Alessandro Sberni *
O Chifre da África voltou a ocupar o centro das preocupações internacionais. Nas últimas semanas, a deterioração da segurança no norte da Etiópia evoluiu rapidamente para uma crise militar envolvendo diretamente Etiópia e Eritreia, dois países que já travaram uma guerra devastadora entre 1998 e 2000 e que, paradoxalmente, chegaram a se aproximar politicamente a partir de 2018.

O governo etíope acusou formalmente a Eritreia de realizar uma “invasão em larga escala” no norte do país, especialmente na região do Tigray. As autoridades eritreias rejeitam a acusação e afirmam que Adis Abeba estaria utilizando o episódio como justificativa para uma eventual agressão.
Mais do que uma disputa bilateral, porém, a crise envolve antigas rivalidades territoriais, o futuro político do Tigray, a busca etíope por acesso ao Mar Vermelho e uma complexa rede de alianças que inclui Egito, Sudão, Somália e potências externas interessadas nas rotas marítimas do Mar Vermelho.
Uma longa história de tensão
As relações entre Etiópia e Eritreia carregam décadas de tensão. A Eritreia tornou-se independente da Etiópia em 1993, depois de uma longa guerra de independência. Com isso, a Etiópia perdeu seu litoral e tornou-se o país mais populoso do mundo sem acesso direto ao mar.
Poucos anos depois, disputas territoriais desencadearam a guerra entre os dois países, de 1998 a 2000. Apesar do fim formal dos combates, a fronteira permaneceu altamente militarizada durante quase duas décadas. A situação mudou em 2018, quando o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed promoveu uma histórica reaproximação com o presidente eritreu Isaias Afwerki. A iniciativa contribuiu para que Abiy recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 2019.
A aliança ganhou uma dimensão militar durante a guerra civil etíope entre 2020 e 2022. O governo federal de Abiy entrou em conflito com a Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF) e tropas eritreias intervieram ao lado das forças federais etíopes. O inimigo comum aproximava Adis Abeba e Asmara.
Mas esse equilíbrio começou a desaparecer após o Acordo de Pretória, assinado em novembro de 2022 entre o governo etíope e o TPLF. A Eritreia ficou fora das negociações, e as divergências entre os antigos aliados aumentaram progressivamente. O acordo continua sendo considerado pela União Africana o principal instrumento político para impedir uma nova guerra no norte etíope.
O retorno da guerra ao Tigray
O estopim imediato da crise atual está novamente no Tigray, a região mais setentrional da Etiópia, que abriga o berço do povo tigrinia e o coração histórico do antigo império de Axum. Em setembro de 2026, forças ligadas ao TPLF e outros grupos armados iniciaram uma nova ofensiva contra o governo federal etíope. Aeroportos importantes, incluindo os de Mekelle, Axum e Shire, chegaram a ser ocupados, enquanto confrontos se espalharam para áreas próximas de Amhara e Afar.
O governo federal respondeu com tropas terrestres, artilharia e, principalmente, drones, uma capacidade militar que se tornou decisiva para a Etiópia nos últimos anos. Forças pró-governo posteriormente retomaram o aeroporto de Mekelle e avançaram sobre a capital regional.
A situação ganhou outra dimensão quando surgiram relatos de forças eritreias atravessando a fronteira norte do Tigray. Unidades de combate eritreias teriam entrado em localidades como Adigrat e Idaga Hamus. Adis Abeba afirma que essas tropas chegaram a avançar dezenas de quilômetros dentro do território etíope. Asmara contesta essa versão.
Portanto, é importante fazer uma distinção: há evidências e relatos de movimentação militar eritreia, mas as narrativas dos dois governos sobre a extensão e os objetivos dessa intervenção continuam profundamente divergentes.
A questão do Mar Vermelho e o porto de Assab
Por trás da crise existe outro fator estratégico fundamental: o acesso da Etiópia ao mar. Com mais de 120 milhões de habitantes e uma das maiores economias da África Oriental, a Etiópia depende principalmente do porto de Djibuti para seu comércio exterior. Para o governo Abiy Ahmed, essa dependência representa uma vulnerabilidade estratégica.
Nos últimos anos, o primeiro-ministro passou a defender publicamente que a Etiópia precisa obter uma saída mais segura e permanente para o Mar Vermelho. Em outubro, Abiy voltou a afirmar que o acesso marítimo é essencial para o desenvolvimento futuro do país, embora tenha declarado que pretende alcançá-lo por meio de negociações. Para a Eritreia, essas declarações possuem uma leitura completamente diferente.
O porto eritreu de Assab, próximo ao estreito de Bab el-Mandeb1, seria a opção geograficamente mais lógica para a Etiópia. Durante décadas, antes da independência eritreia, ele serviu como importante saída marítima etíope. Em Asmara, portanto, cresce o temor de que a reivindicação etíope por acesso marítimo possa algum dia transformar-se em reivindicação territorial.
Dessa forma, o tema que Adis Abeba apresenta como uma necessidade econômica pode ser interpretado pela Eritreia como uma ameaça à soberania nacional.
