despertam atenção crescente.

O Laos pode representar, portanto, mais uma etapa de um modelo diferente de expansão: instalações compartilhadas, centros de treinamento, acordos logísticos e cooperação militar com governos parceiros.

A resposta de Taiwan

Enquanto a China amplia sua infraestrutura regional, Taiwan procura fortalecer sua capacidade de defesa. Recentemente chegaram à ilha os dois primeiros caças F-16V Block 70 de um lote de 66 aeronaves adquirido dos Estados Unidos em 2019. O contrato é avaliado em aproximadamente US$ 8 bilhões e sofreu atrasos relacionados à produção e a questões técnicas.

Os novos aviões possuem radares, sistemas eletrônicos e aviônicos mais modernos do que versões anteriores do F-16. Sua chegada possui importância não apenas militar, mas também política.

Taiwan depende fortemente do fornecimento norte-americano de equipamentos militares. Washington, embora não mantenha relações diplomáticas formais com Taipei, mantém uma política de apoio à capacidade de autodefesa taiwanesa. Pequim, por sua vez, considera Taiwan parte de seu território e se opõe às vendas de armamentos norte-americanos à ilha.

O resultado é um dos pontos de maior tensão estratégica do planeta.

A geografia no centro da estratégia

Existe uma importante lição geopolítica nessa transformação estratégica-militar no Indo-Pacífico: apesar das mudanças provocadas pela tecnologia, a geografia continua tendo enorme importância.

Controlar ou manter presença próxima aos estreitos marítimos, às rotas comerciais e aos pontos de passagem das forças navais continua sendo essencial para qualquer grande potência. O Mar do Sul da China conecta o Oceano Pacífico ao Oceano Índico e funciona como uma das grandes artérias do comércio asiático. Mais ao norte, o Estreito de Taiwan possui enorme importância econômica e estratégica.

Por isso, cada nova pista, porto ou instalação militar pode modificar gradualmente as condições de operação das forças presentes na região. Não significa necessariamente que um conflito seja inevitável. Significa que as principais potências estão procurando aumentar suas opções estratégicas caso uma crise ocorra.

A nova arquitetura de poder no Indo-Pacífico

A expansão das instalações chinesas não deve ser observada isoladamente. Ela faz parte de um processo mais amplo de transformação do equilíbrio militar asiático. Pequim procura ampliar sua capacidade de operar além do território continental. Washington busca preservar sua presença regional e aprofundar alianças. Taiwan investe em defesa. Japão, Filipinas, Austrália, Vietnã e outros países também ajustam suas estratégias diante da mudança do ambiente regional.

O Indo-Pacífico está, portanto, deixando de ser apenas o principal centro econômico do século XXI. Está se tornando também seu principal tabuleiro estratégico. Antelope Reef, a instalação sino-laociana e a chegada dos novos F-16 a Taiwan são peças diferentes desse processo.

A questão mais importante não é saber se existe hoje um “cinturão militar chinês” no Indo-Pacífico, uma conclusão que as evidências disponíveis ainda não permitem afirmar. A questão é perceber que Pequim está acumulando gradualmente infraestrutura, capacidade logística e opções militares capazes de ampliar sua presença regional.

E, à medida que esse processo avança, os demais atores também respondem. É dessa interação entre expansão, contenção, dissuasão e disputa por posições estratégicas que poderá emergir a nova arquitetura de poder da Ásia nas próximas décadas. A conferir.

E você? Como avalia o atual cenário geopolítico do Indo-Pacífico? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!

Indo-Pacífico

*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/

1 Conheça mais sobre a Iniciativa Marítima de Transparência da Ásia (AMTI): https://amti.csis.org/

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