Egito e Sudão: outros atores relevantes
A crise também está ligada a outra disputa estratégica: a rivalidade entre Etiópia e Egito pelo rio Nilo. Há anos, Cairo e Adis Abeba disputam os efeitos da Grande Barragem do Renascimento Etíope, construída no Nilo Azul. O Egito considera o rio uma questão de segurança nacional e teme que a barragem reduza sua segurança hídrica.
Nesse contexto, uma aproximação entre Egito e Eritreia preocupa profundamente a Etiópia. O governo etíope chegou a acusar Eritreia, Egito e Sudão de apoiar grupos insurgentes. Os três países rejeitam essas acusações. Ao mesmo tempo, representantes de países da região vêm intensificando consultas diplomáticas e de segurança diante do risco de ampliação da guerra.
A própria União Africana demonstrou preocupação ao divulgar recentemente uma declaração específica sobre o aumento das tensões entre Etiópia, Eritreia e Egito, pedindo moderação, manutenção dos canais diplomáticos e respeito à soberania territorial dos Estados.
Reflexos nas rotas de comércio
A localização geográfica transforma uma eventual guerra entre Etiópia e Eritreia em problema muito maior do que uma disputa africana localizada. A Eritreia possui aproximadamente mil quilômetros de costa ao longo do Mar Vermelho, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. Pouco ao sul encontra-se Bab el-Mandeb, estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, posteriormente, ao Oceano Índico.
Navios que percorrem a rota entre Ásia e Europa através do Canal de Suez precisam passar por essa região. Qualquer ampliação das hostilidades no Chifre da África se somaria às crises existentes no Sudão, Somália, Iêmen e Oriente Médio, aumentando os riscos de segurança para o corredor marítimo do Mar Vermelho.
Por isso, Eritreia, Djibuti e Somália adquiriram crescente importância para Estados Unidos, China, países do Golfo, União Europeia e outras potências interessadas na segurança marítima da região.
A questão humanitária
Em caso de recrudescimento do conflito entre a Etiópia e a Eritréia a população civil provavelmente será novamente a principal vítima. A guerra no Tigray entre 2020 e 2022 deixou centenas de milhares de mortos direta ou indiretamente, além de milhões de deslocados e uma infraestrutura regional profundamente degradada.
A nova escalada da crise já está afetando transporte, comércio e operações humanitárias. A ONU informou que ataques aéreos e atividade crescente de drones estão colocando civis e infraestrutura em risco, enquanto operações humanitárias em partes do Tigray chegaram perto da paralisação.
Um conflito armado de maiores proporções entre Etiópia e Eritreia poderia produzir novos fluxos de refugiados para Sudão, Djibuti e outros países vizinhos, justamente em uma região que já enfrenta algumas das maiores crises humanitárias do mundo.
O Chifre da África: novo foco geopolítico
A crise entre Etiópia e Eritreia demonstra como o Chifre da África tornou-se uma das regiões mais sensíveis da geopolítica contemporânea. A disputa deixou de ser apenas territorial. Ela combina segurança nacional, rivalidades étnicas, acesso a portos, rotas marítimas, recursos hídricos e alianças internacionais.
Para a Etiópia, conseguir maior autonomia marítima é apresentado como um objetivo estratégico de longo prazo. Para a Eritreia, preservar sua costa e impedir qualquer revisão territorial é uma questão existencial. Entre os dois países encontra-se o Tigray, novamente transformado em campo de batalha.
Ainda existe espaço para negociação, especialmente por meio da União Africana. Mas a deterioração das relações diplomáticas, as movimentações militares e as acusações mútuas indicam que o risco de uma guerra interestatal aberta é hoje significativamente maior do que era há poucos meses.
Caso essa barreira seja ultrapassada, a consequência poderá ir muito além de Adis Abeba e Asmara. Uma nova guerra no Chifre da África afetaria o equilíbrio de poder regional, a segurança do Mar Vermelho e uma das principais rotas comerciais entre Europa e Ásia, transformando uma antiga rivalidade africana em mais um dos grandes focos de instabilidade da ordem internacional, inclusive com a participação e/ou interferência de outros atores com interesses comerciais e militares na região, como os Estados Unidos, a China, a Arábia Saudita e a Turquia. A conferir.
E você? Como avalia o risco de um conflito entre a Etiópia e a Eritréia? Quais as consequências para a África e para o comércio mundial? Deixe sua opinião nos comentários ou entre em Contato com a Equipe Geopoliticando. Opine! Critique! Participe!
(*) Coronel de Cavalaria e Estado-Maior Veterano do Exército Brasileiro. Graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Administrador de Empresas e MBA em Gestão Financeira. Pós-graduado em Geopolítica e Relações Internacionais. Especialista em Bases Geohistóricas para Formulação Estratégica. Especialista em Altos Estudos de Defesa. Especialista em Análise de Inteligência Estratégica pelo Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas. Mestre em Operações Militares. Foi Assesssor-Chefe e analista do Centro de Inteligência do Exército . Foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi Comandante do 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado (Quaraí/RS). Linkedin : https://www.linkedin.com/in/alessandro-sberni-92a17aa9/
1 Saiba mais sobre o Estreito de Bab el-Mandeb: https://www.geopoliticando.com.br/2026/09/19/houthis-e-bab-el-mandeb/
